Arte Observada – Milenna Saraiva

Neste mês de aniversário da Revista Circuito, a nossa perspicaz colunista Milenna Saraiva escreveu sobre a talentosa artista plástica Milenna Saraiva

A Revista Circuito comemora 17 anos neste mês, e como forma de comemoração resolvemos fazer algo diferente. Desde 2013, já escrevi sobre dezenas de obras de artistas já consagrados pela História e artistas contemporâneos que admiro. Hoje, escrevo sobre uma obra minha. Analisar uma obra é como fazer uma viagem com muitas possibilidades, incluindo a emoção de compartilhar as ideias de outra realidade e de outras épocas. Existem pessoas especialistas no assunto, mas, às vezes, quando estou analisando uma obra, me pergunto:

“Será que foi isso mesmo o que seu autor quis dizer?” Durante esta indagação, fico imaginando o que o artista diria sobre sua própria obra. Quem melhor do que ele próprio para falar de sua criação? Então vamos lá!

Nasci em São Paulo e me formei em 2004 pelo Santa Monica College, na Califórnia, Estados Unidos, em Artes Plásticas. Após me graduar, a convite da universidade, fiz uma especialização em pintura em um programa chamado The Mentor Program, onde estudei com renomados artistas e professores. Ao retornar ao Brasil, em 2012, fiz um curso de pós-graduação em Pintura Contemporânea na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

Atualmente, sou representada pela The Peach Gallery, em Toronto, Canadá e tenho exibido meu trabalho em diversas mostras coletivas e individuais, em galerias e museus pelos Estados Unidos, Canadá e Brasil. Entre elas estão The Los Angeles Municipal Art Gallery, Katsen Museum, em Washington D.C., The Bergamont Station, em Santa Monica, The Peach Gallery, em Toronto e a Casa Galeria em São Paulo.

Apesar de ter a experimentação como parte fundamental do meu processo artístico, minha paixão sempre esteve perto de uma tela. Escolhi como principal forma de expressão a pintura. Em meu mais recente conjunto de obras, exploro conceitos relacionados à construção e à desconstrução da identidade, um processo que tenta reconsiderar as convenções da pintura figurativa por meio de uma contínua busca da abstração. Nos últimos anos, tornei-me uma retratista, mas meu objetivo não é somente capturar a aparência externa de uma pessoa, e sim criar um portal para uma viagem interna de exploração própria. Para isso conto, principalmente, com um método fluido de pintar, usando, principalmente, a minha memória e imaginação. Nos mais de dez anos trabalhando como artista profissional, minha técnica evoluiu do tradicional acadêmico para o estilo atual, muito mais solto e expressivo. Com rápidos, quase brutais, gestos feitos com espátulas e pela adição e remoção frenética de camadas de tinta, as obras se tornam ricas em texturas, camadas e cores.

A obra O Artista tem um grande significado para mim. Nela, consegui fazer o que realmente queria em termos de técnica e mensagem. Deve ser estranho ouvir de um artista “consegui fazer o que queria”, mas é verdade. Às vezes, a obra adquire vida própria em seu processo de criação. Sempre começo a pintar a partir de um esboço, mas a obra vai se transformando até que seu resultado final nada pareça com o meu plano inicial. Mas por que isso? Lembro-me da minha primeira aula de pintura na faculdade, quando a professora perguntou: “O que é arte?” Depois de um silêncio profundo de reflexões, concluímos que arte era “brincar com materiais para expressar emoções, nossa história e a nossa cultura, por meio de alguns valores estéticos, como beleza, harmonia e equilíbrio”. Sinto que a palavra “brincar” tem um amplo sentido nesta definição. Pois é exatamente isso o que fazemos. Brincamos com as tintas, as cores e os materiais diversos até atingirmos esteticamente a imagem satisfatória. Às vezes, no meio desta brincadeira, imprevistos acontecem, e estes imprevistos mudam nosso rumo de criação.

Feita com tintas acrílicas e espátulas, a imagem não retrata alguém em especial, e sim uma representação abstrata de uma pessoa. Homem ou mulher, jovem ou velho, pintor ou escultor ou até cantor, não importa. São todos e ao mesmo tempo ninguém. As cores usadas são muitas, contrastantes e seu objetivo é evocar emoções diversas e diferentes. Do seu peito escorre o vermelho, a cor do coração e da paixão. O fundo é liso e sua cor fria, quase neutra, tem a função de somente enquadrar a imagem central, pois os detalhes e as texturas estão dentro deste personagem. A abstração das estruturas tradicionais da face foi a parte mais desafiadora na criação desta obra. Para alguém que teve um treinamento clássico, livrar-se dos arquétipos é tão difícil quanto executar um retrato com um realismo fotográfico.

Afinal, quem é o artista? Em tempos pré-históricos, acredita-se que o artista devia ser uma espécie de xamã, usando objetos criados para funções religiosas ou mágicas. Segundo Platão e Aristóteles, na Grécia Clássica, os artistas, em geral, eram considerados simples técnicos qualificados, trabalhadores mecânicos, ainda que se reconhecesse que seu trabalho exigia criatividade, inteligência e capacidade de organização. Definições à parte, o artista é uma pessoa sensível que enxerga ou assimila o cotidiano de uma forma diferente, talvez por outro viés. Suas impressões são registradas pela arte na qual se identifica ou se expressa melhor. São (somos) os provedores da arte para o mundo. E a arte, com todas as suas funções, é o espelho da Humanidade. Esta obra é, então, minha singela homenagem aos criadores. Pois, como Friedrich Nietzsche disse: “Temos a arte para não morrer da verdade”.


Vamos observar

O Artista, 2016

Tinta acrílica sobre tela

40 x 100 cm

Coleção particular – São Paulo (SP)


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.

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