
Percorrer o famoso Caminho da Fé, entre Águas da Prata e Aparecida do Norte, de bicicleta já é, por si só, uma experiência intensa, geralmente feita em cinco dias pelos ciclistas. Fazê-lo em apenas três dias, no feriado de 1º de maio, transformou a peregrinação dos Malucos do Pedal (MDP), grupo de ciclistas de Cotia e região, em um verdadeiro teste de corpo, mente e espírito. Entre eles estava o jornalista Neto Rossi, que encarou o trajeto com fé em Deus e confiança em si mesmo.
“Eu tive dúvidas se estava pronto, mas a decisão de ir foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida”, resume Neto, que pedala há pouco mais de um ano e decidiu enfrentar o desafio depois de muito treino e incentivo dos amigos. Em um final de semana comum, ele já tem o costume de pedalar de 50 a 150 km por dia em nossa região. Acostumado às ladeiras de Cotia, Itapecerica da Serra e Ibiúna, hoje ele admite que nada o preparou totalmente para a dureza da Mantiqueira. “As nossas subidas mais difíceis aqui são refresco lá”, compara. “Você pode treinar o ano inteiro que vai sofrer do mesmo jeito lá.”
“É um trajeto muito difícil. Tem de ter bastante técnica, o mental tem de estar preparado, não só o físico. Porque não é fácil pedalar o dia inteiro, três dias seguidos, com um grau de dificuldade tão grande.”
Inspirado no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, o Caminho da Fé mistura devoção, contemplação e esforço extremo. No ramal principal, liga Águas da Prata a Aparecida em cerca de 318 quilômetros, cruzando cidades paulistas e mineiras por estradas de terra, montanhas, capelas e pequenos povoados. Em grupo, a largada é coletiva; na prática, porém, a jornada é íntima. “Eu entendi que é uma experiência individual. Por mais que você vá em coletivo, você tem muito tempo com você mesmo. Isso é que é transformador”, comenta Neto.

No segundo dia, nosso jornalista-atleta pedalou quase todo o tempo sozinho. Foi quando vieram as reflexões mais profundas: sobre afeto, gratidão, relações e sentido da vida. “O Caminho da Fé nos proporciona pensar no simples, no básico, no nosso dia a dia”, conta. Para ele, fé tem relação direta com superação:
“Fé é você acreditar que é capaz de superar os seus próprios limites.”

A travessia teve apoio logístico de carros da equipe MDP, paradas em pousadas nas cidades de Tocos do Moji e Luminosa, e terminou sem desistências: os 53 ciclistas completaram o percurso. Mas não sem abalo. No último dia, já perto do fim, Neto quase parou na exigente subida do Horto, em Campos do Jordão. O que o moveu foi a lembrança de que a filha Laura e sua namorada estariam esperando por ele em Aparecida. “Na chegada eu desabei de chorar ao abraçá-las”, relembra.
Em um caminho marcado por setas amarelas, imagens de Nossa Senhora e paisagens que, segundo ele, “parecem pintadas à mão”, a recompensa vem em forma de vistas paradisíacas, silêncio e emoção. “Foi transformador. Foi uma jornada espiritual”, define.
O que é o Caminho da Fé
Rota brasileira de peregrinação inspirada no Caminho de Santiago de Compostela, foi inaugurada oficialmente em 11 de fevereiro de 2003. O trecho tradicional entre Águas da Prata e Aparecida tem pouco mais de 300 km e é considerado de dificuldade média a alta.
Números oficiais do percurso
Distância: cerca de 318 km
Duração média a pé: 12 dias
Altitude máxima: aproximadamente 1.820 metros
Piso predominante: estradas de terra e vias rurais
Cenário: Serra da Mantiqueira e Mata Atlântica
Símbolos do caminho
As setas amarelas orientam peregrinos e ciclistas ao longo da rota. Também fazem parte da paisagem capelas, fitas, imagens de Nossa Senhora e pontos de apoio com pousadas, água e alimentação.
Caminho da Fé x Caminho de Santiago
O Caminho da Fé nasceu inspirado no Caminho de Santiago de Compostela, uma das peregrinações cristãs mais tradicionais do mundo, na Espanha. Enquanto o percurso brasileiro tem cerca de 318 km em seu ramal principal, o famoso Caminho Francês soma aproximadamente 790 km. Ambos unem espiritualidade, esforço físico, credencial, carimbos e certificado final. A diferença está na paisagem: de um lado, a tradição medieval europeia; do outro, a força rural, serrana e devocional do interior paulista e mineiro.

Por Mônica Krausz












