Del Rangel mudou. Ele não é mais aquele que conheci há 11 anos, durante o Festival de Cinema do Recife. Na ocasião, ele apresentou seu filme Os Cristais debaixo do Trono, ao lado da então poderosa e protagonista da trama, Ana Paula Arósio. Na época, ele quase não falava com a imprensa, e seu filme não foi bem recebido no festival. Passados 11 anos, ele está mais “aberto”, cativante e muito receptivo. Atualmente na direção-geral do núcleo de novelas do SBT, onde trabalha há três anos, pela terceira vez, diga-se, Del não entra em detalhes quando o assunto é seu desafeto Tiago Santiago, autor da novela que está no ar no momento, e solta: “Esquece Amor e Revolução, sobre este assunto eu não vou falar nada” e prossegue “estou em um momento muito político no SBT”. Del já passou praticamente por todos os canais televisivos brasileiros, como Globo, Record, a extinta Manchete, Bandeirantes, SBT. Em todas essas emissoras ele foi e voltou. Mora na Granja Viana há 14 anos, é casado com a banqueteira Fernanda Villaboim, com quem tem os filhos Lucas, 11 anos, e Julia, 8 anos. Del recebeu a REVISTA CIRCUITO em dois momentos: em sua casa e no SBT, onde ele ciceroneou nossa equipe pelos corredores do complexo televisivo. É um pouco deste jovem senhor de 55 anos que os leitores irão conhecer.

Você começou no cinema com o filme O Trapalhão na Arca de Noé, em 1983. E logo na sequência passou para a TV. Como foi essa mudança?
Foi por acaso. Morava com meu tio Renato Aragão (líder de Os Trapalhões) no Rio de Janeiro. Tinha vindo do Ceará para estudar Engenharia Naval. Já estava na Escola Naval, quando meu tio me chamou para ajudá-lo na produtora. Primeiro como seu sócio, até que um dia ele me convidou para produzir um filme. Depois disso, dirigir um filme foi só questão de tempo. Mas fiz muita produção executiva e administrativa antes de assumir o lado artístico. Fiz de tudo antes de dirigir.

Como é ser diretor-geral do núcleo de teledramaturgia do SBT?
Hoje em dia, um diretor não pode ser apenas um realizador, pois tende a estagnar. Como a concorrência é absurda, você briga por um ponto no Ibope. Você precisa ralar, estar eternamente se preparando para dirigir, aprimorando-se. Entender de administração, de recursos humanos. Eu estudo muito. E é necessário fazer terapia. Quando um diretor jovem vem trabalhar comigo, mando fazer terapia. Estudar a alma humana. Digo: vai estudar sua alma! Assim ele poderá dirigir um ator. Hoje sou menos impetuoso, mais reflexivo. Ando desenvolvendo qualidades de relacionamentos. Se continuasse tempestuoso, não conseguiria nada.

E quando será sua próxima produção? Qual será a novela?
Não tenho a mínima ideia. No momento, meu trabalho é receber. (Del acaba de receber uma jornalista que foi lhe mostrar um argumento para uma possível novela.) Sei que será em setembro, mas nem imagino ainda o que seja. (Será uma novela escrita por Iris Abravanel, esposa de Silvio Santos.)

Você gosta de fazer novela? Ser um realizador? Qual segmento prefere? Filmar ou gravar?
Gosto muito de fazer novela. Eu me dei muito bem com a ansiedade da tevê, de estar dirigindo. São cerca de 200 capítulos por trama. Penso nos custos, nos deslocamentos de equipe, vou decupando cada episódio. Sou um peão de luxo. É muito puxado. Você não tem vida social. Cada capítulo tem duração de 45 minutos, e fazemos um por dia. Trabalho de madrugada o lado burocrático, como responder a e-mails, por exemplo, e durante o dia o lado artístico. Ensaio muito. É uma coisa que não acaba. É uma fábrica de narcisos por milímetro quadrado. Dá mais trabalho gerenciar egos do que gravar, e isso influencia no trabalho de todos nós. Sem contar os fatores externos, como trânsito, se chover. Tenho de pensar em tudo. E quer saber uma dica de produção? Para que seja mais harmonioso o dia de trabalho? Alimente bem a sua equipe! Economize em qualquer outro item, menos na alimentação. A equipe tem de estar bem alimentada. Se a comida for ruim, pode contar que vai haver reclamações, mau humor.

Como é seu relacionamento com a senhora Abravanel?
Nós nos damos muito bem. É um respeito mutuo. Resolvemos tudo juntos. Em total sintonia. Ela é uma mulher muito inteligente, brilhante. É dedicada e tem uma vontade absurda de aprender, além de ter uma jornada tripla: mãe, esposa e autora. Também só trabalho com mulheres, pois vocês são mais competentes.

E o orçamento de uma novela? Como funciona? Qual é o seu limite?
Bem, cada capítulo de uma novela no SBT possui um orçamento de 180 mil reais. É pouquíssimo se compararmos com os 400* mil reais da Record e 500* mil reais da Globo (por capítulo), então precisa ser tudo muito bem calculado. E não pode sobrar. Se sobrar, é porque foi feita alguma coisa errada.

Sei que está escrevendo. O que é?
Estou escrevendo um seriado, sem muita pretensão, sobre os conflitos da adolescência, pois se trata de uma fase carente de informação sexual. Mesmo com tanta informação, eles não sabem como agir, como lidar com as redes sociais. É uma fase em que estão definindo sua personalidade, rejeitam os pais, e isso gera muito conflito. Quero ser educativo sem ser chato. Existe uma insegurança muito grande entre os jovens. Tem de ser uma liberdade vigiada. Em casa, meus filhos fazem o que querem, pois o que importa é que eles estejam aqui! A casa sempre está cheia. Prefiro que, quando minha filha for transar, que seja em casa a ser no carro, na rua. Tem de conversar. O que não pode é estimular. Já escrevi oito capítulos, estou brincando.

Você foi casado com a Regina Duarte durante dez anos. Como é seu relacionamento com os filhos dela?
Minha relação com os filhos da Regina é bem paternal, principalmente com o João, o filho mais velho dela.

Vi carros antigos na sua garagem. Você é colecionador?
Eu compro carros antigos, restauro e vendo. Este é um Chevrolet 48.

Anda sempre de moto?
Só ando de moto. Vou trabalhar de moto. A Fernanda (esposa), quando começamos a namorar, também andava de moto comigo. Cada um com a sua. Só parei quando tive síndrome de pânico.

E quando foi isso?
Em 2004, quando trabalhava na Record. Estava indo para o trabalho quando comecei a passar mal. Pensei que iria morrer. Foi uma época muito sofrida. Produção artística zero. Sou muito inquieto. Sou difícil. Exijo excelência dentro de uma racionalidade. Sou rebelde, mas sou bom subordinado dos que têm conhecimento. Se for uma bosta, eu não respeito.

Você faz algum exercício, frequenta alguma academia?
Não. Acordo meio culpado com isso, mas troco o exercício pela leitura. Adoro ler e fazer lição de casa com meus filhos. Em época de provas, faço-as também.

Como é sua rotina na Granja?
Sou uma ostra. Escolhi a Granja para me esconder. Faço tudo aqui. Não tenho piscina em casa, nem sauna, nada. Tudo na minha casa foi feito para ser usado. Curto o Clube Pitangueiras, o Shopping Granja Vianna. Imagina que em 10 minutos estou no cinema! Aqui a gente conhece as pessoas pelo nome. Troca cheque. Você sabe onde encontrar um amigo. Aqui as pessoas se vestem de forma diferente. São mais despojadas. Não importa quem você é, e sim quem você aparenta ser. É um lugar peculiar. A Granja é um reduto de bem-sucedidos resolvidos consigo mesmos. É muito bom morar aqui, apesar de o trânsito ter piorado um pouco… Mas onde você pode morar sem muro? Minha casa não tem muro! A gente ainda é feliz morando na Granja. Tenho qualidade vida para mim e para meus filhos. Minha veterinária liga para saber se o cachorro está bem, assim como o pediatra dos meus filhos. Acaba virando tudo amigo. Já viu pediatra ligar para saber se está tudo bem com seu filho? Todo mundo se conhece.

E como conheceu a Fernanda?
No SBT. Ela fornecia a alimentação dos elencos. A Fernanda é a mulher da minha vida. Estamos juntos há 14 anos, e eu não consigo me ver sem ela. Não dou um passo sem consultá-la. É uma supermulher.

Por Solange Viana