Em dias de muita repercussão envolvendo as eleições nos EUA, entre o candidato republicano e o democrata, discussões mais próximas da realidade dos brasileiros também voltam à tona por aqui. Um problema que já é bem antigo, mas continua sendo um desafio para muitas pessoas é a desigualdade de gênero na política.

No Circuito Almanaque desta semana, programa exibido pelo Facebook e pelo YouTube, conversamos com Beatriz Rodrigues Sanches, que é cientista política, doutoranda e mestra em filosofia e ciências humanas pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora do grupo de estudos de gênero e política da USP e do núcleo de democracia e ação coletiva do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP). De acordo com a especialista, a construção social dos papeis de gênero é um fator que causa essa desigualdade. Quando ainda nos dias de hoje existem pessoas com o pensamento de que a mulher deve ficar mais com os trabalhos domésticos, por exemplo, e esse tipo intolerância torna ainda mais difícil a sua participação ativa na sociedade da qual faz parte, e ainda mais na política.

Brasil é o 132º no ranking de mulheres nos parlamentos

“Nós, mulheres, somos sub-representadas na política em todos os âmbitos possíveis, seja em nível federal, em nível estadual ou municipal. Atualmente o Brasil ocupa a centésima trigésima segunda colocação no ranking de mulheres nos parlamentos. Então a gente está atrás até de países do oriente médio que são considerados violentos para as mulheres. Na América Latina, por exemplo, só o Haiti tem menos mulheres no parlamento do que o Brasil. Então, na situação internacional, a gente está muito mal colocada”, comentou.

Em países com a porcentagem de participação das mulheres mais equilibrada, usa-se o sistema eleitoral da lista fechada, em que o eleitor vota na lista do partido e não no candidato individualmente. Dessa forma, as listas são elaboradas com maior igualdade garantia da participação das mulheres nos parlamentos. Analisando situações reais nos dias de hoje que influenciam a desigualdade de gênero na política, Beatriz Sanchez identifica alguns fatores institucionais e culturais brasileiros como responsáveis por haver poucas mulheres na política do país.

“Existem muitas barreiras para a participação política das mulheres, algumas delas são barreiras estruturais, institucionais e outras delas são barreiras culturais da sociedade. Então se a gente for pensar em termos institucionais e estruturais a gente pode destacar a questão de financiamento de campanhas. As mulheres hoje ainda recebem muito menos dinheiro para fazer suas campanhas do que os candidatos homens e isso gera uma desigualdade no momento das eleições que é considerável. Além disso, tem uma questão que é relacionada ao nosso sistema eleitoral, a gente atualmente adota um sistema de lista aberta que significa que os candidatos competem entre si dentro dos partidos políticos”, explicou.

Mas é possível que as barreiras estruturais e institucionais presentes nos dias de hoje sejam efeito da questão cultural envolvendo a participação efetiva da mulher nos espaços públicos. De acordo com a cientista política, práticas machistas na própria segmentação da hierarquia dentro dos partidos dá mais autoridade aos homens.

Em reportagens que acompanhavam as últimas eleições, houve até mesmo a revelação de partidos que lançaram “candidatas laranjas” apenas para cumprir cotas, mas no fim das contas desviavam os recursos para candidatos homens. “Uma outra questão tem relação com o próprio machismo institucional dos partidos políticos, que são comandados por homens, nos cargos de direção agente tem majoritariamente homens, então um outro debate fundamental para a gente fazer é não só de cotas para as mulheres nas candidaturas, mas cotas também para as mulheres dentro dos cargos de liderança dos partidos políticos para que as mulheres possam decidir para aonde serão destinados os recursos dos partidos”, completou.

Cotia: cidade com muitas candidatas a vice-prefeita

Em nível Brasil, são 557.379 candidatos. E 33,6% são mulheres: 187.017.

Cotia tem 372 candidatos, sendo 252 homens e 120 mulheres. E o que chama atenção é quantidade de candidatas à vice-prefeita: dos sete candidatos, metade é composto por mulheres.

 

Muitas dúvidas e poucas respostas

Mas até aonde vão as desigualdades de gênero dentro e fora dos partidos políticos para as mulheres nas eleições desse ano? É um problema nacional, ou podemos ver isso em nosso município? Já se perguntou que atitudes você poderia tomar nas próximas semanas para votar em quem acredita ser o melhor para seu município sem deixar as mulheres de lado? É claro que são muitas questões que tornam esse problema ainda tão comum nos dias de hoje e não é só questão sair votando em mulheres ao invés de homens. Há outras práticas que podem fazer a diferença contra essa e outras injustiças. Para entender melhor sobre o espaço da mulher nas eleições e quais as dicas e explicações da cientista política Beatriz Sanchez sobre esse assunto, confira a entrevista completa feita pelo jornalista Fábio Sanchez.

 

 

Por Eric Ribeiro

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