Vereador Dr. Silvio Cabral, idealizador do evento.

 

A Câmara Municipal de Cotia ficou lotada na noite de sexta-feira (13) para o evento “Mulheres que Marcaram Cotia”, realizado pelo mandato do vereador Dr. Silvio Cabral (PT). O ponto alto foi a entrega formal do título de Cidadã Cotiana à professora e ex-vereadora Gilda Pompeia, uma das últimas mulheres eleitas para a Câmara, em 1982, há 44 anos.

Além de Gilda, a noite homenageou lideranças femininas de diferentes frentes: as ex-vice-prefeitas Lúcia Torrezani e Ângela Maluf, a presidente da Romaria de Cotia Meire Sinoca, a pastora Gelda e a jornalista e ecofeminista Ana Alcântara, entre outras mulheres com forte atuação social e institucional — com menções a entidades como Pequeno Cotolengo Paulista, Anuepo e Apae de Cotia.

Câmara lotada para homenagear as mulheres que marcaram Cotia.

Emoção, luto e posicionamento contra a violência

Dona Waldeci e Ariane, irmã gêmea de Ariana.

Um dos momentos mais marcantes foi a homenagem à Sra. Valdeci, mãe de Ariana Ferreira dos Santos, vítima recente de feminicídio em Cotia. Ao lado da mãe, Ariane, irmã gêmea de Ariana, acompanhou as manifestações. Frases como “Ariana Presente” e “Não é não” atravessaram diferentes falas, reforçando o caráter de protesto contra toda forma de agressão à mulher. Uma Moção de Pesar, assinada por 100% dos vereadores, também foi lida em plenário.

 

 

Autoridades presentes e a pauta do mandato

Vice-prefeito Paulinho Lenha e vereador Marcinho, com Dr. Silvio Cabral em homenagem a Lucia Torrezani.

Além do vereador Silvio Cabral, participaram o vice-prefeito Paulinho Lenha, os vereadores Marcinho Prates, Hernani e Serginho, a secretária da Mulher, Neurodiversidade e Inclusão Social Solange Aroeira, a secretária adjunta de Esportes Lena Marques e o secretário adjunto de Desenvolvimento Social José Bertuol.

Em sua fala, Dr. Silvio Cabral ressaltou o papel das mulheres nas lutas cotidianas do município: “O nosso mandato é um instrumento de busca pela igualdade. As nossas principais bandeiras são a regularização fundiária, a moradia digna, o combate à fome e a assistência social. E, na maior parte dessas lutas, a maioria das pessoas presentes são mulheres, geralmente é a mulher que está brigando, no dia a dia, pela melhoria de sua casa.”

Vozes da assistência social, da política e da sociedade civil

Representando o Pequeno Cotolengo Paulista, o padre Ricardo Paganini homenageou Eva Lima.

Representando o Pequeno Cotolengo Paulista, o padre Ricardo Paganini homenageou Eva Lima, colaboradora por 27 anos, destacando uma atuação “para além do contrato de trabalho”, movida pelo cuidado e pelo compromisso com o acolhimento.

A presidente da Apae de Cotia, Glaucia Azevedo, lembrou a importância de mulheres que construíram a trajetória da entidade, como Lúcia Torrezani (fundadora) e Ângela Maluf, e chamou atenção para a realidade de mães que enfrentam abandono e violência quando o filho nasce com deficiência.

 

Cida Aires, presidente do PSOL Cotia, agradeceu às mulheres que abriram caminhos antes dela.

Na política, Cida Aires, presidente do PSOL Cotia, agradeceu às mulheres que abriram caminhos antes dela e fez um apelo por mais presença feminina nas urnas: com a ampliação de cadeiras em 2028, “não é possível que as novas vagas sejam ocupadas por mais homens”.

Na mesma linha, Rosângela Santos, presidente da Macro Oeste do PT, defendeu representatividade feminina para garantir políticas públicas para mulheres, citando demandas como Casa da Mulher Brasileira e DDM 24 horas. “Precisamos do cuidado com as mulheres que cuidam.”

Já a secretária Solange Aroeira reforçou a necessidade de união: “É preciso trazer os homens para perto e dizer que não queremos brigar com eles. Estamos lutando por dias melhores, com igualdade e dignidade.”

A ecofeminista Ana Alcântara

A ecofeminista Ana Alcântara reforçou que a luta não é contra homens, mas contra o patriarcado, que “machuca a todos: homens, mulheres, crianças e o planeta. A nova direção deve ser o naturarcado, onde é a natureza quem manda.”

 

Trajetórias que inspiram

A ex-vice-prefeita Lúcia Torrezani contou que decidiu entrar na política ao presenciar uma mulher, Sonia Gaito, sendo silenciada no plenário da Câmara Municipal de Cotia — quando o som do microfone foi cortado durante uma fala — e defendeu que a melhor homenagem é o respeito, com educação de meninos e jovens para a convivência sem violência.

Meire Sinoca é a primeira presidenta da Romaria de Cotia

Uma das homenageadas mais aplaudidas foi a de Meire Sinoca, primeira mulher a presidir a Romaria de Cotia, que relatou as resistências enfrentadas até conquistar espaço: “Tive que brigar daqui, dali, insisti e cheguei lá.”

Muito emocionada, Ângela Maluf relembrou sua trajetória e afirmou que segue com energia para continuar contribuindo com Cotia. “Eu estou num momento, nos meus 70 anos, onde eu tenho muito pra entregar, eu tenho muito para fazer e é por Cotia que eu vou fazer”, disse, já sinalizando que não abandona a luta política.

 

 

Ângela Maluf relembrou sua trajetória e afirmou que segue com energia para continuar contribuindo com Cotia.

Em um discurso firme, criticou o julgamento estético imposto às mulheres e defendeu diversidade na representação política: “Se somos 52% da população, parem de falar do meu botox, da minha plástica, do meu bumbum. Isso não me interessa, eu nunca vi um homem comentando sobre a barriga de outro homem. Nós temos que uma puxar a outra. Se somos a maioria porque nós só elegemos homens? E deve ter uma mulher preta aqui, uma mulher com deficiência, mulheres da sociedade, múltiplas. Nós temos muito para contribuir e está diversidade tem de estar presente nesta casa parlamentar.”

 

Gilda Pompeia: cidadã cotiana

Gilda Pompeia em discurso ao receber o título de Cidadã Cotiana.

A principal homenagem da noite foi a entrega do título de cidadã cotiana à professora e ex-vereadora Gilda Pompeia. No púlpito, mais que um discurso ela deu uma aula de cidadania a todos. Falou do real significado do 8 de março, que “não é uma data para flores e chocolates”, mas uma data de referência a mulheres que lutaram por seus direitos e morreram queimadas dentro de uma fábrica incendiada nos Estados Unidos.

E falou das dificuldades e decepções que enfrentou como vereadora eleita com a apenas 21 anos de idade. Pasmem, uma de suas lutas inglórias foi pelo fim do monopólio da Danúbio Azul, que, segundo ela já prestava um péssimo serviço desde aquela época, em 1982.

“Começo dizendo, francamente, que foi uma experiência muito difícil. A Lucia Torrezani falou aqui de uma cena que era comum. Éramos duas vereadoras e 13 vereadores. E nós duas éramos oposição ao prefeito Ivo Mario Isaac Pires”, contou. “Foi uma loucura. Muito difícil. Sofri muito e eu era uma menina e não tinha a menor noção de que eu era uma menina. Eu achava que eu era gente grande”, lembrou.

Uma de suas conquistas foi ter impedido a implantação de uma ZUPI, zona de uso predominantemente industrial em Caucaia. “Ali, onde eram produzidos 30% das verduras do CEAGESP, seriam instaladas indústrias altamente poluentes”, conta.
“Conseguimos impedir com o apoio dos intelectuais que moravam na Granja Viana, professores, artistas e políticos de São Paulo. A gente conseguiu extinguir as ZUPI de Caucaia e para comemorarmos esta vitória, os agricultores fizeram uma missa campal. Foi a coisa mais linda. Eles enfeitaram o altar com todos os legumes que eles produziam. A cruz era de repolho roxo e verde. E quem veio rezar esta missa foi o Dom Paulo Evaristo Arns”, lembrou. “Mas outras quatro ZUPI foram instaladas às margens da Raposo”, lamentou. “O máximo que a gente conseguiu foi uma lei restringindo as indústrias altamente poluentes”, comentou.

Pelas dificuldades enfrentadas na vida pública, ela resolveu não mais se candidatar e voltar ao magistério. “Não foi um mandato feliz. Foi muito sofrimento, eu sinto que perdi parte da minha juventude em lutas inglórias. Não me senti realizada como vereadora. Infelizmente eu tenho que dizer isso para vocês. Sai desiludida e nunca mais me candidatei”, contou.

Nesta noite de homenagens, Gilda ainda encontrou palavras para falar do genocídio contra os povos originários, das dificuldades enfrentadas pelas mulheres negras, do preconceito de gênero, entre outras mazelas do cotidiano brasileiro, mostrando que a política do patriarcado ceifou uma grande carreira política e nos privou de uma grande líder.

Por Mônica Krausz

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