Por Mônica Krausz

Voluntários e familiares no Busque Ajudas do CAPS AD em Cotia

Há alguns meses venho acompanhando com admiração um trabalho realizado no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas de Cotia – CAPS AD. Além do acolhimento e cuidados com os Dependentes Químicos, eles têm lá um grupo chamado Busque Ajuda, para familiares de dependentes de álcool e drogas, os chamados codependentes – pais, mães, cônjuges, filhos e irmãos que sofrem e adoecem física, psíquica e espiritualmente, com a dependência química de seus entes queridos.
Em Cotia, o grupo se reúne sempre as quartas-feiras, de 15 em 15 dias, para uma palestra que lhes aponta caminhos para mudar o rumo da situação familiar em que se encontram. Esse grupo, que tem o apoio da Prefeitura de Cotia, que lhes cede o espaço de reuniões para familiares, é formado por voluntários do Instituto Girassol de Cotia e da Comunidade Terapêutica Filhos da Luz, de Carapicuíba.

Atividade desenvolvida com familiares no Grupo de Apoio Busque Ajuda do CAPS AD em Cotia

A Comunidade Terapêutica Filhos da Luz, de Carapicuíba é uma instituição totalmente filantrópica criada pelo Dr. Ronaldo Campos, pós-graduado em Dependência Química e hoje tem unidades de acolhimento de dependentes químicos em Carapicuíba, São Roque e Santana do Parnaíba. Na CT Filhos da Luz de Carapicuíba também há reuniões para familiares, todas as quartas-feiras, às 19h30.
Acompanhando as reuniões do grupo Busque Ajuda de Cotia vi pessoas chegando destroçadas e se recuperando aos poucos para poder cuidar dos seus. Ouvi histórias de Reconstrução de Vidas!

Dr. Ronaldo Campos e a Comunidade Terapêutica Filhos da Luz

Dr. Ronaldo Campos

Foi no Busque Ajuda de Cotia que conheci o Dr. Ronaldo Campos, que fez fortuna como cirurgião dentista, primeiro ortodontista de Carapicuíba e que em determinado momento de sua vida viu um de seus filhos na dependência química, o que o fez mudar o rumo de sua própria existência já que acabou se pós graduando em dependência química e fundando uma Comunidade Terapêutica para acolher dependentes químicos oriundos de famílias que não têm como arcar com os altíssimos custos de uma internação particular. Hoje a comunidade tem seis unidades, atende a cerca de 50 dependentes químicos e ainda sobrevive de recursos próprios do Dr. Ronaldo, do trabalho de cerca de 25 voluntários e alguns funcionários e da contribuição financeira de amigos e empresas que adotaram a causa. Segundo Dr. Ronaldo cada interno gera uma despesa de cerca de R$ 900,00 por mês à CT Filhos da Luz.
Seu objetivo, no entanto, é tornar as Comunidades autosustentáveis gerando trabalhos que possam ser executados pelos internos para pagar sua própria estadia e tratamento. Na Filhos da Luz de Carapicuíba por exemplo, eles já fazem biscoitos que são vendidos pelas famílias. Na de São Roque produzem cogumelos shitake e shimeji, que também são vendidos para gerar renda para a própria comunidade e já estão pensando em produzir alcachofras. Nas duas cultivam hortas que geram alimentos para a próprias comunidades terapeuticas.
Visitei as unidades de Carapicuíba e São Roque e fiquei encantada com a arrumação dos espaços, a limpeza, o cuidado e o alto astral das mesmas. A CT Terra da Luz, em São Roque é uma Chácara doada por um empresário que adotou a causa do Dr. Ronaldo.

A Escola da Vida

Horta Comunitária da CT Filhos da Luz de Carapicuíba

Depois de assistir a três palestras deste homem abnegado que é o Dr. Ronaldo Campos, que hoje dedica 24 horas de seu dia ao resgate de dependentes químicos, quis muito realizar uma entrevista sobre um de seus mais novos projetos, a Escola da Paz, que tem entre os seus objetivos ensinar a Comunicação Clara e sem Violência às famílias, ajudando-as a tirar os filhos da dependência química. E além deste, que por si só já é um grande objetivo, ainda pretende envolver os adictos recuperados no propósito de difundir estes ensinamentos.
Hoje, depois de 9 anos de trabalho na Comunidade Terapêutica Filhos da Luz e depois de ter resgatado o próprio filho e tantos outros filhos de outros, Dr. Ronaldo Campos afirma que nesta vida recebeu dois grandes presentes de Deus. O primeiro presente, segundo ele, foi um filho por adoção, que se tornou dependente químico profundo de cocaína e que já estava indo para o mundo da criminalidade e o segundo foi um casamento difícil.
Dr. Ronaldo lembra que descobrir que o filho era usuário de drogas foi uma situação muito dolorosa. “A gente não acredita que isso possa acontecer na nossa própria casa”, diz. Para ajudar o filho a sair das drogas ele teve que estudar para entender o mundo em que seu filho havia se metido. “Assim eu passei a usar os meus bons talentos, a minha inteligência, os meus valores e os recursos financeiros que eu tinha para poder entender o que é dependência química e como é que a gente faz para tirar um filho da bebida e outras drogas”, conta.

Salão de festas e atividades em CT Filhos da Luz Carapicuíba

Campos ainda recorda-se que quando descobriu que seu filho era dependente químico, há cerca de 12 anos atrás, precisou interná-lo pagando, na época, R$ 7 mil por mês, ou seja, para tirar o filho da droga, ele gastou o equivalente a dois automóveis Corola top de linha. Foi assim que se deu conta de quanto era caro tirar um filho da droga e se preocupou com os filhos de quem não podia pagar. Tomou, então, a decisão que mudou a sua vida, montar uma Comunidade Terapêutica que pudesse acolher com muito amor, dentro de princípios de ética e de humanidade, pessoas com dependência química profundas que viessem de famílias 3Fs: Frustradas, Feridas e Falidas. “A convivência prolongada com o filho na droga, adoece, enfraquece e enlouquece a família”, ressalta Campos.
Segundo o doutor, a droga tira a vontade de estudar, de trabalhar, ela coloca o pé do usuário na criminalidade, destrói as relações familiares e isso traz muita dor e muito sofrimento. Quando ele descobriu que o seu filho era usuário de drogas, o rapaz estava com 19 anos, mas já fazia uso há pelo menos 6 anos. Sua maior dor foi não ter percebido que o filho estava “descendo ladeira abaixo”.
“Ai eu entendi que a gente só reconhece o que conhece. Como eu não conhecia os sintomas de uso de drogas, eu via que eu tinha um filho preguiçoso, irresponsável, que dormia demais, que mentia muito, que não falava muito nada com nada, que ia mal na escola, andava com gente estranha e tinha umas conversas meio esquisitas, mas eu não associava isso à droga”, lembra.

Refeitório em CT Filhos da Luz Carapicuíba

Para ele, a princípio, descobrir que tinha um filho na droga fez o seu mundo desabar, mas ele entendeu que ter um filho na droga era um chamado do universo para que ele usasse os seus dons e talentos para ajudar não só o seu filho, mas também os filhos dos outros. Daí o presente e a oportunidade divina para a sua evolução pessoal. “Se eu não tivesse tido um filho na Droga não existiria a Comunidade Filhos da Luz, que hoje tem seis unidades totalmente filantrópicas – três em Carapicuíba, uma em Barueri, outra em Santana de Parnaíba e outra em São Roque”, explica.
Ronaldo nasceu, estudou e fez fortuna em Carapicuíba e por isso, ao resolver criar a Comunidade Terapêutica, escolheu que fosse nessa cidade, como uma prova de gratidão pela cidade.
A Comunidade Terapêutica Filhos da Luz é 100% limpa, ou seja, para entrar lá a pessoa só leva a roupa do corpo e lá dentro não poderá fumar, beber, usar drogas nem usar qualquer tipo de medicamento psiquiátrico. Há cada 45 dias os internos mudam de unidade pois em cada uma encontra atividades laborativas diferentes. “Os nossos filhos entram nessa vida porque não tem propósito de vida”, explica. “Então para recuperá-los é preciso mudar o seu modelo mental”, afirma. “Hoje a gente tem um modelo de trabalho que se a família fizer o que a gente fala tem 80% de chance de tirar o filho da droga”, garante. Na comunidade terapêuticas eles também aprendem a cozinhar, a lavar a louça que sujam, lavar suas roupas, a cuidar de suas coisas, entre outras atividades.

Cozinha em CT Filhos da Luz Carapicuíba

Mas voltando aos presentes divinos, Dr. Ronaldo lembra que o segundo presente foi um casamento difícil onde havia afeto, mas havia muitos problemas de comunicação, muito medo, muita culpa, muita vergonha, acusações e brigas. “Eu não entendia como duas pessoas instruídas, cultas, não conseguiam viver bem entre quatro paredes”, recorda-se. “Só depois da doença do filho e do fim do casamento, é que eu comecei a entender que o que destrói muitas vezes os casamentos e também alimenta o vício é o padrão de comunicação interno da família”.
Assim ele também descobriu porque os filhos usam drogas. Primeiro porque o uso da droga é gostoso e da muito prazer. Também para se enturmarem e parecerem com outras pessoas que eles admiram. Ou porque a droga alivia a dor que eles carregam dentro deles. E além de tudo isso, devido ao padrão de comunicação interno da família. “Se uma família quer ajudar a tirar o seu filho da droga ela tem de tomar duas atitudes: primeiro frequentar um grupo de auto-ajuda e segundo começar a mudar o jeito de falar com eles”, ensina.

Comunicação Clara e Sem Violência

Familiares aprendendo Comunicação Clara e Sem Violência em CT Filhos da Luz de São Roque.

Foi ainda no caminho de aprendizado para a recuperação de seu próprio filho que ele conheceu a Comunicação Não Violenta, também conhecida como CNV. Mas ele também percebeu que a CNV do jeito que é colocada nos livros é de difícil compreensão para as mães dos usuários de drogas, então, dentro da Comunidade Terapeutica, conversando com as mães aflitas, Dr. Ronaldo também desenvolveu o seu modelo de Comunicação Sem Violência, que ele chama de Comunicação Clara e sem Violência. “Nós percebemos que se nós queremos transformar este mundo em um lugar melhor, é muito importante reaprendermos a falar de modo a não gerar no outro sentimentos desagradáveis”, explica.

Escola da Paz

Lago em Terra da Luz, CT Filhos da Luz em São Roque, chácara doada por empresário que abraçou a causa.

Foi assim que surgiu a ideia de criar a Escola da Paz, que vai ensinar a família a falar com uma linguagem que ajuda na recuperação, não só do dependente químico, mas de pessoas com depressão ou tendências suicidas. “A ideia é ensinar os dependentes químicos a usar esta linguagem também”, conta Ronaldo. “Usar a Escola da Paz para criar propósitos de vida”, explica. Segundo o Dr. Ronaldo Campos, a Escola da Paz tem três eixos: ensinar comunicação clara e sem violência, desenvolver propósitos de vida e filosofia de comunidade terapêutica. Ou seja, ensinar os dependentes químicos a cuidar dos outros porque para estarmos bem nós precisamos cuidar de alguém e sentir que alguém cuida de nós.  “O dependente químico só se cura quando aprende a ser grato, ser menos egoísta e mais generoso com os outros”, diz.
Campos ainda lembra que as mães dos dependentes químicos adoecem justamente porque elas cuidam deles o tempo todo, mas não encontram quem cuide delas. “Os grupos de autoajuda existem para preencher isso. Normalmente a dependência química surge em lares aonde existem dois extremos: ou a falta de amor ou o excesso de amor”, explica. Ou existe falta de proteção, uma vulnerabilidade total, ou proteção excessiva que não deixa que os filhos sofram as consequências de suas escolhas.

Jardim na CT Filhos da Luz de Carapicuíba

A Escola da Paz, de acordo com o Dr. Ronaldo Campos já existe no dia a dia da Comunidade Filhos da Luz e nos grupos do Busque Ajuda de Cotia, Carapicuíba, Santana do Parnaíba, pois é preciso ajudar as famílias a mudar o jeito de falar com os filhos e isso é ensinado no grupo Busque Ajuda que os pais frequentam. “Você não recebe um filho aos gritos dizendo que ele é um vagabundo preguiçoso e que ele precisa ir trabalhar. Você diz ao seu filho que você se recusa a lhe dar dinheiro já que ele mesmo não tem escolhido trabalhar para sustentar suas despesas. Você diz que se recusa a conviver com drogas dentro de casa, pois isso vai contra os seus princípios. Que se recusa a buscá-lo embriagado na rua às duas horas da madrugada porque isso o deixa cansado no dia seguinte. Que se recusa a limpar o quarto dele se ele não cuida da manutenção da higiene no espaço em que dorme. Você dá direito a ele de fazer suas escolhas, mas deixa que ele sofra as consequências das mesmas”, ensina Ronaldo Campos.  “Eu me recuso é estratégia de comunicação da paz”, diz Campos. “Eu não digo que o que ele está fazendo é errado, eu só digo que eu me recuso a financiar aquilo que eu não aceito na minha vida”, ressalta.

CT Filhos da Luz em Carapicuíba

Segundo ele, a Escola da Paz trabalha a questão dos sentimentos, falar do meu sentimento não é sinal de fraqueza, é sinal de grandeza. “Na nossa sociedade, os empresários, por exemplo, pensam que não podem falar dos seus sentimentos, têm de ser fortes, corajosos, destemidos”, lembra. “Mas eles precisam saber chorar, saber sentir dor, se emocionar com a dor do outro e com a sua própria”, diz. Por isso pretende levar estes ensinamentos para empresas também, para escolas, universidades e comunidades em geral.
Assim, a ideia da CT Filhos da Luz hoje é formar pessoas para ensinar a Comunicação Clara e Sem Violência nas empresas e escolas e que as empresas e escolas que receberem essas palestras e cursos contribuam com a Comunidade Terapêutica por esse trabalho para que ela possa sobreviver. “Queremos colocar os dependentes químicos recuperados para fazer este trabalho e que eles também sejam remunerados por este trabalho, pois eles também precisam sobreviver quando saem daqui”, explica o doutor.
Campos diz que para o seu projeto de Escolas da Paz, espera ter adesão das famílias e das empresas, de pessoas que sonham com um mundo melhor e que queiram deixar um legado para o futuro. “Ao cuidar do filho dos outros, ao criar novas Comunidades Terapêuticas, ao botar o meu dinheiro neste projeto, o maior beneficiado sou eu porque acredito que estou reparando erros do passado e me tornando uma pessoa melhor”, afirma. “A melhor forma de tirar um filho da droga é sendo generoso com o filhos dos outros”, acrescenta Campos. “Quando a família melhora o filho melhora”, afirma com experiência própria.

Dicas de Comunicação Clara e Sem Violência

– Aprenda a escutar o outro
– Aprenda a falar sem provocar desconforto ao outro
– Acolha as críticas que fizerem a você dizendo que talvez o crítico tenha razão
– Não ofenda, gritando e xingando
– Violência na comunicação não é só gritar e xingar
– Algumas pessoas são mais sensíveis às palavras
– Evite provocar no outro sentimentos de medo, vergonha, culpa e violência
– As palavras têm o poder de curar e de ferir
– 80% da comunicação humana se dá por gestos e olhares
– Uma família onde há mágoa está doente
– Uma família onde não há perdão está doente
– Uma família sem amor ao próximo está doente
– Nunca comece uma conversa dizendo que o outro está errado.
– Diga apenas que você não se sente confortável com a opinião do outro.
– Pergunte ao outro o que você pode fazer para deixar seu dia no mínimo maravilhoso.
– Substitua o idioma do Eu com Você (Guerra) pelo idioma do Eu com Eu (Paz)
– Fale primeiro dos fatos, depois dos sentimentos que aquilo me gerou, digo qual foi a minha necessidade que não foi atendida, faço um pedido e termino perguntado o que o outro acha disso. Ex: Roberto, acabei de sair do seu quarto e vi que as suas meias estão jogadas na cama, sua blusa está no chão e seu material escolar ficou no corredor (fato). Eu estou indignada com tudo isso (sentimento), pois eu necessito de uma casa organizada (necessidade) e já lhe expliquei as regras da casa na semana passada. Sendo assim eu te peço para guardar tudo nos lugares corretos até a hora do almoço (pedido). O que você acha disso (opinião). Você deu bronca, mostrou que ele estava errado, mas de forma educada.

Serviço:

Grupo de Apoio Busque Ajuda – CAPS AD Cotia
Rua Adolfo Eugênio Barsotine, 140, Vl. Santo Antônio, Cotia, SP.
Reuniões para familiares de dependentes químicos, às quartas-feiras, das 9h30 às 11hs.
Informações pelo Whatsapp: (11) 94768-6107

Grupo Busque Ajuda – CT Filhos da Luz
Av. Rui Barbosa, 3241, Vila Santa Terezinha, Carapicuiba, SP.
Reuniões às quartas-feiras, 19h30.
Mais informações em: https://www.youtube.com/watch?v=ul1v6Zkv700

Comunidade Terapêutica Filhos da Luz
https://filhosdaluz.org/
https://www.facebook.com/pages/Comunidade-Terap%C3%AAutica-Filhos-Da-Luz/1617917878538372
Av. Rui Barbosa, 3243 – Centro, Carapicuíba
Tel. (11) 4181-2089

https://www.youtube.com/watch?time_continue=168&v=1Mw5euamQVg&feature=emb_logo

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