Victor Brecheret foi um escultor ítalo-brasileiro (1894-1955). Imigrante italiano, órfão de mãe, veio a São Paulo com seus tios. Trabalhava em uma loja de calçados durante o dia e à noite fazia cursos de arte no Liceu de Artes e Ofícios. Em 1913, seus tios o mandaram de volta à Itália para estudar, mas, por causa da sua falta de formação, não foi aceito na Academia de Belas Artes. No entanto, foi recebido como discípulo de Arturo Dazzi, o mais famoso escultor italiano da época, aprendendo com ele as técnicas da modelagem, além de conhecimento de anatomia humana. Recebeu grande influência do escultor sérvio Ivan Mestrovic quanto à expressividade, tensão, alongamento e torções das figuras. De 1916 a 1919, participou de várias mostras coletivas em Roma.
Em 1920, retornou a São Paulo e foi descoberto pelos jovens modernistas, que extasiados diante de suas esculturas, o tornaram um elemento polarizador do grupo. De fato, o artista e sua obra inspiraram personagens de romances de Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia. Ainda traduziu para escultura os poemas de Guilherme de Almeida e Menotti. A sua escultura Cristo de Trancinhas, adquirida por Mario de Andrade, é o elemento desencadeador dos seus primeiros versos modernistas de Pauliceia Desvairada. Celebrado como um gênio e influenciado pelo espírito nativista do grupo, o artista teve seu período mais prolífero em São Paulo.
Em 1921, recebeu uma bolsa de estudos de cinco anos para uma escola em Paris. Esta estadia se estendeu por quase quinze anos, com vindas esporádicas ao Brasil para expor seus trabalhos. Em Paris participou de vários salões, convivendo intensamente com artistas como Fernand Léger, Picasso, Archipenko, além de brasileiros como Anita, Tarsila do Amaral, Vicente do Rego Monteiro e Antônio Gomide, que foi seu vizinho de ateliê. Como a maioria dos artistas da Escola de Paris, Brecheret foi influenciado pelo movimento artístico Art Déco, que marcou a visualidade a partir de 1925. Alinhado a esta arte de vanguarda, modificou seu estilo, adotando formas geometrizadas, lisas e luminosas, sendo bastante elogiado pela crítica. Tornou-se um importante artista da Escola de Paris, tendo recebido o título de Cavaleiro da Legião de Honra, e sua obra, Grupo, de 1932, foi adquirida pelo Museu Jeu de Paume.
Depois de uma carreira de muito sucesso, Victor Brecheret faleceu em São Paulo, no dia 17 de dezembro, aos 61 anos, vítima de um infarto agudo.
VAMOS OBSERVAR
Monumento às Bandeiras
Escultura em granito
12 x 50 x 15 metros
1920-1953
Parque do Ibirapuera, São Paulo.
A ideia da criação do monumento surgiu em 1920, logo após a Primeira Guerra Mundial. Na época, o jovem desconhecido escultor contou com o apoio dos modernistas Oswald de Andrade e Di Cavalcanti.
A obra só começaria a sair do papel em 1936. Armando Salles de Oliveira foi o primeiro a tomar providências para a produção da peça, reservando 2.900 contos de réis para a sua construção. No entanto, uma semana depois de assinar o contrato com o artista, o político deixou o governo para se candidatar à Presidência da República. A partir de 1939, as obras praticamente pararam. Em 1945, o Estado fez um acordo com o então prefeito Prestes Maia: ele assumiria a responsabilidade pela construção em troca de alguns terrenos do governo. O trabalho foi retomado no ano seguinte. Os 240 blocos de granito que formam a obra, cada um pesando cerca de 50 toneladas, foram trazidos de uma pedreira em Mauá. Transportá-los nas estradas de terra foi uma operação difícil. Finalmente, em 25 de janeiro de 1953, durante as comemorações do 399º aniversário de São Paulo, a obra foi inaugurada.
Com mais ou menos 12 metros de altura, 50 de extensão e 15 de largura, representa uma expedição bandeirante subindo um plano, com dois homens a cavalo. Uma das imagens representa o chefe português e a outra o guia índio. Atrás deles há um grupo formado por índios, negros, portugueses e mamelucos, que puxa a canoa das monções, usada pelos bandeirantes nas expedições pelos rios. As raças podem ser identificadas por detalhes nas estátuas. A obra foi instalada no sentido de entrada dos bandeirantes pelo interior, no eixo sudeste-noroeste. Na frente do monumento, um mapa de Afonso Taunay, esculpido no granito, mostra o roteiro das expedições com o nome de alguns bandeirantes famosos, entre eles Fernão Dias, Anhanguera, Borba Gato e Raposo Tavares. Versos dos poetas Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo lembram as bandeiras em placas nas laterais da escultura. As expedições bandeirantes tiveram importância crucial para o povoamento, diversificação das atividades econômicas e expansão territorial do Brasil colonial, embora tenham sido responsáveis pela escravização e dizimação de inúmeras etnias indígenas e pela destruição de muitas missões jesuíticas.
Existem mais de 20 obras de Victor Brecheret em locais públicos, principalmente na cidade de São Paulo, incluindo quatro obras suas em cemitérios, duas no Cemitério da Consolação, uma no do Araçá e outra no Cemitério São Paulo. O Monumento às Bandeiras, carinhosamente chamado de “deixa que eu empurro” pelos paulistanos, era a obra com o qual o artista mais se identificava: “Passei 30 anos de minha vida me dedicando a ela, e a cada figura que eu criava encontrava sempre novas emoções”, afirmava Brecheret em entrevistas. A escultura já foi várias vezes vandalizada. Inclusive uma vez com a frase “Bandeirantes Assassinos”. Mas, aos seus 65 anos de idade, continua a ser o imponente símbolo da cidade de São Paulo.
Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles
Confira outras matérias em nosso perfil no Issu:

















