“As paixões são explosivas, mas o amor é construção”, é assim que o artista entende o seu relacionamento com a arte, uma relação amorosa, que levou muitos anos para se concretizar. Negritoo cursou faculdade de Desenho Industrial no Mackenzie e fez pós-graduação em Design Gráfico na Faculdade Senac, cursos que o levaram a exercer a profissão de designer gráfico e ilustrador. A carreira que prevaleceu em boa parte de sua jornada, hoje está presente na construção técnica e composição da sua criação. Outra grande inspiração são as HQs (histórias em quadrinhos), cuja influência é também muito evidente em sua obra. Mais tarde, Negritoo encontrou a Arte de Rua, o grafite, que foi o elemento final e fundamental para compor e definir seu estilo único. Seus personagens, desenhados com traços fortes e cores vibrantes, são super-heróis do cotidiano.

O velho novo artista, como se descreve, traz em sua trajetória a maturidade, não apenas cronológica, mas também nas técnicas incorporadas em seus trabalhos. Muitos artistas que têm o grafite como base começam sua trajetória pintando nos muros e depois migram para as telas. Negritoo fez o contrário e, hoje, vê no grafite um dos principais veículos de expressão artística. Mas, sua busca apenas começou. Ele continua explorando novas formas de se expressar em superfícies e objetos diversos.

VAMOS OBSERVAR
Preta, 2020
42 x 29,7
Desenho digital
Impressão em papel Canson Photo Matte 200 g
Tiragem: 10

Esta obra nasceu no meio da pandemia da covid-19, a partir de um convite para participar do projeto @pretoprapretoblacktoblack, um movimento criado para ajudar comunidades negras, tendo a arte como um catalisador para uma mudança social. Nesta ação, 50% do valor arrecadado nas vendas foram destinados a instituições e projetos voltados para a população preta da cidade de São Paulo. Todas as unidades foram vendidas.

A obra foi desenvolvida com lápis sobre papel e finalizada no computador. Como sempre, a obra de Negritoo retrata uma figura feminina, linda e forte. Preta é uma mulher empoderada, que passa toda sua confiança pelo seu olhar. Ela olha para os espectadores como igual, sem distinção ou menosprezo. “Não queremos nem mais ou menos que ninguém, somente ser vistos como iguais, com as mesmas capacidades e qualidades, independentemente de cor ou gênero”, diz o artista.

A luta pela igualdade racial e de gênero não é novidade. A arte como forma de protesto e questionamento da sociedade também não. No Império Romano e na Grécia Antiga, já se via escritas nos muros protestando contra o governo. Era o início do grafite, que surgiu por necessidade de expressão. Ao longo da nossa trajetória civilizatória, feita de injustiças e violações aos direitos humanos, a arte tem um papel fundamental e indiscutível no ativismo social. A arte pode ir muito além da decoração de ambientes e de alimentar a imaginação. Ela pode ser também uma ferramenta de costura de arranjos sociais, de fomento de práticas cidadãs, de produção e gestão de conhecimentos comuns, abertos e compartilhados, de construção de novos valores, de formação de vínculos e diversidades ao redesenhar novas formas de escuta e de ação.

Se a arte é o espelho da humanidade, seria impossível esta não refletir a nossa imagem, seja esta a que for. Por meio de sua arte, Negrito consegue abrir um diálogo sobre problemas sociais de forma leve e lúdica, por isso hoje, mais que nunca, é tão necessária. A grande jazzista norte-americana Nina Simone, uma das primeiras artistas negras a se posicionar politicamente, disse que “o dever de um artista é refletir o tempo em que vive”. Enquanto o mundo se levanta e protesta (justificadamente) de forma violenta contra o racismo, a arte do Negritoo faz o mesmo, de forma pacífica e cheia de cores.

 


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.