Há algum tempo eu sonhava em participar da Vinitaly, a maior feira de vinhos da Itália e uma das mais importantes do mundo. Lembro bem da primeira vez que ouvi falar sobre ela, ainda durante uma aula na ABS, Associação Brasileira de Sommeliers, quando fazia o curso de formação profissional.
Naquele dia, meu professor, Arthur Azevedo, falou com tanta empolgação sobre a feira, sobre os vinhos degustados e sobre a oportunidade única de estar frente a frente com enólogos, produtores e proprietários de algumas das casas mais importantes da Itália, que anotei a dica no meu caderno. E ali ficou guardada também a vontade de um dia viver essa experiência.

Este ano, finalmente, esse desejo saiu do papel. Participar da Vinitaly 2026, agora já formada sommelière, especialista e jornalista de vinhos, foi uma experiência marcante. A feira é imensa, intensa e impressionante. Seus números ajudam a explicar a dimensão do evento, mas não dão conta sozinhos da energia que se sente ao caminhar pelos pavilhões da Veronafiere, em Verona.
Não por acaso, a Itália segue como o maior produtor de vinhos do mundo, segundo dados da OIV de 2024, posição que historicamente disputa com a França. O vinho italiano não é apenas produto agrícola ou item de exportação. A indústria do setor representa boa parte do PIB do país, movimenta agricultura, turismo, hospitalidade, serviços e exportações. Vinho, na Itália, é coisa séria.
Além disso, os italianos estão entre os maiores consumidores de vinho do mundo. Segundo a OIV, considerando os principais países consumidores em 2024, a Itália aparece em segundo lugar no consumo per capita, atrás apenas de Portugal. Em outras palavras, a Itália não apenas produz vinho para o mundo, ela vive o vinho dentro da própria cultura.

Mesmo quem não conhece muito sobre o assunto certamente já ouviu falar de nomes como Chianti e Prosecco. Desde a época dos romanos, os vinhos italianos circulam pela Europa e, posteriormente, conquistaram o mundo ocidental.
A Vinitaly reflete exatamente essa força, a edição de 2026 reuniu mais de 4.000 produtores de vinhos, distribuídos por 18 pavilhões enormes que ocupam 100 mil metros quadrados de área expositiva no complexo da Veronafiere, em Verona. Durante os quatro dias de feira, atraiu mais de 90 mil visitantes vindos de 135 países, número que coloca a Vinitaly como a maior feira de vinhos da Europa em número de visitantes.
Para quem trabalha com vinho, é uma oportunidade rara de degustar, comparar estilos, conversar com produtores e entender, na prática, os movimentos do mercado. Só no estande do Consorzio del Vino Brunello di Montalcino, por exemplo, eram cerca de 120 empresas presentes, com mais de 200 Brunellos disponíveis para degustação, isso apenas no espaço coletivo do consórcio, sem contar os produtores que também montaram seus próprios estandes individuais. É o tipo de experiência que nenhum livro, curso ou relatório substitui.
Tendências e destaques
A Vinitaly funciona como um grande termômetro do vinho global. Tendências que há tempos observo e trago aqui para os leitores da Revista Circuito apareceram com força ainda maior nesta edição.
Um dos movimentos mais evidentes foi o crescimento dos vinhos orgânicos, biodinâmicos, naturais e de baixa intervenção, este ano com um pavilhão próprio. A presença da RAW WINE Verona dentro da programação da Vinitaly reforçou esse olhar para produtores artesanais, vinhos menos intervencionistas e práticas mais conectadas à sustentabilidade e à expressão do lugar.
Outro ponto que chamou atenção foi o avanço dos vinhos sem álcool e de menor graduação alcoólica. O tema apareceu em debates, degustações e lançamentos, indicando uma resposta direta às mudanças de comportamento do consumidor, especialmente entre jovens adultos e pessoas mais atentas à saúde, à moderação e a novos estilos de consumo. A própria programação da feira incluiu discussões sobre tendências No & Low Alcohol.
Mas, para mim, um dos grandes destaques foi a Sicília. A ilha, que durante décadas foi associada a grandes volumes de produção e a vinhos mais simples, mudou completamente de posição no cenário italiano. Hoje, a Sicília é uma das regiões mais dinâmicas do país, com projetos ambiciosos e vinhos reconhecidos pela crítica internacional, especialmente na região do Etna. Foi impressionante perceber o número de produtores de prestígio investindo em projetos na ilha. Nomes como Gaja e Franchetti ajudam a ilustrar esse movimento.

Voltei de Verona com a sensação de ter realizado um sonho antigo, mas também com a certeza de que a Vinitaly é uma experiência essencial para quem deseja compreender, de verdade, a força do vinho italiano no mundo.
Mais do que uma feira, é uma imersão. E, para uma sommelière que um dia anotou esse nome no caderno durante uma aula, estar ali foi fechar um ciclo e abrir muitos outros.
Paula Porci é consultora, palestrante e colunista de bebidas.
Juíza de vinhos Sommelière de vinhos ABS-SP e AIS-FR e
fundadora da Confraria das Granjeiras.














