CNH sem exame médico: um risco invisível no trânsito

Renovação automática para "bons motoristas" ignora a saúde do condutor e acende alerta entre especialistas em segurança viária.

Damaged in heavy car accident vehicles after collision on city street crash site at night. Road safety and insurance concept.
Dr. Denis Ferrari, especialista em medicina do tráfego.

A Medida Provisória 1.327/2025 que propôs a renovação automática da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para motoristas sem infrações, sem a exigência periódica de exame médico, acendeu um alerta entre especialistas em segurança no trânsito. Para o médico do tráfego, Dr. Denis Ferrari, da Granja Viana, a mudança pode gerar riscos silenciosos no trânsito.

“Não cometer infrações não significa estar saudável para dirigir”, alerta. “No intervalo de tempo entre a habilitação e a renovação, o cidadão pode desenvolver doenças graves que interferem diretamente nas reações necessárias ao volante”, afirma. “Não ter multas não é sinônimo de ter saúde.”

Segundo ele, problemas clínicos podem comprometer os reflexos, atenção e consciência, mesmo em motoristas considerados exemplares.

A Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (ABRAMET) reforça que a aptidão para dirigir não é permanente. Em nota pública sobre a medida provisória, afirmou que “o exame pericial periódico não é burocracia, é prevenção baseada em ciência.”

De acordo com Dr. Denis, cerca de 12% dos sinistros graves e fatais têm relação direta com condições orgânicas do motorista, muitas vezes desconhecidas pelo próprio condutor e identificadas apenas durante a avaliação médica.

“O exame não deve ser encarado como uma punição para maus condutores, é um mecanismo de preservação da vida”, diz Ferrari.

“O Estado tem obrigação constitucional de proteger a vida. Abrir mão disso é gravíssimo.”
Para os especialistas, flexibilizar regras pode até acelerar processos, mas cobra um preço alto. “Quando a prevenção falha, o trânsito cobra com mutilações, mortes e famílias destruídas”, conclui Ferrari.

Saúde e trânsito em números

  • O mal súbito é responsável por 5% a 10% dos sinistros graves;
  • O mal súbito ao volante foi responsável por 811 acidentes só nas rodovias federais em 2024;
  • São Paulo registra 13,68 mortes a cada 100 mil habitantes;
  • Mais de 6 mil pessoas morreram no trânsito em SP em 2025;
  • Os motociclistas foram as principais vítimas com 2631mortes.

Por Mônica Krausz

Artigo anteriorAntes da Europa: a surpreendente origem do vinho
Próximo artigoO que é Gripe K e por que tomar a vacina da Influenza todos os anos?