Mobilidade

Marcos Sá escreve sobre a histeria coletiva que contaminou todos os que se locomovem nas cidades.

Alô, prefeituras, Denatran, Dersa, DSV, CET, PR, Ministério Público, sei lá quem, socorro!  Alguma coisa precisa ser feita com as empresas de delivery que pagam extras aos seus entregadores, fazendo-os correr contra o relógio. A PMSP tentou um acordo com as principais, propondo a suspensão desses extras em troca de alguns benefícios, mas as maiores empresas recusaram. O nível de agressividade, desrespeito às leis de trânsito e imprudência dos entregadores beiram a insanidade, sem contar o altíssimo índice de acidentes e mortes em que se envolvem. Seja de bike, patinete ou moto, sempre com a caixa/mochila nas costas, e com o nome da empresa estampado, circulam feito kamikazes pelas ruas, pondo em risco suas vidas, a de terceiros e a reputação das empresas que trabalham. O pisca-pisca ou a sinalização com o braço de quem quer mudar de faixa ou fazer uma conversão passou a ser solenemente ignorado pelos motociclistas que agem como se a pista fosse exclusividade deles, passam buzinando irritantemente e ainda com o dedo médio em riste. Rappi, Uber Eats, ifood, Loggi, Glovo, 99Motos, entre outras, quem sair na frente com uma campanha, dando aos seus entregadores orientações de segurança, medidas educativas e de respeito às regras de trânsito, vai ganhar a simpatia do consumidor, reduzir o nível de estresse da cidade, minimizar os acidentes e, principalmente, poupar vidas. Se o pedido demorar 5 minutos a mais pra chegar e sem que o entregador corra riscos nem ponha a vida de terceiros em risco, ninguém vai reclamar, bingo! Mas a coisa não para por aí. A histeria coletiva contaminou todos os que se locomovem nas cidades. Pela ordem, o pedestre é o que tem a prioridade e deve ser sempre respeitado pelos demais: pedestres, ciclistas, patinetes, motos, carros, pick-ups, ônibus e caminhões. A cadeia de mobilidade tem mais ou menos essa lógica de respeito. Os mais frágeis devem ter prioridades sobre os mais fortes. Mas o que vemos é uma selvageria total. Ninguém respeita ninguém. Ciclistas andando nas calçadas não respeitando os pedestres, que também não obedecem ao trânsito, atravessando fora das faixas de travessia e com celular no ouvido, motos ultrapassando em alta velocidade pela direita e esquerda, em um comboio assustador, automóveis acima da velocidade permitida intimidando quem respeita os limites de velocidade, e por aí vai. Fiscalização zero. Jamais se vê um fiscal de trânsito a postos para repreender os infratores nos locais de risco. Polícia rodoviária inexiste. Nunca se vê os postos da PR, abertos, sempre estão às moscas nas estradas. Mas na calada da curva, sob uma sombra ou atrás de um arbusto, sempre há um ardiloso e camuflado guarda espreitando sorrateira e confortavelmente o menor deslize dos motoristas nos locais onde não há normalmente risco nenhum e nem necessidade de policiamento, mas fica fácil multar. Todos devem respeitar as leis de trânsito, mas quando absurdos são praticados e ignorados pelo policiamento, vem aquela sensação de impunidade que o STF implantou no país. Na Granja Viana, os problemas de sempre persistem. Como sempre, o poder público se omite das interferências necessárias. O famoso e desnecessário “PARE” na avenida São Camilo que causa congestionamentos monstros, a rotatória improvisada com motoristas que ainda não aprenderam a conviver civilizadamente com “a preferência é de quem vem da esquerda e deve-se dar passagem para que um veículo de cada vez acesse a rotatória, aliviando o fluxo sem bloquear o caminho”. Paciência, respeito e educação, os mesmos princípios que usamos nas nossas vidas devem ser aplicados quando estamos dirigindo sobre rodas.

 


Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas

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