A professora Ângela Maluf, 67 anos, esteve prefeita em exercício em julho, no período de férias do prefeito Rogério Franco. Representou a mulher cotiana no cargo mais importante do executivo.
Em um palco ou palanque ela sempre chama a atenção de todos. Do alto de seu 1,80 metro de altura, cabelos vermelhos, muitas vezes a única mulher entre os chefes de governo e sempre esbanjando eloquência, sinceridade, humanidade, simpatia e muita sensibilidade diante das causas humanas.
Nas ruas, destaca-se pela humildade e empatia, sempre acolhendo, abraçando, ouvindo a todos, do gari à ministra, com o mesmo carinho e respeito.
Demonstrando garra, determinação e vitalidade surpreendentes em todas as suas ações, atua ao lado do prefeito Rogério Franco, da primeira dama Mara Franco, secretários e vereadores, em uma gestão que está transformando Cotia com muita competência e visão humanizada, promovendo o desenvolvimento da cidade e seus cidadãos. Sempre apoiando a educação em primeiro lugar, pois foi o que a trouxe até onde está. Lutando contra todo tipo de preconceito ou discriminação. Levantando a bandeira da paz e não violência. Colocando-se no lugar do outro, sentindo suas dores, antes de tomar as suas decisões.

Quem vê suas vitórias não tem noção dos desafios que precisou superar. Ângela Maluf, a caçula da família de quatro mulheres, conviveu com o pai alcoólatra na infância e passou por situações de violência doméstica. “Meu primeiro ato feminista, ainda menina, foi buscar ajuda para a minha mãe”, lembra.
Também se recorda de se sentir diferente na escola por sua altura e magreza na série em que cursava. “Naquela época não se falava em bullying, mas eu sofri com isso na escola”, conta. Tanto que durante as aulas ficava no fundão, não para fazer bagunça, mas para aparecer menos. Foi quando aprendeu na pele a respeitar as diferenças.
Ainda adolescente, veio com a mãe e as três irmãs, de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, sua terra natal, a São Paulo para dar novos rumos à vida depois da separação do pais.
Trabalhou em diversas funções para ajudar a mãe e as irmãs. “Me lembro de uma torta de morangos… eu pedi uma fatia à dona da doceira onde eu trabalhava como balconista e ela disse que descontaria do meu salário. Esqueci o desejo, pois precisava entregar todo o meu pagamento para a minha mãe, para as despesas da casa, não poderia abrir mão de nenhum centavo’, conta.
Uns cinco anos depois, quando já estavam mais estabilizadas, ouvindo a mãe conversando com algumas amigas do clube Sírio-Libanês sobre um desfile de modas beneficente, se ofereceu para desfilar como manequim (sem cachê). “Desfilar era um sonho meu”, lembra. “Na semana do desfile, eu tive caxumba, cobri o rosto inchado com o cabelo alisado e fui para a passarela. O desfile foi um sucesso. Uma das noites mais lindas da minha vida. Ali recebi mais três”, recorda-se.

E não parou mais de desfilar por 15 anos. Sua mãe cuidava da agenda dela! Trabalhou na TV Mulher, com o diretor Nilton Travesso, a apresentadora e jornalista Marília Gabriela e com os famosos estilistas Clodovil, Dener e Ney Galvão. Desfilou alta moda. Fez carreira internacional. Esteve em passarelas da Europa, Estados Unidos e Argentina. “As coisas acontecem naturalmente em minha vida, mesmo sem a gana de conquistá-las”, afirma.
Na Alemanha, vivenciou o preconceito étnico por seus traços árabes. “Eu ia às lojas e pegava as coisas com as mãos para ‘sentir os produtos’, mas lá eles não têm esse hábito, então, sempre que eu entrava na loja ouvia muito a palavra ‘Achtung’, que depois descobri que significava ‘Perigo’, eles achavam que eu ia roubar”, lembra-se. “Foi fora do Brasil que eu aprendi a amar mais o meu país”, afirma.
“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá…”, entendeu melhor o significado do poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, nesta vivência.
Foi também na Alemanha que Ângela Maluf aprendeu a pintar sedas. “Eu pintava a fauna e a flora brasileira em lenços para presentear”, conta.
Quando voltou para o Brasil, a mãe estava com Alzheimer. “Foi um momento muito difícil não ser mais reconhecida por ela”, lembra-se. “Precisamos vender o apartamento para custear o tratamento e eu também comecei a vender os meus lenços na feira de artesanato do Embu das Artes como ambulante, aos domingos”, recorda-se. Uma rotina que durou cinco anos.
Por meio de uma amiga, soube de uma vaga para vendedora em uma joalheria. Enviou um currículo, porém, quando informou sua idade, 40 anos, declinaram. Voltou para casa consciente de que precisava retomar os estudos, pois só havia concluído o ensino fundamental. Fez supletivo em Osasco, se destacou, foi até representante de classe! Amou voltar a estudar. Depois cursou a faculdade de pedagogia.

“Eu soube que, no magistério, a idade não seria empecilho, pelo contrário, contaria a meu favor e eu teria segurança se fosse aprovada em um concurso público”, conta.
E assim foi. Um pouco antes de concluir os estudos, durante a faculdade, exigia-se o estágio. Então, procurou a Delegacia de Ensino de Carapicuíba (Diretoria de Ensino) e começou a trabalhar como professora eventual da E.E. Ary Bouzan, no Parque São George. “Eu substituía professores de todas as matérias quando eles faltavam e como não dava para planejar as aulas, eu ia para as classes com um jornal e um globo terrestre”, conta. Liam as notícias do mundo, localizavam os países no globo, refletiam sobre os acontecimentos do dia, questionavam por que o fotografo fez a foto naquele ângulo. As aulas eram ótimas e dinâmicas!
Naquela época, Ângela Maluf morava com a família em um condomínio na Granja Viana e foi eleita diretora ambiental com a proposta de plantar árvores frutíferas silvestres em todo o condomínio, promover a coleta seletiva de lixo para fins sociais e buscar tratamento do esgoto local.
Conseguiu mais de 8 mil mudas de árvores junto ao então Secretário Estadual de Meio Ambiente, Ricardo Tripoli e também mudas de Palmito Juçara, com o Sr. Hélio Foltolan, que tinha um berçário desta espécie, sempre orientada pela grande amiga Bárbara Krotoszynski. Os moradores fizeram o plantio em mutirão.
Um grande marco em sua vida foi quando a coordenadora Ana, da escola Ary Bouzan, lhe perguntou se ela sabia trabalhar com mosaicos para fazer um nos muros da instituição de ensino, pois estavam muito pichados. Disse que sabia, mas nunca havia feito. “Fui a uma loja de materiais de construção, me informei sobre o que era necessário para fazer e fui, com os alunos, recolher cacos de azulejos nas caçambas de entulho pela cidade’, lembra-se. Fizeram os mosaicos, refletiram sobre os cacos rejeitados que tiveram novo destino, e sua arte está até hoje nos muros da escola.
Foi então que a jornalista Juliana Martins Machado, passando em frente à escola, viu os muros e resolveu fazer uma matéria sobre o trabalho da professora Ângela e seus alunos para a Revista Circuito. A matéria repercutiu na região e caiu nas mãos da então presidente da Apae de Cotia, Ana Maria Bastos, que a convidou para fazer o mesmo junto aos alunos da instituição. Mais um grande sucesso! Tanto que foi contratada pela APAE de Cotia e foi lá que ela se apaixonou pelo trabalho com pessoas com deficiência e se especializou na área.
Concluiu pedagogia, prestou concurso público e foi aprovada. Aos 45 anos, diante de sua experiência na APAE, foi convidada para trabalhar como professora de artes no CEIC, uma escola municipal para pessoas com deficiência. “Eu sou apaixonada pelos os meus alunos até hoje”, comenta. “Eu encontro-os nas ruas, em eventos e eles me chamam pelo nome, não esquecem de mim e eu não esqueço deles”, afirma.
Em 2009, foi criada a primeira a primeira Secretaria da Mulher de Cotia, a quarta no Estado de São Paulo e, diante de suas lutas pelos direitos da mulher, Ângela Maluf foi convidada a assumir a pasta. “A minha vida sempre foi pautada na surpresa. Muitas adversidades surgem, claro, mas eu as enfrento e supero”, diz.
Em sua gestão como Secretária da Mulher foram criados o Centro de Referência da Mulher e o Centro de Acolhimento à Mulher Rural, entre outras ações.
Na primeira gestão de Rogério Franco, Ângela Maluf foi convidada a contribuir na saúde. Dirigiu as UBSs de Caucaia e região, além da UBS do Atalaia. Em seguida, assumiu a pasta como Secretária Adjunta da Saúde. “Essa minha experiência na Saúde foi e é grande pauta motivadora na minha vida”, afirma.
Por duas vezes, concorreu a uma vaga de vereadora na Câmara Municipal de Cotia. Madrugava nos pontos de ônibus conversando com os munícipes de toda a cidade. Foi sempre a mulher mais votada, mas não conseguiu ser eleita. Chegou a ocupar uma cadeira na Câmara por um breve período de três meses como suplente. Quando ia concorrer pela terceira vez a um cargo no legislativo da cidade, foi convidada pelo Prefeito Rogério Franco a abdicar do pleito para vir como candidata a vice em sua chapa. Mais uma vez, a surpresa e o desafio batiam à sua porta!
Na campanha, foi vítima de preconceito de gênero, racial e religioso, mas também superou esta dor. Venceram!
Eleitos democraticamente pelo voto da maioria da população, iniciaram o mandato em primeiro de janeiro de 2021 em plena segunda onda da Covid-19, promovendo e incentivando a vacinação de toda a população, inclusive com mutirões aos finais de semana e madrugadas.
Em 2021, no primeiro ano de mandato como vice-prefeita, quando também esteve Secretária dos Direitos Humanos, Cidadania e da Mulher de Cotia e, em parceria com Secretaria de Saúde, conseguiu implantar na cidade o primeiro Núcleo de Atendimento à População Trans e Travesti de Cotia, uma política pública inédita em nossa região, que vem inspirando outros municípios.
Com a Secretária Mara Franco, do Desenvolvimento Social, lançou o Programa Cotia que Cuida, que reforçou ações como “Mãe Cotiana”, “Novo Olhar e “Além de Som”, distribuindo centenas de kits de enxoval, óculos e aparelhos auditivos para as famílias que mais precisam.
Com Mara Franco, também olha com atenção especial para as famílias com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com emissão de carteirinha que os identifica como prioritários e ações diversas de atendimento e inclusão destas crianças. Também faz questão de participar de todas as ações assistenciais e solidárias como entrega de cestas básicas, cobertores, brinquedos no Natal e ovos de chocolate na Páscoa. “Mara Franco não é apenas uma primeira dama, mas uma competente gestora que atua com muita inteligência e responsabilidade”, afirma.
Militante dos Direitos Humanos e da não violência, Ângela Maluf também é atuante nos conselhos da Mulher, Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Cotia e Conselho Municipal de Desenvolvimento e Promoção da Igualdade Racial (Comdepir), além de Embaixadora da Caminhada de Cultura de Paz e Não violência do Município.
Ela, que também atua nos GTs de Gênero e de Igualdade Racial do Cioeste, costuma dizer que as minorias, juntas são maioria e abraça as causas dos que mais precisam, dando a eles voz, visibilidade e mais potência.
Mãe e avó de homens, também realizou duas edições do Projeto Homem Com Ciência em Situação de Violência, com orientação a Homens com medida protetiva por violência doméstica. Em 2023, este projeto ganha nova configuração, passando a se chamar Lar em Paz e também atendendo mulheres agressoras em relações homoafetivas.
Para despertar o engajamento feminino, Ângela Maluf realizou o 1º Ciclo de Formação ‘Mulher, conheça a sua força política’, trazendo especialistas em gestão pública, financiamento de campanha e marketing para trazer seu conhecimento às mulheres cotianas que pretendem atuar na vida pública.
Em março de 2023, foi homenageada na Câmara Municipal, em Sessão Solene, com a medalha Mérito Legislativo Municipal. Em junho, como Personalidade Ambiental 2022/2023 pelo Conselho Municipal do Meio Ambiente e pela Comissão de Meio Ambiente da Câmara.
Como prefeita em exercício, foi incansável: assinou a ordem de serviço para a construção do tão sonhado Teatro Municipal de Cotia, recebeu líderes de bairros e líderes sindicais, vistoriou as obras, acompanhou a aplicação de asfalto em diferentes pontos da cidade, realizou visitas noturnas às Unidades de Pronto Atendimento da cidade para verificar seus protocolos, recebeu e apoiou líderes religiosos de diferentes segmentos, realizou três edições do Programa Prefeitura no Seu Bairro em diferentes pontos do município, levando diversos serviços públicos para perto da casa das pessoas, entre outras ações.
Essas são algumas das conquistas desta mulher que superou muitos obstáculos para ter o direito de ser quem é e estar onde está.
Mônica Krausz é jornalista, escritora, assessora pós-graduada em marketing político e eleitoral





















