Nunca tivemos tantas ferramentas para nos conectar. Mas crianças e adolescentes precisam aprender algo que nenhuma tecnologia pode fazer por eles: construir relações reais. Da primeira amizade ao primeiro amor, da brincadeira ao conflito, do pertencimento à capacidade de conviver com quem pensa diferente, a escola assume um novo desafio: ensinar uma geração hiperconectada a se conectar de verdade.

Para entender os desafios que estão pautando a educação em 2026, fomos buscar referências nos principais fóruns internacionais de discussão sobre o futuro do ensino, como o World Economic Forum, em Davos, a Bett UK, em Londres, e o SXSW EDU, nos Estados Unidos. Entre centenas de debates, selecionamos algumas das abordagens que mais se destacaram, reunindo teses, provocações e falas de pesquisadores, educadores, psicólogos, escritores e especialistas que estão pensando os impactos das transformações sociais e tecnológicas sobre crianças e adolescentes.

São reflexões que ajudam a compreender por que temas como conexão, pertencimento, empatia, convivência, amizade e relações humanas ganharam tanta relevância e servem como ponto de partida para ouvir como as escolas da nossa região estão respondendo, na prática, a esses novos desafios.
Uma infância “pró-presença”
Em vez de discutir apenas quanto tempo as crianças devem permanecer longe das telas, Rebecca Winthrop, diretora do Center for Universal Education da Brookings Institution, propôs uma mudança interessante de perspectiva durante o SXSW EDU 2026. Diante de uma realidade em que inteligência artificial e tecnologia estarão cada vez mais incorporadas ao cotidiano, Winthrop sugeriu pensar em uma infância pró-presença, pró-humano e pró-conexão. Ou seja: mais do que simplesmente retirar a tecnologia, é preciso criar oportunidades reais de convivência que sejam valorizadas pelas crianças.
Mais do que simplesmente limitar o uso de telas, deveríamos promover uma infância pró-presença? Como criar uma cultura escolar em que conversar, brincar, praticar esportes, criar juntos e estar verdadeiramente presente seja valorizado e desejado pelas crianças?
Antes da escola, vem a família e é no cotidiano familiar que as crianças aprendem o valor de estar junto. Criar espaços de presença não exige grandes programações: uma refeição por dia compartilhada à mesa, com tempo para conversar e ouvir, um jogo da memória, uma história lida em grupo, uma receita preparada em família, coisas assim. Experiências potentes para construir vínculo, desenvolver linguagem e ampliar repertórios ensinam a cooperar e, principalmente, mostram à criança que a presença do outro é prazerosa e tem valor. O papel da escola é ampliar esse repertório. Criar ambientes e experiências que convidem as crianças a explorar, descobrir, criar, conversar, cooperar e se relacionar. Uma cultura escolar pró-presença se constrói quando oferecemos situações em que a curiosidade é despertada, o corpo está em movimento, as mãos estão criando, as ideias circulam e as relações acontecem.
Claudia Alvarenga, diretora pedagógica da Sphere Granja Viana.

Existem experiências que precisam vir antes da tecnologia
O psicólogo social Jonathan Haidt, professor da NYU Stern School of Business e autor de The Anxious Generation, recomendou muita cautela na introdução da inteligência artificial na infância durante o World Economic Forum Annual Meeting 2026, em Davos. Ao discutir os possíveis impactos da tecnologia sobre o desenvolvimento cognitivo e social das crianças, foi categórico ao falar sobre IA nos primeiros anos escolares: “Mantenha-a fora do ensino infantil.”
A provocação levanta questões anteriores à própria tecnologia: quais experiências humanas uma criança precisa viver antes de começar a delegar parte delas às máquinas?
Existe uma idade adequada para introduzir determinadas tecnologias? Quais habilidades sociais — conversar, brincar, cooperar, lidar com tédio, frustração e conflito — precisam ser desenvolvidas antes que parte importante da experiência infantil seja mediada pela tecnologia?
Talvez a pergunta mais importante não seja “com que idade a tecnologia deve entrar?”, mas “o que não pode sair quando ela entra?” Para nós, uma criança pode conviver com tecnologia sem perder aquilo que a constitui: o corpo em movimento, o brincar sem roteiro, a conversa demorada, o tédio que vira invenção, o conflito que ensina negociação, a espera, o vínculo e a experiência concreta do mundo. É isso que nossos educadores procuram promover todos os dias. A tecnologia pode chegar em momentos diferentes e cumprir funções diversas, mas nunca ocupar o lugar daquilo que só uma relação humana pode ensinar. No “Jeito Bosque de Ser”, inovar não é colocar mais tecnologia na infância, mas formar pessoas tão inteiras que saibam usá-la sem ser usadas por ela.
Pedro Brandão, diretor da Escola Bosque das Letras.

É preciso suportar o desconforto
Becky Kennedy utilizou o conceito de “time under tension” no World Economic Forum Annual Meeting 2026, em Davos. Para a psicóloga, fundadora e CEO da Good Inside, assim como os músculos precisam permanecer sob tensão para se desenvolver, capacidades humanas precisam de algum grau de esforço, incerteza e desconforto.
“Ser criativo está muito relacionado à nossa capacidade de tolerar a incerteza”, disse.
Ao tentar evitar frustrações, conflitos e desconfortos, podemos estar retirando das crianças justamente experiências que as ensinam a conviver? Como a escola trabalha a espera, a negociação, o erro e a resolução de conflitos desde cedo?
Na Escola Pitangueiras, acreditamos que educar também é preparar a criança para lidar com aquilo que nem sempre sai como ela gostaria. Por isso, não buscamos evitar todas as frustrações e conflitos, mas acolher e orientar as crianças para que aprendam com essas experiências. O projeto socioemocional Líder em Mim faz parte desse processo, trabalhando diariamente empatia, respeito, responsabilidade e autonomia. Ensinamos a esperar, ouvir o outro, negociar, reconhecer sentimentos, lidar com o erro e buscar soluções para os conflitos. Tudo isso está ligado à nossa missão de formar indivíduos críticos, éticos, capazes e felizes. Acreditamos que uma educação baseada em carinho e respeito fortalece a autonomia e a autoconfiança, preparando nossos alunos não apenas para a escola, mas para a vida e para as relações que construirão ao longo dela.
Cleís Castelluber Guazzelli, diretora pedagógica da Escola Pitangueiras.

Aprender exige esforço
Durante a sessão Defying Cognitive Atrophy, no World Economic Forum Annual Meeting 2026, em Davos, Anna Vignoles, pesquisadora em educação e diretora do Leverhulme Trust, chamou a atenção para algo aparentemente simples, mas fundamental no desenvolvimento infantil: aprender exige esforço. Em um mundo no qual a tecnologia oferece cada vez mais atalhos, Vignoles alertou para a importância de garantir às crianças oportunidades para desenvolver suas próprias capacidades cognitivas e conexões neurais.
“Aprender exige esforço; naturalmente, as pessoas tendem a escolher o caminho mais fácil”, afirmou.
A reflexão também pode ser aplicada às relações: aprender a esperar, negociar, dividir, discordar e resolver conflitos exige prática e não acontece sem algum esforço.
Assim como aprender exige esforço, aprender a conviver também exige prática. As crianças estão tendo tempo e autonomia suficientes para brincar, negociar regras, formar amizades e resolver seus próprios pequenos conflitos? Qual deve ser o papel do adulto nesse processo?
Nem sempre será do meu jeito. Aprender a conviver é uma construção diária e, como toda aprendizagem, exige tempo, prática, esforço e também frustração. Na escola, buscamos criar espaços para que as crianças brinquem, façam escolhas, construam amizades, negociem regras e lidem com pequenas divergências. Nem todo conflito precisa ser imediatamente resolvido pelo adulto. Nosso papel é mediar: garantir segurança e respeito, orientar quando necessário, mas também permitir que a criança encontre caminhos para resolver seus conflitos. Proteger não significa evitar toda dificuldade ou frustração. É justamente nessas experiências que ela aprende a ouvir, esperar, ceder, se posicionar, reconhecer o outro e compreender que nem sempre as situações acontecerão como ela deseja — e que o seu desejo não pode ser o único critério na convivência. Assim se constroem autonomia, empatia e responsabilidade nas relações.
Cintia Lang, diretora do Colégio Desafio.

Aprender a discordar também é aprender a conviver
Em uma sociedade marcada por opiniões cada vez mais polarizadas, a escola ganha um papel importante na formação de crianças e jovens capazes de escutar, argumentar e conviver com pontos de vista diferentes. Conexão não significa concordar sempre: relações saudáveis também são construídas quando aprendemos a sustentar divergências sem transformar o outro em adversário.
Como a escola ensina seus alunos a discordar com respeito, ouvir opiniões diferentes e defender suas próprias ideias sem romper relações? Em um mundo cada vez mais polarizado, aprender a dialogar pode ser uma das competências essenciais para a vida em sociedade?
Acompanhamos de perto o que pensadores e estudiosos apontam que vão ser saberes necessários aos próximos tempos. Privilegiar o encontro humano e o trabalho em conjunto já são parte do nosso currículo há 41 anos! Se não for assim, como teremos futuros cidadãos e cidadãs receptivos, cordiais, abertos ao “coworking” e à convivência entre diferentes? Para tornar-se um ser planetário, não basta falar mandarim ou inglês. É necessário ser socialmente alfabetizado. A boa escola deve, também, oferecer o que falta à sociedade: sem brinquedos ou telas individuais, com horários generosos de convívio entre alunos de idades variadas, muitas atividades de arte, comprometimento com a natureza (reciclagem, composteira, placas solares), projetos coletivos, “mão na massa”, corpos em movimento, construções a muitas cabeças e mãos. Para fazer diferença, é necessário fazer diferente.
Terê Fogaça de Almeida, fundadora da Escola Ágora.

Pertencer também é aprender
Durante a Bett UK 2026, em Londres, a pesquisadora Nicole Ponsford, fundadora e CEO do Global Equality Collective, moderou um debate que partiu de uma constatação importante: o sentimento de pertencimento é um dos mais fortes indicadores de frequência, engajamento e resultados dos alunos. A discussão amplia o papel da escola: não basta que a criança esteja matriculada, frequente as aulas e tenha colegas; é preciso que ela se sinta efetivamente parte daquela comunidade.
O que faz uma criança sentir que realmente pertence à escola? E como identificar aquela que está cercada de colegas, participa das aulas, mas ainda assim se sente socialmente excluída ou acredita não fazer parte do grupo?
No Via Sapiens, acreditamos que o vínculo com a escola nasce quando o estudante percebe que é visto de verdade — não apenas como aluno, mas como pessoa. Aqui, o acolhimento e a empatia começam já na portaria e fazem parte da postura de todos os colaboradores. Conhecemos nossos alunos pelo nome e eles têm liberdade para conversar com quem precisarem, da portaria à direção, à coordenação e à orientação. Essa escuta se soma a espaços de convivência, como jogos nos intervalos, que favorecem encontros, participação e novos vínculos. Nem toda exclusão é visível: alguém pode estar cercado de colegas e ainda se sentir sozinho. Por isso, observamos mudanças, silêncios e relações e buscamos agir com proximidade e cuidado. Para nós, educar para o futuro também é aprender a conviver, com respeito, empatia e diálogo. Pertencer é reconhecer o próprio lugar e contribuir para que o outro também encontre o seu.
Ana Maria dos Santos Trindade, diretora do Colégio Via Sapiens.

Aprender a enxergar o outro
Em um mundo no qual cada pessoa recebe conteúdos cada vez mais personalizados por algoritmos, desenvolver a capacidade de enxergar uma situação pela perspectiva do outro ganha uma nova importância. Na Bett UK 2026, Aidan Kelly, Programme Coordinator da Into Film, descutiu como filmes e narrativas podem ser utilizados para desenvolver empatia, pensamento crítico e a capacidade de compreender experiências a partir do ponto de vista de outra pessoa.
Empatia é apenas uma característica individual ou uma habilidade que pode ser desenvolvida? Como literatura, arte, cinema, trabalhos coletivos e experiências de convivência podem ajudar uma criança a enxergar o mundo pela perspectiva do outro?
No Colégio Sidarta, entendemos que ser empático é saber olhar para fora e também para dentro. Nossos estudantes são constantemente convidados a refletir sobre suas escolhas e sobre como se relacionam com o próximo. Em paralelo, eles aprendem a ver o mundo com outras lentes por meio de, por exemplo, ações de voluntariado que realizamos ao redor do país, quando entram em contato com realidades diferentes e se mobilizam para agir de forma colaborativa. Esse movimento também é perpassado por refinar a forma de se expressar. Por isso, criamos as disciplinas de Artes Integradas, em que eles encontram caminhos para se abrir ao mundo e interagir de forma sensata e sensível. Experiências que mostram como a empatia não se ensina apenas como conceito: ela se constrói quando escutamos, colaboramos, negociamos e nos responsabilizamos pelo que fazemos juntos.
Maria Aparecida Schleier, diretora do Colégio Sidarta.

A geração mais conectada — e mais solitária?
Durante o SXSW EDU 2026, Kasley Killam trouxe uma afirmação provocadora: “Youth are the loneliest generation” — “Os jovens são a geração mais solitária.” A especialista em saúde social mostrou que, ao mesmo tempo em que diminuem algumas formas de encontro presencial, crescem as buscas por “como fazer amigos”, “onde fazer amigos”, clubes sociais e atividades comunitárias.
O paradoxo é evidente: nunca existiram tantos meios para se comunicar e, ainda assim, construir vínculos profundos parece ter se tornado mais difícil.
Como explicar que crianças e adolescentes nunca tiveram tantos meios para se comunicar e, ao mesmo tempo, a solidão tenha se tornado tão presente? A escola percebe maior dificuldade na criação de amizades profundas e duradouras?
A Educação Adventista compreende que o ser humano foi criado para viver em relacionamento, desenvolvendo vínculos de amor, respeito, cooperação e pertencimento. Por isso, embora crianças e adolescentes tenham hoje inúmeras ferramentas para se comunicar, o contato digital nem sempre produz conexões profundas. Percebemos que muitos estudantes precisam ser ensinados e estimulados a ouvir, dialogar, compartilhar experiências e lidar com as diferenças. Na escola, buscamos criar oportunidades para que amizades verdadeiras sejam construídas por meio da convivência, do trabalho em equipe, dos projetos, do serviço ao próximo e de momentos de interação presencial. Nossa filosofia entende a educação de forma integral, contemplando as dimensões física, mental, social e espiritual. Assim, valorizamos relações baseadas em empatia, respeito e propósito, ajudando nossos alunos a compreender que amizade não é apenas estar conectado, mas estar presente, cuidar e caminhar juntos.
Fernando Pereira, diretor geral do Colégio Adventista Granja Viana.

Sentir-se seguro, valorizado e conectado
Outro ponto levantado na sessão The Belonging Gap, da Bett UK 2026, foi a necessidade de compreender quais barreiras impedem os alunos de se sentirem seguros, valorizados e conectados. A questão ganha novas dimensões quando as relações escolares não terminam no portão: conflitos, exclusões e bullying podem continuar em grupos de mensagens, redes sociais, memes e exposições públicas, fazendo com que o ambiente social da escola acompanhe o aluno 24 horas por dia.
Bullying e exclusão ganharam novas dimensões com grupos de mensagens, memes, exposição e relações que continuam online depois da aula. Como construir um ambiente no qual o aluno se sinta seguro, valorizado e conectado — inclusive quando o conflito ultrapassa os muros da escola?
No Colégio Talento, acreditamos que educar também é ensinar a conviver. Queremos que cada aluno se sinta visto, respeitado e parte de uma comunidade em que possa aprender, errar, dialogar e crescer com segurança. Esse cuidado não termina no portão da escola, porque hoje as relações continuam nas redes sociais e nos grupos de mensagens. Por isso, nosso trabalho envolve escuta, orientação, diálogo com as famílias e ações que desenvolvem empatia, responsabilidade, respeito às diferenças e consciência no ambiente digital. Quando um conflito acontece, buscamos compreender o que está por trás da situação, acolher os envolvidos e transformar aquele momento em uma oportunidade de aprendizado. Mais do que combater o bullying, nosso compromisso é fortalecer vínculos e construir, todos os dias, uma cultura de pertencimento, na qual ninguém precise diminuir o outro para encontrar o seu próprio lugar.
Silvana Oliveira, diretora pedagógica do Colégio Talento.

A amizade também se aprende brincando
Na infância, brincar com outras crianças é muito mais do que diversão. É durante essas experiências que a criança aprende a esperar, compartilhar, negociar, cooperar, perceber o sentimento do outro e construir suas primeiras amizades. Em uma rotina cada vez mais estruturada e mediada por adultos e telas, preservar espaços para o brincar coletivo também significa criar oportunidades reais de aprendizagem social.
Qual é a importância do brincar livre e coletivo para a construção das primeiras amizades? Como a escola cria oportunidades para que as crianças aprendam, na prática, a compartilhar, negociar, cooperar e resolver pequenos conflitos entre elas?
Na Fadelito, acreditamos que brincar é uma das formas mais potentes de aprender a conviver. É no brincar livre e coletivo que a criança experimenta, de maneira natural, o respeito ao espaço do outro, a espera, a troca, a cooperação e a resolução de pequenos conflitos. Por isso, criamos diariamente momentos em que as crianças possam brincar juntas, fazer escolhas, explorar diferentes espaços e construir suas próprias interações, com a presença atenta dos educadores para mediar quando necessário, sem tirar delas a oportunidade de encontrar suas próprias soluções. Mais do que ensinar regras de convivência, buscamos proporcionar experiências reais de convivência. Afinal, amizade, empatia e respeito não são aprendizados apenas teóricos: são construídos nas pequenas situações do cotidiano, quando a criança aprende a ouvir, negociar, acolher e perceber o outro. Para nós, preparar para o futuro também é ensinar a estar com o outro.
Selma Caldeira, diretora pedagógica da Escola Fadelito.

Meninos também precisam ser ouvidos
O desenvolvimento dos meninos ganhou um debate específico no SXSW EDU 2026, na sessão Advancing the Educational Attainment of Boys & Men. Especialistas discutiram questões relacionadas ao desempenho escolar, masculinidade, conflitos de gênero, mentoria, paternidade e bem-estar de meninos e jovens. Uma das reflexões que emerge desse debate é a necessidade de reconhecer dificuldades vividas por eles e oferecer referências positivas de masculinidade sem transformar meninos e meninas em grupos adversários.
Estamos conseguindo conversar com meninos sobre masculinidade, vulnerabilidade, respeito e afeto sem culpabilizá-los — e conversar com meninas sem colocar os dois grupos em lados opostos? A escola percebe um distanciamento crescente entre meninos e meninas?
É possível e o caminho é educar meninas e meninos a partir da ideia de humanidade compartilhada. Ensiná-los que, antes de qualquer diferença de gênero, cultura ou origem, somos iguais em dignidade e direitos. A escola deve desconstruir estereótipos, distribuir responsabilidades e incentivar a expressão emocional, para que o gênero deixe de ser fronteira que coloca uns contra os outros e passe a ser oportunidade para compreender como as performances sociais influenciam nossa convivência. Para aproximar meninas e meninos, precisamos criar experiências em que eles percebam que não são grupos em disputa, mas pessoas que devem se respeitar e cuidar umas das outras. A questão é oferecer a ambos repertório para construir relações baseadas em reciprocidade e cuidado. Assim contribuímos desde a infância para a formação de pessoas capazes de reconhecer as diferenças sem transformá-las em desigualdades e de construir, juntos, uma convivência mais humana.
Carolina Sperandio, diretora da unidade Rio Branco Granja Viana.
Quando a conexão deixa de ser humana
Uma das provocações mais inquietantes apresentadas por Kasley Killam no SXSW EDU 2026 diz respeito às relações entre jovens e inteligência artificial. Ao apresentar dados sobre integrantes da Geração Z que relatam estabelecer vínculos significativos com IA e até imaginar relações amorosas com companheiros artificiais, a cientista social lançou duas perguntas: “O que isso significa para a humanidade? O que isso significa para nossas relações humanas?” A discussão ultrapassa a tecnologia e toca em algo essencial: relações humanas envolvem reciprocidade, imprevisibilidade, frustração, negociação e responsabilidade pelo outro.
Quando adolescentes começam a buscar conversa, acolhimento e até vínculo afetivo em inteligências artificiais, que habilidades relacionais podem deixar de ser exercitadas? Como ensinar que uma relação humana envolve reciprocidade, imprevisibilidade, frustração e responsabilidade pelo outro?
Ao buscar acolhimento e escuta na inteligência artificial, o adolescente pode deixar de exercitar habilidades essenciais, como autorreflexão, empatia, escuta, negociação, tolerância e responsabilidade pelo impacto de suas escolhas sobre o outro. É importante ensinar que relações humanas envolvem reciprocidade, imprevisibilidade e permanência no vínculo, mesmo quando ele deixa de ser confortável.
Na escola, precisamos criar espaços para relações reais e significativas, compreendendo que, para além do corpo e da tecnologia, existe uma interioridade, uma consciência e uma afetividade que não podem ser simuladas. Educar na escola é também ajudar o estudante a encontrar sentido para a própria vida.
Natália Toledo, orientadora educacional da Escola Granja Viana.

Não basta pertencer: é preciso sentir que importamos
A jornalista, pesquisadora e autora Jennifer B. Wallace levou ao SXSW EDU 2026 o conceito de mattering: mais do que simplesmente pertencer a um grupo, seres humanos precisam sentir que são vistos, valorizados e que sua presença faz diferença para outras pessoas. Ao falar sobre jovens, pressão e resiliência, Wallace resumiu:
“Nossa resiliência não é encontrada no isolamento; ela se apoia nas relações.”
Pertencer é apenas estar incluído em um grupo ou é sentir que fazemos falta nele? Como a escola pode fazer um adolescente perceber que é visto, valorizado e importante para sua comunidade?
Quando conhecemos profundamente o adolescente e procuramos atuar respeitando sua individualidade, ele se sente visto, valorizado e mais confiante para enfrentar os desafios próprios dessa fase. Encontrar espaço para se expressar e participar de projetos que só ganham vida quando o coletivo entra em ação também ajuda o jovem a perceber que sua presença faz, sim, diferença para o todo. O teatro, tão presente na pedagogia Waldorf, é um ótimo exemplo disso. Para uma peça acontecer, cada um precisa entregar um pouco de si, independentemente do tamanho do personagem ou da função assumida nos bastidores. Quem ama desenhar pode colocar seu talento na criação do cartaz da peça; quem gosta de escrever muitas vezes se envolve com o roteiro; os apaixonados por moda podem contribuir com os figurinos. E todos estarão juntos no palco, atuando, cantando e dando vida a um trabalho construído coletivamente. Ao final da última apresentação, vem sempre uma mistura de alívio, alegria e catarse. “Consegui! Conseguimos!” Talvez essa seja uma das formas mais bonitas e transformadoras de se sentir importante para o todo e também de reconhecer o papel valioso do outro para o nosso próprio desenvolvimento.
Katia Geiling, coordenadora de comunicação do Colégio Waldorf Micael.

Meninos e meninas precisam voltar a conversar
Na mesma discussão sobre misoginia e juventude da Bett UK 2026, Laura Bates trouxe uma perspectiva importante: enfrentar conteúdos nocivos dirigidos aos jovens não significa afastar ou culpabilizar os meninos. A própria apresentação do encontro defendia um “diálogo aberto e inclusivo que apoie meninos e jovens homens em vez de aliená-los”. Em uma sociedade na qual debates sobre gênero frequentemente se tornam polarizados, criar espaços de conversa entre meninos e meninas passa a ser também um desafio educacional.
Em uma época em que discussões sobre gênero muitas vezes colocam meninos e meninas em lados opostos, como criar espaços seguros para que adolescentes conversem sobre atração, rejeição, limites, consentimento, respeito e expectativas afetivas sem medo, hostilidade ou julgamento?
Valorizamos a escuta ativa dos estudantes como parte do processo do desenvolvimento humano e relacional. Acreditamos que temas centrais como atração, limites, consentimento, rejeição e expectativas afetivas devem ser trabalhados em assembleias e momentos de reflexão intencionais. Conduzidos em parceria pela equipe pedagógica e pela pastoral escolar, esses encontros abrem um espaço seguro para conversas transparentes, indagações e partilhas de vivências livres de julgamento. Dessa forma, desconstruímos rivalidades, fortalecemos a empatia e promovemos o respeito mútuo, garantindo o acolhimento da singularidade e a valorização contínua da diversidade de cada jovem.
Patrícia Marchetti de Góis e Sonja Antiqueira, coordenadora pedagógica educacional e diretora, do Colégio Madre Iva.

O que continuará sendo exclusivamente humano?
Na palestra The Changing Role of a Teacher in the Age of AI, durante a Bett UK 2026, a educadora Dawn Taylor, fundadora e diretora da Challenge Innovate Grow, propôs olhar para aquilo que permanece “uniquely human” — exclusivamente humano — em um cenário no qual a tecnologia consegue produzir conteúdos e fornecer respostas instantaneamente. Entre as capacidades destacadas estão criatividade, empatia e discernimento. A provocação oferece uma boa síntese para toda a trajetória escolar: diante de tantas transformações, talvez uma das principais missões da educação continue sendo formar pessoas capazes de viver com outras pessoas.
Ao concluir a Educação Básica, que competências humanas um jovem deveria ter desenvolvido para construir amizades, amar, trabalhar em equipe, discordar com respeito, lidar com rejeição, pedir ajuda, cooperar e conviver com pessoas diferentes dele? A escola está preparando nossos jovens apenas para estudar e trabalhar — ou também para viver com outras pessoas?
Cá estamos perante as transformações da vida humana, numa época em que as mudanças ganham velocidade crescente e o conhecimento está “na palma da mão”. Nesse meio vemos a escola. Vêm, então, as perguntas: O que fica? Qual essência se mantém viva? Qual o papel da escola ante tudo isso? A Pedagogia Waldorf nasceu ao final da Primeira Guerra Mundial, também numa época de instabilidade. A busca era e ainda é por uma educação que permita ao ser humano construir-se como ser livre. Capaz de pensar, sentir e agir com discernimento, responsabilidade e criatividade em relação a si e ao outro. Assim, o exclusivamente humano se revela: um ser criativo e social. Que não apenas vive, mas com-vive. Que não apenas executa ou reproduz, mas sonha, planeja, inventa. Não como um projeto de adulto. Como um ser em si mesmo. A vivência da arte, o cultivo da terra e o fazer e crescer em comunidade são caminhos que percorremos, buscando manter a essência humana inteira, presente e atuante.
Catarina Menezes, professora de classe do 7° ano do Colégio Waldorf Guayi.















