Acho que se Calcutá tivesse tido a minha primeira experiência na Índia nunca mais teria voltado.

Mas esta foi nossa quarta viagem à este país e isto, por si só, já fala da nossa paixão pelo lugar.

Mesmo sabendo que a região não tinha muitos atrativos turísticos, e, achando que dificilmente iríamos para aqueles lados numa outra ocasião, e ainda, por uma questão de conveniência numa oferta de passagem, resolvemos arriscar Calcutá.

É a cidade de maior densidade demográfica da Índia. Desde uma imigração em massa que ocorreu nos idos de 1970 devido a uma guerra entre a Índia e Paquistão do Leste que resultou na criação de Bangladesh.

A cidade nunca conseguiu absorver este afluxo e até hoje o número de pessoas que vive na rua é astronômico.

Como consequência a cidade é absurdamente caótica, suja, degradada, pobre, enfim, tudo que a nossa imaginação pode alcançar em termos estereótipo indiano.

Já sabendo um pouco disto programei a viagem ficando somente um dia em Calcutá.

Visitamos a casa da Madre Tereza, monumento Victoria, um belíssimo templo jainista e o impressionante Ghat ao lado da Howrah Bridge e mercado de flores.

Ghat, quer dizer escadaria, e estão presentes em todas cidades da Índia. Ou como acesso a um tanque para banho e lavagem de roupas, ou como acesso a rios sagrados para banhos de purificação.

São sempre muito movimentados, e frequentemente sujos.

O exercício do olhar é constante, no sentido de captar o belo e interessante em meio ao caos e a sujeira.

Fiz questão de visitar o tradicional bairro de Kumartuli.

Um bairro totalmente dedicado a construção de imagens religiosas em barro, e que fica especialmente movimentado no período que antecede a festa Durga Puja dedicada a deusa Kali.

Uma deusa pintada de azul com uma cara muito feia e assustadora.

Mas ela simboliza a força feminina e da mãe na proteção de sua prole.

Nos outros dias iríamos para Sundarban, na fronteira com Bangladesh, que é o maior parque nacional de mangue do mundo e lar do quase extinto tigre de bengala.

Acontece que justamente nestes dias ocorreu a chegada de um ciclone, provocando o fechamento do parque.

A nossa agencia, sugeriu então, um passeio alternativo para o norte do estado, que num primeiro momento, não pareceu muito legal, mas como não tínhamos muita opção aceitamos.

E acabou que foi um passeio maravilhoso!

O destino foi Shantiniketan, um local de turismo interno, uma vez que foi lá onde o primeiro prêmio Nobel indiano, o poeta Rabindranath Tagore fundou uma universidade com um sistema de ensino bastante inovador.

Devido às chuvas intensas, relacionadas ao ciclone, algumas pontes foram destruídas e acabou que tivemos que fazer vários desvios no caminho até atingir a cidade de Shantiniketan.

O percurso se estendeu bastante e passamos por vários vilarejos, tendo tido uma grande oportunidade de observar a vida local.

Esta região é altamente produtora de arroz. Então eram campos e mais campos de arroz intercalados por pequenas vilas e inúmeros tanques/lagoas de agua, que acredito eu, servem também para irrigação dos arrozais.

Sair das grandes cidades em qualquer país é sempre uma excelente opção e neste caso deu uma outra dimensão desta região da Índia…Menos suja e mais tranquila.

Ficamos hospedados num tipo de chácara que o proprietário transformou numa pousada. Esta por sua vez, estava adjacente a um vilarejo tribal da etnia Santal.

As mulheres eram todas tatuadas e a arquitetura das casas da vila ao redor eram singulares e tinham características determinadas de acordo com as crenças locais.

Por exemplo, junto ao beiral do telhado, são fixados potes de barro ou mesmo de lata para estimular a feitura de ninhos pelos pássaros, que segundo a tradição traz boa sorte.

A vida na vila segue tranquilamente com mulheres se banhando/lavando roupas nas lagoas, pondo grãos de arroz para secar ao sol e lidando com a casa e as crianças.

Homens amassando esterco de vaca e formando como pequenas “panquecas”. Grudam então esta panquecas nas arvores e paredes de fora das casas para secar. Posteriormente vão servir de combustível para o fogão a lenha.

Lidavam também com hortas, cabras e outros animais e na coleta de lenha para o fogão.

Na época de plantio e colheita de arroz trabalham para as empresas produtoras.

De Calcutá seguimos para o Sri Lanka. No retorno para o Brasil paramos em Mumbai.

Eu tinha um desejo enorme de conhecer as famosas cavernas de Ajanta e Ellora, no estado de Maharastra.

Fomos de trem a partir de Mumbai numa viagem de 7 horas.

Visitamos inicialmente Ellora que tem 36 cavernas Hinduístas, Jainistas e Budistas. E o maior templo do mundo construído em monobloco de pedra.

Construídas no período de 400 D.C a 1000 D.C., a característica principal deste conjunto são as minuciosas esculturas em pedra, diferente do conjunto de Ajanta que se destaca pelas pinturas murais.

Ajanta está disposta num formato de ferradura que acompanha a curva do rio formando um conjunto estupendo.

As cavernas se dividem entre templos e mosteiros budistas construídos desde o sec II A.C. até sec III D.C. Abrigavam monges e peregrinos que visitavam o local.

Visitamos estas cavernas no domingo, então estavam lotadas de turismo local.

Não sei se pela minha altura, meus cabelos brancos, meu chapéu todo charmoso, ou minha sombrinha rosa-choque; mas a verdade é que era parada a cada poucos passos, com pedidos para fotografarem junto comigo.

Houve um momento que havia ao meu redor, em torno de 50 pessoas me assediando para fotos. Meu marido (neste momento guarda-costas) teve que forçar a nossa passagem, caso contrário não sairíamos mais de lá.

Foi uma das coisas mais engraçadas que já vivi na vida. Me senti como uma artista de Hollywood, ou melhor Bollywood!!!

Mumbai visitamos já nos últimos dois dias de viagem. E foi uma pena, pois estava exausta, e com uma gripe se aproximando.

A cidade é moderna, vibrante e intensa. Merece mais tempo lá.

Demos uma rodada de carro visitando os pontos turísticos principais.

A maior lavanderia do mundo que absorve 6000 empregados. São trabalhadores que veem de diversas regiões da Índia, moram no local mesmo e trabalham dentro de tanques lotados de produto químico dia após dia.

Outro passeio interessante é ir ao ponto de encontro dos Dabbawalla.

É um serviço de entrega de comida desde a casa do indivíduo até seu local de trabalho. Este serviço entrega 180 000 “lunch box” por dia num intrincado sistema logístico, que segundo um estudo de Harvard tem uma falha a cada 6 000 000 de entregas. O translado da comida é feito em trens, bicicletas e a pé. A comida é entregue pontualmente e a embalagem é retornada para a casa do trabalhador no mesmo dia.

Mas não deu para caminhar por lugares muito interessantes, como a Marina Drive, que é uma região de alto poder aquisitivo ao longo da costa, com construções “art déco” que lembram Miami. Estava realmente no meu limite de cançasso.

Ou mesmo Malabar Hills, um bairro residencial com várias atrações.

Mas a que chama mais atenção é a “The House”. Residência do maior milionário da Ásia, dono da Reliance.

Uma construção icônica de 27 andares, com quadras de tênis, teatro, piscinas etc e com 600 empregados para servir somente 5 pessoas.

Há poucos quarteirões da residência enormes favelas com indivíduos vivendo na miséria absoluta.

Mas estes são os contrastes da Índia…


Debora Patlajan Marcolin, médica, 62 anos, muito curiosa com relação a diversidade cultural do nosso planeta. Viajo desde que me conheço por gente e tudo me atrai. Desde a minha vizinhança pobre de Carapicuiba até as cerimonias fúnebres de Tana Toraja na Indonésia, passando por paraísos naturais como o pantanal mato-grossense e deserto do Jalapão. Já conheci por volta de 75 países e não paro de projetar novos destinos. Entendo que para se viajar é preciso estar de peito aberto e abandonar todo tipo de preconcepção, que com certeza, a viagem vai te provocar profundas mudanças internas e gosto pela vida. Autora do blog A Minha Viagem.