A notícia saiu em março: “ENEM reprova 87.000 candidatos por conta do uso do pronome neutro na prova de redação”. Não foi bem assim. Os erros gramaticais são um dos critérios de perda de pontos. Mas a notícia gerou polêmica. E como tudo no Brasil de hoje vira uma disputa política, mais uma vez a disputa foi formada. Há pouco tempo, uma atriz global tentou lacrar e decidiu levantar a bandeira contra o consagrado nome do vestido ou blusa “tomara que caia”. Ela queria mudar o nome, mas não colou. Com tantos problemas ocorrendo mundo afora e Brasil adentro, deveríamos focar nas questões primordiais. Mas voltando ao pronome neutro, a discussão surgiu em 2020 como uma tentativa de se criar uma terceira forma além do “A” para o gênero feminino e do “O” para o gênero masculino. A ideia seria a de se usar o Pronome Neutro para se referir a todos, sem particularizar gênero. É claro que como toda discussão sobre modificações no idioma, gera polêmica e surgem inúmeras publicações a respeito. No entanto, é bom saber que a Norma Culta ainda não reconhece tal forma de escrita, portanto, seu uso deve ser evitado em redações como as das provas do Enem. Uma famosa escola carioca tentou implantar a novidade no seu ensino. “Querides alunes!” começava assim o comunicado aos pais e alunos sobre a decisão. Não sei que fim levou, mas até meu corretor ortográfico aqui reclamou. Enfim, já foram encaminhadas à Câmara dos Deputados propostas proibindo o uso de pronome neutro na grade curricular do ensino público e privado. Portanto, o assunto deveria estar encerrado. Para ilustrar esse tema reproduzo um texto publicado nas redes sociais, por uma professora que joga luz na discussão. Segue o texto com algumas adaptações: “Eu sou professora de português. Estava explicando um conceito de português e fui chamada de desrespeitosa por isso. Não faz diferença nenhuma mudar a vogal temática de substantivos e adjetivos para ser ‘neutre’. Em português, a vogal temática na maioria das vezes não define gênero. Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra. Vou mostrar: O motorista. Termina em A e não é feminino. O poeta. Termina em A e não é feminino. A ação, depressão, impressão, ficção. Todas as palavras que terminam em ção são femininas, embora terminem com O. Boa parte dos adjetivos da língua portuguesa podem ser tanto masculinos quanto femininos, independentemente da letra final: feliz, triste, alerta, inteligente, emocionante, livre, doente, especial, agradável, etc. Terminar uma palavra com E não faz com que ela seja neutra. A alface. Termina em E e é feminino. O elefante. Termina em E e é masculino. Como o gênero em português é determinado muito mais pelos artigos do que pelas vogais temáticas, se queremos uma língua neutra, precisamos criar um artigo neutro, não encher um texto de X, @ e E. E mesmo que fosse o caso, o português não aceita gênero neutro. Teríamos que mudar um idioma inteiro pra combater o preconceito. Meu conselho é: ao invés de insistir tanto na coisa do gênero, entendam que gênero é uma coisa socialmente construída. O que existe é sexo. Em segundo lugar, gênero linguístico, gênero literário, gênero musical, são coisas totalmente diferentes de “gênero”. Não faz absolutamente diferença nenhuma mudar gêneros de palavras. Isso não torna o mundo mais acolhedor. Em terceiro lugar, seria melhor se engajar em algo que realmente fizesse a diferença” (texto de Vivian Cabrelli Mansano, adaptado).
Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas













