O trabalho da artista foi citado pela Wall Street International como “thought-provoking” (provocador de pensamentos). Catharina se descreve como uma eterna pesquisadora e cada obra sua conta histórias sobre a natureza, sonhos, memórias e arquétipos do feminino. Uma narrativa poética que explora técnicas como xilogravura, aquarela, estêncil, colagem, bordado, fotografia, escultura, tipografia, tinturaria natural, entre outras.

As obras de Suleiman estão presentes em algumas coleções importantes de arte, como a coleção Latino Americana da Unesco, com a obra Breathless Silence. Também na coleção permanente do Museu de Arte Contemporânea do Peru, com a obra Love Each Other.

Desde 2013, desenvolve instalações e artes urbanas indoor e outdoor, trabalho que já foi mostrado no Memorial da América Latina, Instituto Tomie Ohtake, MIS, CCSP, EPA, entre outros. Seu trabalho já foi exposto individual e coletivamente em vários países na Europa, América do Sul e América do Norte.

VAMOS OBSERVAR
Espada de Carne, 2020
Fotografia digital
Catharina Suleiman

“Não estou mais aceitando aquilo que não posso mudar.” Com esta frase da mulher, negra, ativista, educadora, feminista e, acima de tudo, lutadora Angela Davis, a artista Catharina apresenta seu mais novo trabalho intitulado Espada de Carne.

A frase de Davis adiciona uma nova camada à imagem: um útero formado por delicadas (e não tão delicadas) flores e plantas. Ou seria uma espada formada por belas e efêmeras plantas? Ambos. Esta obra integra sua série de fotografias da série Útero, que surgiu em março de 2019. Nesta época, a artista relata a descoberta do Sagrado Feminino e sua relação com a natureza. O Sagrado Feminino é uma filosofia, um estilo de vida, que promove ensinamentos sobre aspectos físicos e mentais da figura feminina. É a consciência dos ciclos femininos (como o da menstruação), da capacidade de criação, acolhimento (gestação) e da força da mulher. É a reconexão consigo mesma e a harmonização de tudo isso com a natureza.  Algumas das figuras mais importantes do conceito são as deusas – aquelas que ouvíamos em histórias e lendas. Gaia, Lilith, Afrodite. Acreditam e ensinam que toda mulher tem uma deusa dentro de si.  A natureza é uma deusa e a nossa grande mãe. “Entender o Sagrado é encontrar uma ligação sua com essa natureza provedora de tudo o que temos”, explica a facilitadora de vivências do Sagrado Feminino, Rosângela Rosa. O Sagrado fala do despertar da essência feminina, da união de mulheres e do seu poder na sociedade. Isso tudo anda de mãos dadas com os conceitos feministas. Há quem goste de distanciar as duas coisas, mas se estamos falando de empatia, sororidade, igualdade e valorização da figura da mulher, o Sagrado e o feminismo estão lado a lado. Catharina explica: “Acredito que a desconstrução do que me foi ensinado sobre meu corpo, meu gênero e minha sexualidade vai ser pesquisa e trabalho para o resto da minha vida”.

Foi esta série que me chamou atenção para o trabalho da artista alguns anos atrás. Até o momento, a série tem 46 imagens. A fotografia é delicada, mas, ao mesmo tempo, forte; leve, porém, ao mesmo tempo, pesada; bela e ao mesmo tempo instigante; simples, mas cheia de significados; é feminina, mas também masculina.

Uma rosa vermelha no centro, uma orquídea, dois cravos e espinhos formam o útero. Dele sai uma espada, a de São Jorge, o aspecto masculino, o objeto agressor.  A planta é uma herbácea de origem africana. São Jorge é conhecido como o protetor dos pobres e dos necessitados. Ele deu sua vida e se tornou mártir, em vez de colaborar com a opressão. Um protetor das causas justas e generoso guerreiro que está pronto para proteger sua vida dos inimigos. Todos estes símbolos e metáforas presentes na obra são emoldurados por um fundo preto, como se flutuassem no espaço, ou num sonho.

Para mim, as melhores obras de arte são aquelas que transformam coisas mundanas em objetos extraordinários.  As que transcendem seu papel e nos fazem, além de sentir, refletir. A obra de Catharina Suleiman é construída com muita sensibilidade e cuidado, narrando fatos pitorescos da memória coletiva feminina, revelando de forma discreta, camadas que compõe a nossa sociedade – ainda machista, ainda opressora e sempre com uma grande necessidade de transformação.

Para conhecer mais o trabalho da artista, acesse www.catharinasuleiman.com.br.

 


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.