Fim de ano…

 

“E as promessas de ano novo…
Desse ano que se vai,

Algumas perderam-se ainda, entre as sete ondas.

Outras ficaram jogadas na sala, entre rolhas e taças pelas mesas…

E se o sol dos primeiros dias brilhou com sonhos de magia,

O tempo passou rápido.

Noite após dia, dia após noite…

As promessas não se cumpriram.

Pediam mais do que o simples desejo que eu podia lhes dar…

E ficaram esquecidas, perdidas, afogadas no mar das sete ondas, ou nas garrafas de champanhe…

Ah, se eu pudesse voltar no tempo!!!

Pedir uns dias mais, talvez uns meses…

Este ano vai ser diferente:

Prometo que vai!” (pensamentos de um ‘eu’ qualquer)


Fim de ano, tempo de fazer retrospectiva, analisar.

Revisar os projetos, as promessas feitas e as realizações.

No calor das emoções do ano novo, muitos de nós, para não dizer a grande maioria, faz promessas, determina metas, elege objetivos…

Muitos dos quais, visivelmente além de seu alcance.

Resultado: Final de ano se aproxima, trazendo com ele aquela tão conhecida sensação de fracasso. Culpa, insatisfação… Arrependimento.

E no afã de reparar esse dano impingido a si mesmo, elege novas metas, novos objetivos – algumas vezes uma tosca reedição dos anteriores, na tentativa de recuperar o amor-próprio…

Como se alguma conquista – trocar de carro, poupar algum dinheiro, realizar uma viagem ou perder alguns quilos, fosse capaz de resgatar algo que se encontra, exclusivamente, dentro de si.

Ano após ano, repetimos essa dinâmica de expectativa e frustração, levando a nós mesmos a uma condição cada vez mais insatisfeita conosco e com a vida.

O que será que nos leva a repetir, dolorosamente, esse ciclo?
A acreditar e insistir em algo que já se mostrou fonte de insatisfação?
Viajar, mudar de residência, comprar algum imóvel, trocar de carro, mudar de emprego, casar-se, separar-se, freqüentar academia, ter aquela conversa com alguém em especial  – são apenas alguns exemplos.

São desejos ou metas que nos impomos acreditando que eles, por si só, nos farão pessoas mais felizes. Porém, comumente, nos levam em outra direção…

Ser feliz é, acima de tudo, estar bem consigo mesmo. Vivendo de acordo com aquilo que se sente e com o que se acredita.

Saber eleger metas e, conseqüentemente, alcançar objetivos, depende de auto-conhecimento, seja dos próprios valores, seja de possibilidades pessoais, além de uma visão realista, objetiva, do mundo que nos cerca. Qualquer decisão sem conhecimento destes tem grande possibilidade de erro.

Se ano após ano nos frustramos, talvez seja porque essas escolhas tenham sido feitas a partir da expectativa alheia, ou mesmo daquilo que julgamos que os outros esperam de nós.

Conhecer-se, saber lidar consigo mesmo, antecede o bom relacionamento com o outro e com o mundo ao seu redor.

Quem sou eu? Quais as crenças que me movem? Quais os valores que me foram transmitidos ao longo da vida? E quais são verdadeiramente meus?No que eu acredito ou o que eu evito, sem ao menos me dar conta?
Aprendemos por imitação, muito mais do que pelo discurso.

Muitas vezes repetimos erros que vimos nossos pais cometerem, e juramos que nunca o faríamos… mas fazemos! E fazemos porque absorvemos crenças, regras, conceitos, sem perceber. Como eu disse, por imitação. Observamos as formas de agir das pessoas à nossa volta e os temos como modelos. Ainda que os discursos sejam contraditórios, a observação tem grande influência.

É como se fossemos sendo programados ao longo dos anos – usando uma linguagem mais tecnológica, sem termos poder de escolha em relação aos dados inseridos ou programas utilizados.

 

Sabemos que a sociedade evolui, os hábitos e costumes sofrem alterações ao longo dos anos. Cada geração elege alguns valores, e repudia outros da geração anterior…

Porém, se vivemos sob a influência desta, algumas de suas formas de pensar e agir foram absorvidas sem nos darmos conta. São como esparadrapos que nos são colados nas costas, em local de difícil alcance, e que mal podemos ver… e, ainda que nos pareça incoerente, determinam nossas sensações e comportamentos, o que nos causa incômodo e insatisfação.

 

A imagem que temos de nós, nossa auto-estima, a visão do mundo e das pessoas, crenças, valores, regras, conceitos vão se formando dia a dia, estruturando uma dinâmica de funcionamento. São partes de um todo que interage constantemente.

Porém, somos humanos e passíveis de erro. Se temos de nós mesmos, de algo ou de alguma situação uma visão deturpada, passamos a contaminar, por assim dizer, todo o restante que se segue a partir daí. Algumas frustrações e comportamentos passam de geração em geração, a despeito de críticas e discursos contraditórios.

Além disso, o modo como nos sentimos em determinado momento é crucial na forma como percebemos um evento qualquer.

Se estivermos felizes, despreocupados, uma chuva de verão na saída do trabalho pode ser algo bem prazeroso, pode nos fazer voltar o rosto para cima num sorriso, buscando refrescar a face enquanto nos remetemos às brincadeiras de infância nas poças de água acumulada.

Porém, se o dia foi difícil, recheado de pressão e insatisfação, a chuva pode ser o derradeiro marco da derrota, “era só o que faltava”…

Nem preciso dizer que nas duas situações, se essas pessoas ao chegarem nas garagens de seus prédios, se depararem mais uma vez, com o carro do vizinho mal estacionado, invadindo suas vagas, o desenrolar será completamente diferente. E assim por diante.

Cada evento tem influência na forma como nos sentimos, nos vemos, o quanto gostamos (ou não) de nós, na forma como encaramos os fatos que se seguem e conseqüentemente, no resultado dos nossos comportamentos.

É um processo que acontece automaticamente.

Quando há erro, compromete-se todo o funcionamento dessa dinâmica, levando a uma sensação incômoda… e a outros tantos problemas.

 

Como fazer para reverter isso?

É preciso parar e analisar.

Problemas todos teremos, sempre!

Saber lidar com eles de forma equilibrada nos abre a possibilidade de alcançarmos a sensação de bem-estar emocional.

 

É preciso perceber o próprio funcionamento, descobrir a dinâmica que estabelecemos com o mundo que nos rodeia, além de nos permitir redescobrir valores e reestruturar formas de pensar, sentir e, conseqüentemente agir. Transformando nosso dia-a-dia num ciclo de desenvolvimento e bem-estar.

 

 

Ferramenta essencial para que possamos nos apropriar de nós mesmos, vivendo com coerência e equilíbrio, conhecer-se exige disposição. Entender quais são os valores que nos movem, as regras que ditam nossos comportamentos, o porquê de algumas atitudes nossas nos causarem algum incômodo… alcança-se através da reflexão, e por vezes, necessitamos de ajuda.

Alguém que nos faça sair de cena e assistir a nós mesmos como a uma peça de teatro.

A grande peça da vida na qual cada um é protagonista, autor e diretor da própria história.

Todos queremos ser aplaudidos, não apenas ao final, mas dia após dia, todos os dias.
Que seja essa a meta para os anos que aí vem!

 


Cláudia Castilho
– psicóloga

atua há 10 anos na granja com abordagem em TCC – terapia cognitivo-comportamental
cel 99971-5590

 

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