O cérebro na sala de aula

Descobertas na área da neurociência, ligadas ao processo de aprendizagem, podem revolucionar o meio educacional.

A emoção interfere no processo de retenção de informação. É preciso motivação para aprender. A atenção é fundamental na aprendizagem. O cérebro se modifica em contato com o meio durante toda a vida. A formação da memória é mais efetiva quando a nova informação é associada a um conhecimento prévio. Grandes pensadores já diziam isso e, agora, essas afirmações são corroboradas em pesquisas de investigações neurológicas recentes sobre o funcionamento cerebral. O cérebro, esse órgão fantástico e misterioso, é matricial no processo do aprender.

Mas, primeiro, é preciso entender o que é a aprendizagem para depois entender o que acontece com nosso cérebro durante esse processo. “Processo, essa é a palavra. Aprendizagem é um processo que se dá por meio de estímulos e recursos que o indivíduo dispõe para adquirir conhecimento, competências e habilidades. Com a interação com o meio, você vai construindo a aprendizagem e formando circuitos neuronais no cérebro”, explica a neurocientista Carla Tieppo, professora doutora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Falar em aprendizagem é falar em processos neurais, redes que se estabelecem, neurônios que se ligam e fazem novas sinapses. Por ser um processo contínuo e ativo, qualquer pessoa é capaz de aprender em qualquer fase da vida. Bastam os estímulos certos.

O que a neurociência propõe é uma união dos conhecimentos biológicos, cognitivos e pedagógicos para uma melhor forma de aprendizagem e desenvolvimento educacional.  “Esta é uma ciência nova que pode revolucionar a educação e ser uma importante ferramenta para potencializar processos de aprendizagem”, faz questão de ressaltar a especialista, pioneira em cursos de extensão em Neurociência no Brasil. Só há ainda um problema, de acordo com ela: “a resistência de alguns pensadores da educação”. Mas isso, aos poucos, está mudando.

Conceitos como neurônios, sinapses, sistemas atencionais, mecanismos mnemônicos, neurônios espelho e tantos outros nomes “esquisitos” não mais estão sendo discutidos apenas por neurocientistas. A discussão está chegando à sala de aula. Para tornar mais claro o diálogo entre Neurociência e Educação, lançamos algumas questões para escolas da região. Depois de conversar, individualmente, com a neurocientista sobre os temas propostos, cada educador refletiu acerca das considerações apontadas pela especialista e o resultado pode ser conferido nas páginas a seguir:

Quais são as estratégias mais eficazes para potencializar a aprendizagem?

Interações e afeto são importantes para o desenvolvimento cognitivo. Como a escola pode trabalhar as emoções e promover a interação, visando ao pleno desenvolvimento do aluno?

O cérebro adolescente e o prazer dos likes: influência negativa ou positiva? Como desconectar?

Como as manualidades podem ser aliadas do desenvolvimento neurológico e, consequentemente, da educação?

A neurociência indica que todos são capazes de aprender e a teoria das inteligências múltiplas nos mostra outras formas de estimular e valorizar os alunos. Diante desses estudos, o que seria um aluno brilhante e como inovar no ensino permitindo que o educando atinja todas as suas potencialidades?

Crescimento e desenvolvimento humanos podem ser estimulados? Como pode ser desenvolvido em sala de aula?

O que os estudos da neurociência têm a ensinar sobre a metodologia de ensino contínuo?

Neurociência como base para uma educação transformadora. Mito ou verdade?

O aluno com deficiência intelectual também é capaz de aprender. Como colaborar, não só nesse processo de aprendizado, mas também na sociabilidade dele?

O ambiente digital e seu excesso de informações pode alterar o cérebro, a criatividade e a concentração. Como ponderar o uso da tecnologia e usá-la em favor do aprendizado?

A Educação Infantil é fundamental para o sucesso acadêmico e profissional do ser humano. Verdade?

Compreender as diversas formas de se adquirir conhecimento pode ser fundamental para transformar a relação entre estudantes, escolas e sociedade. E isso, no futuro, poderá incentivar uma nova visão de avaliação, de ensino e de currículo.

 

Algumas descobertas de pesquisas de neurociência

  • Aprender significa criar memórias de longa duração
  • Aprender modifica o cérebro
  • Toda criança é cientista
  • Ninguém é incapaz de aprender
  • Atenção é uma escolha, não uma característica inata

 

 

Plasticidade cerebral

O cérebro é plástico e tem a capacidade de criar novas conexões entre os neurônios durante toda a vida. Antes, acreditava-se que a quantidade de neurônios e as conexões entre eles (sinapses) formadas na infância permaneciam imutáveis pelo resto da vida, mas há indícios de que não é assim. A interferência do ambiente externo no sistema nervoso causa mudanças anatômicas e funcionais no cérebro. Assim, as sinapses mudam dependendo das experiências pelas quais se passa. Nos anos 1980, um estudo pioneiro do neurocientista norte-americano Michael Merzenich, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, demonstrou que o cérebro de macacos adultos se modificava depois da amputação de um dos dedos da mão. A perda do membro provocava atrofia dos neurônios da região responsável pelo controle motor do dedo amputado. No entanto, ele observou, também, que essa área acabava sendo ocupada pelos neurônios responsáveis pelo movimento do dedo ao lado.

 

Múltiplas inteligências

O que significa ser inteligente? É realmente uma característica mensurável, expressa em um valor preciso como o Q.I., ? De acordo com Howard Gardner, psicólogo e professor de neurociência na Universidade de Harvard, não se pode falar em “inteligência” no singular, e sim em oito diferentes tipos de inteligência. As habilidades podem ser classificadas em intrapessoal, interpessoal, corporal-sinestésica, espacial, linguística verbal, musical, naturalista e lógico-matemática. Cada competência tem sua própria história de desenvolvimento e é relativamente independente das outras. Isso explica o porquê de um gênio musical ter dificuldade em ortografia ou o linguista brilhante em executar corretamente cálculos matemáticos simples. Para isso, Gardner nos convidava a adotar uma abordagem mais aberta e qualitativa.

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