Mudar de país é muito mais do que fazer as malas. É deixar para trás pessoas, lugares, hábitos e uma rotina que fazem parte de quem somos. Muitas vezes, só percebemos o valor dessas referências quando estamos longe. A psicologia intercultural ajuda a compreender como o encontro entre culturas pode transformar nossas emoções, nossos vínculos e a maneira como nos percebemos.
Gosto especialmente dos estudos do psicólogo John W. Berry sobre aculturação, as mudanças que surgem do contato entre culturas. Uma ideia que me inspira é a possibilidade de preservar nossa identidade cultural e, ao mesmo tempo, criar vínculos e pertencimento em outro país. Não precisamos deixar de ser quem somos para acolher novas partes da nossa história.
Na partida, podemos sentir entusiasmo e medo. Durante a permanência, há descobertas, saudade e o desafio de criar novos vínculos sem perder os antigos. E voltar também é se adaptar: quem retorna não é mais a mesma pessoa que partiu. Nem o lugar, nem as pessoas que ficaram são exatamente os mesmos. Por isso, acolher as mudanças e cuidar dos vínculos faz parte do caminho.
Para ir, ficar e voltar
Antes de ir: Uma orientação que gosto de propor é desenhar um mapa de apoio. Quem pode ajudar no destino? Com quem posso conversar no Brasil? Anote nomes e formas de contato e combine como manter a proximidade. Saber a quem recorrer, inclusive num dia difícil, pode trazer segurança e reduzir a sensação de estar sozinho.
Enquanto estiver fora: Experimente um caderno de adaptação. Quando algo abalar você, escreva o que aconteceu, o que sentiu, o que pensou e pergunte: “Existe outra maneira de interpretar isso?”. Inspirado no registro de pensamentos da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), esse exercício ajuda a observar pensamentos automáticos e olhar a situação de outros modos. Cultive os laços com quem ficou e participe de atividades locais. Assim, você pode ampliar sua identidade, criar novos pertencimentos e manter suas raízes.
Ao voltar: Faça duas listas. Na primeira, anote o que deseja trazer da vida que construiu fora: hábitos, aprendizados e valores. Na segunda, registre pessoas com quem quer se reconectar e atividades que gostaria de retomar ou começar. Escolha um pequeno passo para cada lista. Isso ajuda a integrar quem você se tornou à vida de agora, sem exigir que tudo seja como antes.
Além dessas práticas, considero valioso ter acompanhamento psicológico durante a partida, a vida no exterior e o retorno. Contar com um profissional de confiança pode oferecer um espaço de escuta para elaborar mudanças, cuidar dos vínculos e construir caminhos próprios de adaptação.
Aline Zanatta Vargas – CRP 07/286
Psicóloga Clínica e Intercultural, pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Master Practitioner em Programação Neurolinguística (PNL)













