A canoagem é muito mais do que apenas remar em um rio. Este esporte aquático abrange uma variedade de modalidades, cada uma delas oferecendo uma experiência única e desafiadora. De águas calmas a corredeiras turbulentas, cativa a atenção de atletas e amadores, proporcionando não apenas uma prática esportiva, mas uma conexão íntima com a natureza e uma busca constante por superação.

Este é o caso de Selma Campi Zorzella, que descobriu no remo a força que precisava para sua recuperação. Em 2017, ao realizar um exame de rotina, veio o diagnóstico que mudaria sua vida: câncer de mama. Meses depois, foi submetida à mastectomia total esquerda, já que a retirada de apenas um quadrante não garantiria margens seguras. Nesse momento, medos e angústias dominavam seus pensamentos. Além disso, ainda apresentava sequelas metabólicas, decorrentes de um tumor de hipófise operado
em 2013, que deixou o cenário ainda mais complexo.
Para lidar com os sintomas, além do tratamento farmacológico, buscou intervenções complementares, com destaque para o exercício físico – diz ter procurado se reabilitar de diversas formas, com a prática de corrida, exercícios aeróbicos em academia, alongamento, caminhadas, mas nada lhe dava prazer ou resolvia o problema. Até que encontrou, há exatamente um ano, o Remama e foi como uma luz em sua recuperação.
“No início, acreditava que o fortalecimento físico trazido pela remada seria a solução para
a minha dor, mas foi muito além. Proporcionou-me alegria, calor à alma e o acolhimento que eu tanto precisava. A sensação de equilíbrio ao remar e o amor e a empatia que senti das mulheres fortes que conheci, que compartilham seus medos e suas angústias frente ao diagnóstico e tratamento do câncer de mama, foi inestimável”, descreveu, em depoimento no livro Mar de Rosas, recém-lançado pelo programa.

Hoje, o Remama é seu projeto de vida: “nele, encontrei-me como esportista e mulher forte que superou o câncer de mama. Sinto-me feliz em poder ajudar outras mulheres e sei da importância de compartilhar minhas experiências, para servir de exemplo para quem está enfrentando o diagnóstico e o tratamento do câncer de mama. Entendo, agora, o quanto é essencial ter uma rede de apoio. Viva a equipe Remama Dragão Rosa! Uma rede de mulheres guerreiras, fortes e resilientes, unidas pela dor, mas, sobretudo, pela esperança”.
Assim, a história de Selma se une às demais que remam pela raia da USP, assim como outros grupos de remadoras rosas pelo mundo. Mulheres que, ao se entregarem à potência das remadas, estão vencendo o desafio do câncer de mama.
Uma paixão que molda vidas e sonhos
É também nas mesmas águas calmas da Raia da USP que um jovem de 26 anos, apaixonado pela canoagem, treina seus futuros atletas. Estamos falando de Olavo Soares, técnico do Esporte Clube Pinheiros (ECP).
Sua história com a canoagem começou de forma inesperada, inicialmente como atleta de remo, até que a necessidade de substituir um professor o aproximou cada vez mais desse esporte aquático. “Comecei a remar em 2012, durante um projeto de férias”, relembra , “e desde então, competi em diversos campeonatos estaduais e até mesmo em um campeonato sul-americano. Nunca imaginei que isso se tornaria minha profissão. É uma nova fase, uma oportunidade de sempre mergulhar sem medo nas possibilidades que a vida nos oferece”.
A transição de atleta para treinador não foi fácil: “foi um grande desafio começar a ensinar, já que sempre tive a visão de atleta e conseguir transmitir o que se sabe é um pouco difícil no início. Conforme fui me aproximando dos alunos, percebi suas habilidades e necessidades individuais, enquanto recebia um suporte bacana dos outros professores e técnicos, compartilhando ideias e pegando algumas dicas com eles. No final das contas, essa colaboração foi super valiosa e me ajudou bastante a me adaptar ao papel de instrutor”. Como treinador, ele comenta a satisfação em ver seus alunos superando desafios e atingindo metas.

Para Olavo, a canoagem não é apenas um esporte, mas sim uma paixão que molda vidas e sonhos, e ele está determinado a continuar fazendo sua parte para impulsionar esse esporte no Brasil e no mundo. Destaca as oportunidades oferecidas pelo ECP para os sócios, com treinos recreativos de segunda a sábado, e a recente criação de uma equipe competitiva voltada para adolescentes. E vê com bons olhos a inclusão da modalidade como a canoagem slalom extremo nas Olimpíadas, acreditando que isso trará maior visibilidade e desenvolvimento para a modalidade.
“A canoagem no Brasil está em ascensão”, comenta otimista, embora defenda que são necessários mais incentivos e apoio para expandir o esporte por todo o país. Falando sobre suas expectativas para as competições olímpicas, Olavo destaca a alta expectativa e competição acirrada entre os atletas. Ele aposta nos talentos brasileiros, como a dupla de canoístas C2 Evandilson Neto e Filipe Vieira e a promissora Ana Sátila, para brilhar nos jogos.
E para quem quiser praticar o esporte, por onde começar? “É importante encontrar um local adequado com supervisão de um professor. Persistência e dedicação são fundamentais. Buscar inspiração em atletas mais experientes e comprometer-se com os treinos são chaves para o progresso”, ensina o jovem treinador.
Muito além de uma simples atividade física
Aos 39 anos de idade, natural de São Paulo e atualmente residindo em Atibaia, Caio Moreno tem uma jornada de 25 anos dedicados à canoagem, desde os primeiros remos até os títulos conquistados e os desafios superados. “Comecei na canoagem em 1999 e, desde então, tenho me dedicado a esse esporte”, conta o atleta que acumula, ao longo de sua carreira, 10 títulos brasileiros, quatro títulos pan-americanos e representou o Brasil em sete campeonatos mundiais.
De passador de fax e motoboy a atleta, sua paixão pelo esporte é evidente em cada palavra. “Eu era um jovem que estava entre os 14 e 15 anos e queria ter meu próprio dinheiro. Procurei um lugar para trabalhar e acabei sendo contratado pela Rafting Canoar, em Juquitiba. Entrei lá para trabalhar como office boy e passador de fax, na época em que ainda não havia e-mail e as programações eram enviadas deste modo. Por uma feliz coincidência, essa empresa me apresentou ao rio e fez me apaixonar pela canoagem, aos 14 anos, um mês antes de completar 15. Desde então, nunca mais larguei esse esporte. Com o tempo, desenvolvi o desejo de competir e, à medida que entrei nas competições, busquei evoluir e alcançar a vitória, o que me motivou continuamente”, lembra.

Para ele, a canoagem vai muito além do que um simples esporte ou atividade física. “Ela me moldou como pessoa, homem e pai de família”, confessa. “É impossível separar quem sou eu da canoagem, pois ela sempre esteve presente em minha vida, me ensinando lições valiosas e me transformando para melhor”, completa.
Entre os muitos momentos marcantes, Caio destaca o Mundial de 2010, realizado em Milão, na Itália: “foi um encontro especial entre meus amigos brasileiros e italianos, e a sensação de representar meu país em um evento tão grandioso é algo que guardo com muito carinho”. Já quanto aos desafios, menciona o triste momento em que perdeu um amigo durante uma descida no rio. “Foi uma situação que me marcou profundamente, mas tive que encontrar forças para continuar”, compartilha.

Sobre o crescimento da canoagem no Brasil, Caio se mostra otimista. “Nos últimos anos, tenho acompanhado de perto o crescimento constante do esporte, tanto na parte competitiva quanto na recreativa”, afirma. Ele destaca a importância da conscientização dos iniciantes para evitar acidentes e garantir a segurança nas águas.
Quanto às expectativas olímpicas, ele demonstra apoio aos atletas brasileiros, especialmente no caiaque slalom, modalidade que tem grande afinidade. “Estou torcendo muito pelo nosso representante Pepe Gonçalves, que tem grandes chances de trazer uma medalha olímpica”, revela. E para Caio, vai além: “quanto mais pessoas praticarem a canoagem, mais fiscais teremos nos rios, contribuindo para a proteção do meio ambiente”.
Em meio a uma conversa repleta de paixão e comprometimento, fica evidente o legado que Caio Moreno deixará para a canoagem brasileira, inspirando futuras gerações a seguirem seus passos e a amarem esse esporte tão especial.

Por Juliana Martins Machado














