O que esperar da volta às aulas no segundo semestre? Pais, mães, educadores e estudantes se fazem muitas perguntas neste momento de reencontros. Conversamos com a educadora Terezinha Fogaça de Almeida, fundadora da Escola Ágora.

Ela defende que a escola do futuro, no tempo certo, é presencial e que favorecer os encontros e os reencontros presenciais é a grande tarefa da escola no cenário pós-pandemia. Leia a entrevista completa!

 

Educadora Terezinha Fogaça de Almeida

Qual papel emerge para as escolas da maior crise do nosso tempo?
O papel de garantir o espaço para o encontro humano e todos os seus desdobramentos. A escola, de maneira geral, deve ser uma instituição que se preocupa em tentar compreender o momento, suas tendências e consequências. Porque ela tem o dever de oferecer à sociedade aquilo que considera faltar ao mundo e que, mais ainda, pressente que faltará no futuro. “Fazer escola” significa procurar o rompimento de padrões, a mudança do que está estabelecido. E nunca ficou tão evidente que para além do que há nos livros, a base que nos faz entender, absorver e aplicar o que absorvemos nesses livros é tudo aquilo que há em volta deles. Ou seja, os encontros. A vida física. O papel da escola segue sendo o de formar crianças que sabem somar, multiplicar, dividir, ler e escrever. Mas agora é incontornável adicionar valores muito definidos, para tornar esses jovens cidadãos e adultos comprometidos com a sociedade, com o coletivo e com a natureza.

E o futuro da escola?
A escola que reabrirá para a vida presencial é uma escola que olha para cada um e entende que o todo é feito pela soma desses “cada uns”. Valores como solidariedade, respeito ao outro e empatia passam a fazer parte da grade escolar da forma mais potente que existe: como um processo de mediar os encontros e os reencontros diários que as crianças terão não só com o conteúdo dos livros, mas com os colegas, com os professores, funcionários, pais… com o mundo.

Como é ou deveria ser a escola que nasce no pós-pandemia?
Numa parte mais prática, já dá para dizer que a escola tradicional, do jeito que se conhecia até a pandemia – fechada, lotada de pessoas circulando em ambientes onde o ar é condicionado, acabou. Ao menos, ela tornou-se inadequada.

Então, a escola do futuro, no tempo certo, é presencial?
É, preferencialmente. As experiências com o ensino à distância foram importantes e não podem ser esquecidas. Mas a essência é um entendimento mais forte de que o papel da escola é o de proporcionar e preparar as crianças para os encontros: seja com os outros, seja consigo mesmas, seja com o mundo.

Um artigo seu, publicado recentemente no portal Papo de Mãe, apresenta perguntas interessantes: “Muitas vezes nos perguntamos nos últimos meses – e vamos seguir perguntando por algum tempo – a solução é repensar a escola como um espaço que vá além do espaço físico? É investir no ensino à distância? É aceitar o que a pandemia (esta e, esperamos que não, uma próxima) nos impôs num primeiro momento?”. Quais são as respostas?
Em primeiro lugar, se a escola é espaço que vai além dos limites físicos, como você indaga (e emenda com um questionamento sobre o ensino à distância), então, temos aí uma tarefa para o Estado: garantir ensino à distância para todos – o que, nesta pandemia, efetivamente, não ocorreu. Em seguida, você fala em aceitar o que a pandemia nos impôs. Bem, nós, que pertencemos à classe média que frequenta a escola privada, nos submetemos a uma catatonia e a uma impotência que o espanto de uma situação inédita nos causou… Naquele momento, era difícil imaginar como seria a nossa reação. Agora, não é mais. Acho complicado prever respostas definitivas, até porque a ideia do ensino é acumulativa. O aprendizado nasce também do erro. Mas já sabemos que o presencial é fundamental.

O que pensa desta frase: “Educar é uma tarefa complexa e que requer não somente competência, mas também dedicação dos seus construtores”.
Mais do que dedicação, acho que educar requer abertura, curiosidade, disponibilidade, ousadia e muita resistência.

Com a pandemia, descobrimos de fato que vivemos em um mundo que se transforma a cada dia e o grande desafio é planejar uma educação capaz de preparar educando e educador para essas transformações. De que modo?
Não pelos meios utilizados até o momento pela escola tradicional: memorização, reprodução e checagem de conteúdos cristalizados: “Cite três rios afluentes do Amazonas”, por exemplo. Diante de uma resposta correta, tal como: “Madeira, Xingu e Purus”, o que se faz? O que um professor e um aluno fazem a partir desse tipo de informação é o que nos leva a caminhos muito mais interessantes. Ou seja, uma ideia mais ampla de que o mundo é feito de uma multidão de pequenas complexidades. A busca do educador é ensinar e também aprender quais são as ferramentas particulares que cada aluno precisa para se encontrar no mundo e para encontrar seu mundo.

Em 2019, abordamos a tecnologia na educação. Naquela época, pontuamos que enquanto as escolas mundo afora introduzem a tecnologia no processo educativo, no epicentro da revolução digital das últimas décadas, no Vale do Silício, Estados Unidos, grandes nomes da tecnologia preferem que seus filhos, sobretudo os menores, estudem em escolas que praticamente proíbem o uso de telas no processo de aprendizagem. Parece um paradoxo, não? Mas eles estavam certos, na sua visão?
Certíssimos! Deixei de receber muitos alunos novos quando o computador foi introduzido na escola aqui no Brasil, porque fui contra essa ação educacional. Escola é lugar de construir – construir-se pessoa, construir-se cidadão, tornar-se ser pensante, disciplinado intelectualmente, alguém ativo e permanentemente aberto ao debate, à discussão, à reflexão, à mudança de opinião, à reconstrução de suas crenças e convicções, posturas e atitudes que prescindem de computador.

Como dosar essa tecnologia agora?
Buscando função para a tecnologia na construção do conhecimento e, fundamentalmente, a percepção de que ela pode ser uma das ferramentas na composição do material de estudo.

O que esperar da volta às aulas neste segundo semestre?
Garantir, inicialmente, o espaço para o encontro humano – o olho no olho, o momento de fala de cada um, o entendimento (ou reafirmação) de que todos precisam discutir a pandemia, acomodá-la dentro de si mesmos, para, então, retomar seu trabalho intelectual.

Como será para as crianças?
Com certeza, um marco importante – desafios a serem superados, emoções a serem vividas e redimensionadas no espaço escolar, mas, principalmente, uma celebração da vida. Não podemos ignorar, nem minimizar esse acontecimento.

Por Juliana Martins Machado

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