Poucos sabem, mas o primeiro registro histórico do cultivo de videiras no Brasil remonta ao Sudeste. Em 1532, o fidalgo português Brás Cubas introduziu o plantio de vinhas na região de São Vicente, no litoral paulista. A iniciativa, no entanto, não chegou a estabelecer uma atividade contínua e estruturada na região. Décadas mais tarde, a primeira região vinícola a ser desenvolvida no Brasil seria a Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, que se consolidaria como o grande polo produtor do país, impulsionada pela chegada dos imigrantes europeus, sobretudo italianos.

 

Até recentemente, os mapas das regiões produtoras de vinho do Brasil não faziam menção ao Sudeste. No livro “Conheça Vinhos”, publicado em 2015 e assinado por Dirceu Vianna, José Ivan Santos e Jorge Lucki, três grandes nomes do mundo do vinho, são apresentadas regiões do Sul do país e até o Vale do São Francisco, no Nordeste. No entanto, nenhuma área produtora do Sudeste aparece no mapa.

Aline Mabel Rosa, CEO da Rio Manso.

Hoje, o cenário é radicalmente diferente, o Sudeste é, de longe, a região brasileira que mais cresce em número de vinícolas por ano. A Serra da Mantiqueira e seu entorno, abrangendo áreas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, concentram cerca de cem novos projetos, entre empreendimentos recém-inaugurados e outros com abertura prevista ainda para este ano.

 

 

Três fatores ajudam a explicar e impulsionar esse movimento. O primeiro, o recente desenvolvimento da técnica da dupla poda, um manejo do vinhedo que permite a colheita no inverno, período marcado por clima seco, com noites frias e condições mais adequadas à maturação das uvas, condições semelhantes às da Europa. Segundo, o crescimento do consumo e do interesse dos brasileiros pelo vinho, e, por fim, a proximidade dessa região com os grandes mercados consumidores do país.

A transformação ocorrida entre o livro de 2015 e 2026 é monstruosa. E, surpreendentemente, o maior salto não está apenas na quantidade de vinícolas, mas na qualidade dos vinhos produzidos. Dois dos principais guias de vinhos do país acabam de coroar o Sudeste como região de origem dos melhores vinhos do Brasil, juntamente com o Sul. O “Guia Descorchados 2026” elegeu o Sabina Entre Serras Sauvignon Blanc 2025, da Sacramentos Vinifer, de Minas Gerais, como o melhor vinho do ano. A Casa Almeida Barreto, também mineira, foi eleita como a Vinícola do Ano de 2026.

Já o “Guia Adega Brasil 2026” colocou o Sabina Entre Serras 2024, da Sacramentos Vinifer, entre os três melhores tintos do ano, todos vencedores empatados com a mesma pontuação. O espumante Sabina Extra Brut Rosé, da mesma vinícola, também apareceu empatado entre os quatro melhores espumantes do Brasil da edição 26.

São muitos os projetos estimulantes que surgem na região, mas um deles chamou especialmente a minha atenção. Recentemente, estive no lançamento dos vinhos da Rio Manso, realizado no restaurante Vista, em São Paulo, e fiquei cativada pela consistência e pela ambição do projeto.

A Rio Manso é uma jovem vinícola localizada em Jacutinga, no sul de Minas Gerais, na Serra da Mantiqueira. O empreendimento já conta com 11 hectares de vinhedos plantados em solos graníticos e de boa drenagem, além de reunir um time de peso. À frente da gestão está a experiente CEO Aline Mabel Rosa, a condução enológica é de Cristian Sepúlveda e o sommelier, Manoel Beato, que há 34 anos responde pelos vinhos do Grupo Fasano.

O projeto vai muito além da elaboração de vinhos. Estão previstas a construção de um wine bar, restaurante, espaço para eventos e hospedagem, formando um complexo de enoturismo direcionado ao público premium. Entre os rótulos apresentados, destacam-se os vinhos elaborados com Cabernet Franc, variedade que demonstra boa adaptação à região. Chamaram especialmente a atenção o Rastro da Urutu e o Olhar da Onça, este último um corte de Syrah, Cabernet Franc e Viognier.

Para quem trabalha e vive o mundo do vinho, é muito gratificante acompanhar o surgimento de projetos como o da Rio Manso e de tantos outros no Sudeste. O setor privado investe fortemente para desenvolver tanto a indústria do vinho, como o enoturismo. Não me surpreenderia que, a região onde foi plantada a primeira vinha europeia do Brasil se consolide, nos próximos anos, como uma das principais origens de vinhos finos de qualidade do país. A história parece estar fechando um longo ciclo: quase cinco séculos depois de Brás Cubas, o Sudeste entra definitivamente para o mapa do vinho.

Paula Porci é consultora,
palestrantee colunista de bebidas.
Juíza de vinhos, Sommelière de vinhos ABS-SP
e AIS-FR e fundadora da Confraria das Granjeiras.

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