“Os sonhos são ajustáveis”. Essa frase de Elfriede Galera, 63, foi dita durante entrevista ao vivo com a Circuito nesta segunda-feira (20), em sua residência, na Granja Viana. E ela faz todo sentido com a sua história. Em 2009, Frida, como é conhecida, descobriu que tinha câncer de mama, que já havia entrado na corrente sanguínea e foi se espalhando até atingir os ossos, o fígado e os pulmões. Seu tempo de vida estipulado pela medicina: até dois anos. Mas a ciência médica errou (confira no vídeo abaixo a entrevista completa).
Hoje, dez anos após o diagnóstico que mudou sua vida, Frida cuida de si mesma e ainda ajuda outras pessoas, principalmente mulheres, a lidar com o mesmo problema. Através de palestras e de seu projeto ‘Velejando Contra o Câncer’, em que leva pessoas para passearem em seu veleiro, Frida contribui na luta contra o câncer de uma maneira diferente: ao invés de pensar na morte, ela toma todos os cuidados para viver intensamente todos os dias e inspira outros pacientes a fazerem o mesmo.
Foi a partir desta filosofia, em pensar na vida ao invés na doença, que ela com seu marido, Jadyr Galera, criaram o projeto, que na verdade foi uma readaptação de um sonho antigo de velejar pelos mares do mundo a sós. Mas agora, ao invés de ser apenas o casal, outras pessoas também podem sentir essa mesma sensação que, segundo ela, faz com que você se sinta no “comando da vida”.

O INÍCIO
Tudo começou em 1989, quando Frida queria engravidar, mas não conseguia, por ter “problemas psicológicos”, segundo o médico com o qual ela passava. Esse mesmo médico sugeriu então algo incomum: pediu para Frida comprar um cavalo. Mas o pedido foi recusado.
Como o casal Galera sempre foi apaixonado pelas águas – doces e salgadas – procurou na época alguém que vendia projetos para construir um barco. “Eu achei então, no Rio de Janeiro, esse cara e já fiquei imaginando o veleiro pronto”, relembra Frida.
Mas a ideia não foi muito aceitável por parte de sua família. Quando Frida chegou na casa de seus pais para compartilhar o que havia acabado de fazer, seu pai, que era descendente de alemão, apenas disse: ‘ein augenblick, eu pensei que vocês fossem construir uma família’.
A expressão em alemão ‘ein augenblick’ significa ‘um momento’. Naquele contexto, o pai de Frida quis dizer algo assim, “espere aí, um momento, pensei que fossem construir uma família”. Mas ele não sabia que a filha estava com problemas para engravidar.
O veleiro, que começou então a ser construído pelo casal, foi batizado com a expressão do pai de Frida, e ganhou o nome de Augenblick. Mas a construção teve que ser interrompida por um bom motivo: Frida estava grávida de uma menina. Mas como os sonhos são ajustáveis, como ela mesma afirmou à reportagem, o casal teve que ajustar o sonho e construir o barco em um ritmo um pouco mais lento.
Cinco anos depois, Frida engravida novamente, desta vez, de um menino. Como na época moravam em um apartamento na Brasilândia, zona norte de São Paulo, tiveram que encontrar um lugar mais espaçoso, afinal, a família cresceu. “Foi quando viemos para a Granja Viana. Mas o barco ficou lá na Brasilândia. E a construção foi devagarinho. Ficou parada por cerca de oito anos”, disse Frida.
O CÂNCER
Foi em 2009 que Frida foi diagnosticada com câncer de mama. Por mais que tenha sido um impacto em sua vida, ela já imaginava que tinha esse câncer, pois sempre fazia autoexame.
Quando as pessoas mais próximas souberam do problema de saúde dela, disseram que não poderia mais trabalhar na construção do veleiro. Mas Frida não se sentia uma pessoa doente. “Eu tenho um câncer, mas não é motivo para eu não continuar vivendo. Eu não vejo o câncer igual a morte”.
Ela não desistiu, e ajustou mais uma vez os seus sonhos. Agora, ao invés de viajar pelo mundo, ela então decidiu que iria viajar pela costa brasileira. Mas algo ainda aconteceria e mais uma vez o sonho teria um novo reajuste.

PROVA DE AMOR
Em sua fala, Frida deixa sempre claro a importância do apoio da família em um momento tão difícil quanto este. E uma das pessoas que mais apoiou ela nesta fase – e ainda apoia – é o seu marido. Jadyr, na época, ficava até tarde da noite trabalhando sozinho na construção do barco. Frida chegou a pensar que ele estava com depressão. Mas não era.
“Fui observar se ele não estava depressivo. Mas descobri que ele apenas queria terminar o barco para mim. Essa foi a maior prova de amor que eu podia receber. Isso me ajudou, inclusive, nas sessões de quimio, que eram bem complicadas, e eu pensava no barco para amenizar o impacto daquele procedimento”, rememora.
APOIO
Como o tempo ia passando e ela não sabia quanto mais viveria, tiveram que apressar a construção do veleiro, mas, para isso, enfrentaram um novo obstáculo, desta vez, o financeiro. O casal precisava de R$10 mil para terminá-lo. Mas de onde iam tirar esse valor?
Recorreram então a uma campanha de arrecadação coletiva em um site. Estipularam a meta e conseguiram o valor em menos de um mês. E como se não bastasse, uma pessoa desconhecida disse que arcaria com todos os gastos do transportem do barco, da Granja para o Guarujá. Segundo Frida, esse seria o maior gasto que teriam. “Agora dava para fazer mais coisas com aquele dinheiro que iria sobrar. Compramos mais equipamentos de segurança.”

NASCE O PROJETO
O sonho de Frida, que agora seria viajar pela costa brasileira com o seu marido, foi novamente ajustado. Desta vez, o fato ocorreu durante uma sessão de quimioterapia, onde Frida esperava a vez dela junto com outra senhora ‘bastante humilde’.
Após ouvir a história do veleiro de Frida, essa senhora disse: “eu tenho um sonho, eu queria ver esse veleiro, porque você fala dele com tanto entusiasmo que me lembro daquela casinha que eu tinha no sertão da Bahia. E me deu uma saudade enorme”.
Frida então conversou com seu marido e chegaram a concussão de realizar o sonho desta e de outras pessoas. Levariam então os pacientes que lutam contra o câncer a velejarem pelas águas. Infelizmente, essa mulher que deu origem a ideia do projeto, faleceu antes mesmo de poder experimentar essa sensação.
PRIMEIRO PASSEIO
Após mais de dois anos estruturando, o projeto saiu do papel e foi para onde deveria: para as águas. O primeiro passeio aconteceu no final do ano passado na Represa Guarapiranga, em São Paulo. Além de um médico oncologista, para qualquer eventualidade, duas mulheres portadoras de câncer que se tratam em hospitais da rede pública de São Paulo participaram da primeira edição.
Circuito – Alguma paciente esboçou alguma reação neste dia, por estar velejando pela primeira vez?
Frida: Sim. Em um determinado momento, uma das mulheres que estavam com a gente tirou o lenço, fechou os olhos e falou que estava sentindo os seus cabelos voando com o vento. E ela não parava de falar, que da hora, que da hora. Estava encantada. Eu sempre pergunto quando encontro uma pessoa desesperada quanto tempo ela quer viver. A pessoa fala, por exemplo, que quer viver dez anos. Então eu falo: viva! Viva com intensidade.
Circuito: E a senhora, quanto tempo quer viver?
Eu quero viver no mínimo mais 20 anos. Eu sei que não vai ser possível, mas quem sabe não vem mais uma medicação que vai me manter viva? A fé e a esperança são muito importantes.
HORA DA MORTE
Frida fez um testamento vital, um documento oficial onde consta o que um doente terminal quer no final da sua vida. Ela explica que esse documento é feito normalmente para que essas pessoas não sejam mantidas vivas sem ter qualidade de vida.
Em seu testamento, e após ter discutido com a família, Frida disse claramente o que quer e o que não quer. “Eu quero que tirem a minha dor. Se eu tiver problemas respiratórios, quero que aliviem a minha respiração. Eu não quero ser entubada”, deseja.
No enterro, Frida também deixou a sua vontade registrada: o caixão deve ser fechado, quer ser cremada e suas cinzas enterradas no mar. “O local deve ser rochoso, profundo, a caixa com minhas cinzas vai descer, todos os veleiros vão acompanhar, podem jogar pétalas de rosas de qualquer cor, mas nada que polua o mar, e minhas cinzas, em pouco tempo, serão cobertas por corais. Não vai ficar lindo?”, afirma e ainda complementa: “Tudo isso ao som da Quinta Sinfonia, de Beethoven”. Essa é a trilha sonora que ela ouve nas sessões de quimio.
No final da entrevista, Frida ainda disse que, após a sua morte, seu marido vai continuar o projeto levando as pessoas com câncer para velejarem e esquecerem, por um moimento, que são doentes.
Por José Rossi Neto














