A mineira de 30 e poucos anos é formada em design de moda pela UFMG e, desde 2012, sai pelas ruas de BH espalhando sua arte e conquistando espaço dentro do grafite nacional. Mulher e negra, ela aborda temas contemporâneos e está em constante questionamento de padrões de beleza impostos para as mulheres, quebrando estigmas dentro do seu próprio meio e trazendo visibilidade feminina para dentro dessa modalidade artística, que é dominada por homens. Seu trabalho também busca a conexão com a sua ancestralidade.  A paleta de cores vibrante usada em seus graffitis reflete a sua pesquisa de matrizes africanas.

Criola é considerada a porta-voz da nova safra feminina de artistas visuais que utilizam o graffiti como instrumento de afirmação e empoderamento negro. Os grafites que faz apresentam formas e cores que, apesar de serem inofensivos à primeira vista, são símbolos que carregam consigo gritos de resistência e um desejo de honrar aqueles que um dia tiveram sua liberdade cerceada em razão da cor de suas peles.

Sua obra remete à obra de Rubem Valentim (Salvador, BA, 1922 – 1991) pelas cores, abstração geométrica, simbologia e resgate da cultura africana.  A arte de ambos tem um sentido monumental intrínseco.  Vem do rito e da festa. Busca as raízes e podem ser apresentadas como uma espécie de ressocialização da arte ao povo.

VAMOS OBSERVAR

Híbrida Astral – Guardiã Brasileira, 2018

Mural em parede

1365 m²

Rua São Paulo, 351, Centro, Belo Horizonte

Em 2018, Criola participou do festival de arte urbanda CURA, pintando o mural intitulado “Híbrida Astral – Guardiã Brasileira” na fachada de um prédio em Belo Horizonte. O mural que tem 1365 metros quadrados é uma ode ao caminho interno que honra as mulheres e seu sangue sagrado; honra os povos originários brasileiros e seus descendentes como legítimos guardiões dos portais da espiritualidade que sustentam o Brasil.

De acordo com a artista, estamos imersos em uma crise existencial enquanto sociedade. Os hábitos que nos fizeram chegar até aqui não nos levarão muito longe. O trabalho é parte da série de grafites Híbrida Astral, na qual Criola se dedica a retratar personagens multidimensionais que, ao honrarem a natureza e os animais, fazem parte de um mundo simbólico, onde a disputa por superioridade (entre humanos e natureza, entre gêneros e etnias) já foi superada. Com os atuais ocorridos relacionados à degradação do meio ambiente e à violência (moral e física) contra minorias, a obra se mostra cada vez mais atual e a temática de extrema importância. “Os povos ancestrais têm uma sabedoria totalmente enraizada na comunhão com a natureza, sentindo-se parte dela e não sugando tudo que ela nos oferece. Além disso, esse mural aborda o resgate do feminino, da honra às mulheres como fiéis detentoras do portal que nos possibilita chegar no planeta Terra. Não é à toa que tanto as mulheres como os povos afro-indígenas são massacrados. A sociedade precisa se curar desse egoísmo colonizador em achar que tudo que difere de si precisa ser dominado”, afirma.

Hoje uma disputa judicial decide se o mural deve ou não permanecer no prédio. Um dos moradores é contrário à manutenção da pintura e, desde sua produção, exige o apagamento. O processo se tornou de conhecimento público no ano passado, gerando discussões para além do edifício. Ainda em 2018, o condômino insatisfeito moveu um processo contra o edifício, para que a obra fosse interrompida.  A maioria das pessoas é a favor de que a obra permaneça na empena, mas a discussão revelou muito mais que uma conversa sobre gostos e arte. O caso suscita discussões sobre os limites entre os interesses público e privado e nos mostra um racismo enraizado na nossa sociedade e também explícito nas redes sociais.

Para a artista, a importância do resultado deste processo vai além de uma simples volta à pintura cinza da parede. Em consonância com o restante de sua produção, a obra traz referências à cultura afro-brasileira e indígena e, por isso, para a muralista, seu apagamento tem um fator simbólico: “Nos matam fisicamente e nos matam simbolicamente através do apagamento da nossa cultura e de tudo que gira em torno dela. O gosto estético é uma construção cultural e social e que é moldada massivamente pelo imaginário do colonizador”.

Segundo ela, essas opiniões têm um fundamento racista perceptível que partem de um preconceito com religiões de matriz africana. Ela compartilha que essa não é a primeira vez que se vê diante de casos de racismo em decorrência de sua obra, mas que segue tranquila pelo apoio que tem recebido daqueles que admiram seu trabalho e entendem o papel da arte no combate aos preconceitos.

Nós vivemos momentos de muita intolerância que precisamos superar, porque isso é uma demonstração de ignorância, desconhecimento e desvalorização da cultura brasileira. A nossa cultura é diversa e, quanto mais abraçarmos a nossa diversidade, mais ricos seremos culturalmente.


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.

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