Professora de Cotia passa 2 meses em campo de refugiados

A professora de Direito Internacional e Direitos Humanos das Faculdades Integradas Rio Branco, Angela Tsatlogiannis, compartilhou conosco sua vivência auxiliando refugiados sírios em campo da Grécia

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Com o objetivo de compartilhar sua recente experiência como voluntária em campos de refugiados na Grécia, por meio da ONG internacional A Drop In The Ocean, a professora de Direito Internacional e Direitos Humanos, Angela Tsatlogiannis, realizou uma palestra no campus Granja Viana das Faculdades Integradas Rio Branco.​

Para saber mais sobre a experiência de Angela, que passou dois meses nos campos de Neo Kavala e Chios realizando triagem de doações, junto às famílias que chegaram majoritariamente da Síria, a equipe da Revista Circuito entrevistou a professora.

Para ir à Grécia, ela havia realizado um financiamento coletivo, porém, o valor captado não foi o suficiente.

“Eu precisava de 12 mil reais, entre passagem e despesas que eu teria, porém, durante a ação de financiamento não consegui nem um terço do valor necessário. Acredito que isso aconteceu pela atual situação financeira do país e pela falta de proximidade que temos com essa causa. Mas isso não mudou a minha vontade e determinação. Alinhei umas economias que eu tinha e acabou dando certo”, diz.

Angela também tem nacionalidade grega, e durante o seu serviço voluntário ficou próxima à cidade onde seu pai nasceu.

“Achei que estivesse preparada e, por mais que conheçamos a situação, essa ciência é muito mais teórica. Recebi um treinamento sobre a forma pela qual iríamos fazer as atividades e, principalmente, como iríamos lidar com os refugiados e todas as emoções envolvidas, para desenvolvermos empatia e sentimento de justiça”, afirma a professora.

Havia mais outros 15 voluntários europeus, sendo ela a única brasileira.

“Também fomos preparados psicologicamente para o que iríamos vivenciar”, declara.

De acordo com Angela, as atividades desenvolvidas por ela no campo de Neo Kavala eram o recebimento, a seleção e a distribuição de peças de vestuário e de alimentos.

“Uma das coisas que mais me impactaram em Neo Kavala é que este local é um aeroporto desativado por causa da força dos ventos, que era muito intensa e impossibilitava os voos. Então, nesse local colocaram pessoas morando em tendas. O frio era muito rigoroso”, afirma Angela.

Segundo a professora, é impossível passar por uma experiência desta sem se comover.

“Os relatos desses refugiados eram muito fortes e impactantes. Eram histórias muito parecidas, com a destruição violenta de seu país, a perda de familiares, perda de propriedades, o sofrimento durante a viagem até a Grécia, violência sexual, enfim, presenciaram muitas coisas ruins e muitas desgraças”, declara.

Angela diz que conheceu um homem, com cerca de 40 anos, que trazia em seu celular a imagem da esposa e de quatro filhos mortos. E outra história é de uma criança de 5 anos de idade que, desde os três meses de vida, mora em campos de refugiados.

“Um dos momentos mais tristes, durante o trabalho voluntário, foi quando soube que uma mulher, mãe de quatro filhos, sofreu violência sexual por outro refugiado dentro do campo. No dia seguinte a encontrei, ela me abraçou e tentou falar sobre o que havia ocorrido, porém, infelizmente, eu não falava árabe, o que impossibilitou a conversa.”

A professora conta outras histórias tristes, como pessoas sofrendo com hipotermia, tentativas de suicídio e suicídios, que chegavam a ela durante sua ação humanitária.

“Mas também havia momentos felizes, quando os refugiados conseguiam se realocar no país e se mudar para uma casa, e a própria convivência com eles, pois nos tratavam muito bem”, afirma.

Questionada sobre – como professora de Direito Internacional e Direitos Humanos – se ela vê uma saída de curto prazo para essa tragédia humanitária, Angela diz que não.

“Não vejo que haja uma saída a curto prazo, até porque, infelizmente, essas pessoas não são bem-vindas em muitos lugares do mundo, seja na Europa ou mesmo em países como os Estados Unidos. Há um medo em relação ao terrorismo, a tomada de empregos e a xenofobia”, finaliza a professora.