Quem vê o Paulo Roberto Moreira servindo mesas no Granjota não imagina sua história de superação. Nasceu com hidrocefalia e passou seus primeiros três anos de vida, entre 1985 e 1988, internado. Chegou a ser desenganado: os médicos disseram para sua mãe que, se sobrevivesse, ficaria em estado vegetativo. Passou por cirurgias para retirada de líquido da espinha e, contrariando as previsões, deu seus primeiros passos aos 5 anos de idade. “Meus pais dizem que sou um guerreiro por tão pequeno ter passado por tudo isso. Mas eu superei”, conta.
Incentivado por um professor, descobriu a corrida e os muitos benefícios que poderia trazer para a sua saúde. Tinha apenas 8 anos. Não parou mais. Aquilo era o impulso que precisava. “O esporte só me trouxe vitórias. Foi uma segunda chance que Deus me deu”, comemora. Hoje, Paulo vive sem sequelas, é casado e tem 2 filhos, um garotinho de sete anos e uma menininha de cinco. Já pensou em fazer da corrida uma profissão e, aliás, foi esse sonho que o trouxe para cá. Natural de Campos Sales, no interior do Ceará, ele se mudou para São Paulo em 2019. “Vim tentar a oportunidade de crescer profissionalmente como corredor. Mas sem patrocínio, é difícil. Tenho que trabalhar e treinar para participar das competições”, lamenta.
Inspirado pelo maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, participou de três maratonas de São Paulo e cinco corridas São Silvestre. No futuro, pretende correr a Maratona de Nova Iorque.

Como conseguir uma verdadeira transformação social em meio a tanta desigualdade? Uma das respostas está na promoção do esporte e muitas ONGs vêm se dedicando a isso no Brasil inteiro, inclusive por aqui. “Uma aluna tinha muita dificuldade de aprendizagem. Não lembrava os movimentos, era tímida e insegura. Mas insisti nos ensinamentos e hoje é gratificante ver o quanto ela se superou neste período, fazendo os kata (sequência de movimentos do karatê) que tinha dificuldade em executar. Atualmente, é mais desinibida e tem até um canal em que conta as histórias do dia a dia”, conta, orgulhoso e com um sorriso no rosto, o educador físico e sensei filiado à Muguen Kan, Marcio Medina, criador do projeto Karatê Solidário, destinado a crianças carentes. Assim como a história dessa garotinha, muitas outras vidas foram e estão sendo modificadas pelo esporte, até a do próprio Medina.
Nascido em Salinas (MG) e criado em Cotia, começou a trabalhar bem novinho, aos oito anos, vendendo coxinhas que uma vizinha fazia. Dos salgados, partiu para a venda de sorvetes, depois de plantas… e, assim, foi percorrendo os vários comércios da cidade. “Mas nunca deixei de estudar”, faz questão de frisar. Aliás, esta é uma das cobranças que faz aos seus alunos: estudo e boas notas. Ele trabalhava de manhã, estudava à tarde e, à noite, treinava artes marciais. O esporte chegou até ele pela tela de uma televisão, através dos filmes do Bruce Lee. Queria lutar judô, mas escolheu o “dia errado” para visitar uma academia que ficava no centro de Cotia, a do sensei Paulo Kohara. A aula era de karatê, ministrada por outro sensei, o Paulo Nascimento. Apaixonou-se. Com o dinheiro que ganhava nas manhãs, pagava as aulas da noite. Com isso, vieram outros ensinamentos. “Karatê me ensinou a ser o que eu sou hoje: uma pessoa simples, bem relacionada, de boa conduta e responsável. Mas, sobretudo, a ser alguém que faz diferença na sociedade. A dificuldade que eu tive lá no começo se transformou no desejo de ajudar outras crianças. Ensino o karatê e tiro os jovens da rua e da ociosidade, desviando a mente deles para o bem. É isso que o esporte me ensinou: fazer o bem. Ser um cidadão útil para a sociedade”, resume o atleta que segue seus treinos, atualmente, com o sensei Gilson Nunes.
Já deu aulas sob o sol quente e debaixo de chuva, em uma garagem alugada. Mas, graças à solidariedade de um amigo, ganhou espaço para treinar em uma academia. Já teve muitos alunos, chegou a 100, mas hoje mantém apenas 10. “São crianças que eu quero carregar comigo até a fase adulta, transformando-as em cidadãos do bem e de boa conduta”, ressalta. Diz que é possível educar através deste esporte – e ele, inclusive, fez o trabalho de conclusão do curso em Educação Física baseado neste tema. Não ensina força bruta ou violência, tampouco foca em conquistas – e olha que Medina tem mais de 70 medalhas! Trabalha o aspecto eu. Mente sadia e corpo forte, mas, acima de tudo, autoconfiança, poder de concentração, autoestima, cooperação, responsabilidade e respeito.
Ver essa foto no Instagram
Gustavo Coelho é daqueles que vai logo avisando: “Sou um cara como qualquer outro, que, mesmo com as dificuldades que a doença impõe, vive a vida de maneira normal”. Ao longo de 23 anos de vida e sendo, em quase 13, transplantado – sim, Gustavo fez transplante de pulmão em julho de 2009, quando tinha apenas 11 anos! -, ele aprendeu o verdadeiro sentido da palavra superação. Portador de fibrose cística – uma doença genética crônica que afeta principalmente os pulmões, pâncreas e o sistema digestivo -, cresceu rodeado de cuidados e limitações. “Antes do transplante, eu não tinha condições respiratórias. Então, não podia praticar esporte. Muitas vezes, tinha que ficar de fora da minha aula preferida, Educação Física, só observando os outros alunos praticando”, lembra. Amava, ou melhor, ama futebol e este era o seu impulso. “Quando não podia correr ou fazer outras coisas, assistia às partidas e sonhava com aquilo. Uma de minhas maiores motivações era jogar bola e isso me ajudou bastante a sonhar, querer e buscar, superando os meus próprios limites”, conta o jovem. Antes mesmo do transplante, chegou a bater uma bolinha. Ele com ele mesmo, sentado no quintal de casa e um balão de oxigênio ao lado. “Foi a maneira que encontrei de poder fazer aquilo que sempre amei, mas de maneira restrita”, revela. Com o transplante, a realização: começou a jogar futebol em escolinhas e, hoje, bate uma pelada com os amigos aos finais de semana. Não pode realizar o sonho de jogar profissionalmente, mas nem se importa mais com isso! “Se não posso ser jogador, serei treinador. Quero viver isso! Faço Educação Física e estou a um passo de concluir a faculdade. Pretendo fazer um curso na CBF e comandar uma equipe profissionalmente, vivenciar esse ambiente e, claro, ser campeão”, diz. Campeão, ele já é. Em superação e inspiração. “Minha mensagem para as pessoas é que elas continuem acreditando na vida, no lado bom dela, creiam que é possível, que tenham fé, esperança e, principalmente, força de vontade. Tudo é possível. Mesmo passando por dificuldades, transforme isso em motivação para tornar seus sonhos realidade. Não importa que um dia falem que não dá, que você não pode ou não consegue. Busque acreditar que é possível, porque realmente é”, ensina. E foi o esporte que o ajudou nesta caminhada de evolução.

Além do lazer, a prática esportiva traz em sua essência uma lição de empatia, de organização, de disciplina, de superação dos medos e, em alguns casos, é fator determinante para o início de uma nova vida. Marcelo de Jesus Santos que o diga! Conhecido no jiu-jitsu como Marcelo Baiano, foi o esporte que promoveu, digamos, seu recomeço. “Quando minha família veio da Bahia para cá, a gente não tinha muita estrutura. Comecei a trabalhar cedo. Então, quando o jiu-jitsu entrou na minha vida, através de um amigo, tive que me desdobrar. Não podia me envolver com bebidas ou drogas. Era um esporte caro e eu não tinha condições. Tomava conta de carro para pagar inscrição em campeonato. Andava a pé pela cidade toda para economizar dinheiro de passagem”, relembra. Até que chegou um dia em que desistiu: resolveu parar de treinar e prover, com um “emprego mais tradicional”, o sustento da família que havia formado. Foi trabalhar como segurança. Porém, quando está escrito nas estrelas, não há como mudar o destino, não é mesmo?
“Minha história no jiu-jitsu é até engraçada. Eu mesmo não acreditava, sabe? Tinha parado de dar aulas para trabalhar, até que dois ex-alunos me procuraram para eu retomar o treino deles. Não queria, não estava mais empolgado com isso. Mas me convenceram. Colocamos umas placas de tatame na garagem de um deles e comecei a dar as aulas nos dias em que estava de folga”, conta. E não é que esses dois alunos conseguiram títulos em campeonatos paulistas? Não tinha volta mais! “Isso me motivou e resolvi voltar a dar aula. De dois alunos, consegui colocar mais de 40 no tatame. Abri um espaço pequeno, de 3 por 13. Começou a aumentar, fui para um local de 15 por 6. Aumentei depois para quase 200 metros de tatame e, hoje, estou num espaço bacana, próximo ao centro de Cotia. Somos a maior equipe de competição da cidade”, comemora. Ele, que pensou em abandonar a carreira como atleta para prover o sustento da família, hoje vive do esporte. Conquistou títulos nacionais e internacionais e, só no ano passado, venceu 13 dos 17 campeonatos que participou. “Mas minha maior conquista é ter minha família, formada por esposa, duas filhas e genro, treinando comigo. Isso é melhor do que qualquer medalha”, comemora. Como forma de retribuição a tudo o que o esporte lhe proporcionou, Baiano procura ajudar as pessoas. Se o atleta não tem kimono, ele dá. E por aí vai. “O esporte me ensinou que eu devo ajudar e respeitar o próximo. Não só no tatame, mas no dia a dia”, finaliza.

Por Juliana Martins Machado












