As famílias com crianças e adolescentes foram as mais vulneráveis aos efeitos da pandemia enfrentada esse ano, não apenas na renda, mas na alimentação, educação, prática de atividades físicas e outros. De acordo com pesquisa realizada pelo IBOPE, desde os meses em que as principais medidas de isolamento adotadas para combater o vírus tiveram início, os casos envolvendo crianças e adolescentes enfrentaram maiores dificuldades não apenas pela redução do rendimento familiar, mas em vários outros aspectos.

Para entender sobre essas dificuldades, o Circuito Almanaque – programa exibido pelo Facebook e pelo YouTube – conversou com a profissional Sheila Niskier, que é médica do adolescente na UNIFESP e voluntária do grupo de dependências tecnológicas que foca a questão do adolescente, com doutorado nos transtornos de controle de impulso do instituto de psiquiatria da USP, tem desenvolvido também um trabalho como pesquisadora do hospital das clínicas da universidade.
No que diz respeito à alimentação, a quarentena trouxe mudanças de hábitos na maior parte das famílias. Com as restrições de bares e restaurantes e o maior tempo em casa, muitos começaram a preparar comidas caseiras e mais saudáveis. Outros passaram a explorar o uso de aplicativos para pedir comidas prontas e “fast foods” que os jovens adoram.
Na educação as mudanças foram ainda mais expressivas. Com as aulas presenciais canceladas, métodos alternativos de ensino a distância foram muito importantes para crianças e adolescentes manterem seus estudos em dia. Contudo, além do sistema EAD não ter o mesmo resultado das salas de aula com o professor presente, famílias privilegiadas com computador e internet em casa ainda tiveram essa possibilidade, mas infelizmente muitas não possuem e, para seus filhos, foi praticamente um ano perdido. “O trabalho e a escola dos filhos veio para dentro de casa. O que a gente tem visto é que os pais não sabiam nem o conteúdo que era ministrado para seus filhos, quanto mais ter que ajudar nos conteúdos da escola. E muitos não têm esse tipo de letramento para ajudar. O que vimos em classes sociais mais abastadas é que a escola realmente funciona para quem tem internet, para quem tem computador em casa e todo esse aparato para começar o desenvolvimento do aprender. Agora, o que aconteceu, é que se viu mais ainda o distanciamento social entre as classes. Por exemplo, na educação, é o ano perdido”, comentou.
A especialista explicou que o sistema de ensino a distância já é insuficiente no aprendizado quando há apenas um professor central para ministrar todo o conteúdo, os alunos ligam as aulas online e deixam lá passando sem ter a mesma atenção da presencial e até a maneira como as atividades são realizadas é bem destituída. Então, no caso das famílias que nem podem contar com esses equipamentos, vemos uma situação ainda mais precária.
“Embora a gente tenha um alcance de mais de 90% de internet no Brasil, a gente tem 7% das pessoas que nem tem internet em casa, então ficam dependente das lan houses, ficam dependentes de Wi-fi ou algum tipo de conexão gratuita para poder fazer a sua escola e o seu aprendizado. Eu fico vendo aqui os meus adolescentes que tem que prestar o Enem, como que eles vão prestar Enem se esse terceiro ano não existiu? Eles não conseguiram ter o acesso, ou o acesso que conseguiram ter é tão pouco, que não foi uma educação pertinente para prestar um Enem”, pontuou.
De acordo com os dados do IBOPE, a situação das famílias que procuraram manter os estudos de crianças e adolescentes foi mais desafiadora por se adequar às aulas online e ainda garantir que seus filhos tenham aprendizado com essas atividades. Na pesquisa, foram entrevistadas crianças e adolescentes de 4 a 17 anos e, destes, 91% afirmaram que ainda realizam as atividades escolares em casa, mas apenas 87% com o uso da internet.


Então, segundo Sheila Niskier, o uso de tecnologias não é a melhor ferramenta para educação, mas diante da pandemia foi uma alternativa importante para manter as atividades escolares. Contudo, essa relação mais constante dos adolescentes com a tecnologia também precisa ser acompanhada pelos pais para não haver efeito negativo na vida dos jovens. É preciso estabelecer regras e controle de horário para que outras práticas não se tornem vícios. Passando todo esse tempo em casa, com a ajuda da tecnologia, temos fácil acesso a filmes, séries, games e redes sociais como forma de interação e entretenimento. O que é muito bom e pode-se aproveitar de forma saudável.
Mas em dias de quarentena e mudanças de hábitos, quanto tempo devemos orientar as crianças e adolescentes a usar essas ferramentas por dia? Como administrar e supervisionar as atividades dos jovens dentro de casa? Para descobrir tirar essas e outras dúvidas, acompanhe a entrevista completa com a médica especializada em adolescentes e entenda como os efeitos da pandemia influenciam a vida de crianças e adolescentes no contexto atual e como isso pode decorrer na pós-pandemia.
Por Eric Ribeiro















