RPM imortal

CAPA

Sem eles, a história do rock não seria tão emocionante

Quando a equipe da REVISTA CIRCUITO encontrou o músico Luiz Schiavon batendo um papo gostoso com os amigos pela Granja Viana, onde mora há 22 anos, logo pensou: artista de sucesso, tecladista consagrado e integrante de uma das maiores bandas do Brasil.

Seria uma honra vê-lo estampado em uma edição da CIRCUITO.

E por que não usar da ousadia e tentar uma entrevista com a banda completa?

O universo foi tão a favor disso que amigos em comum foram descobertos e muitas pessoas se mobilizaram para que esta maravilhosa matéria se tornasse realidade.

Foram ligações, trocas constantes de e-mails por quase um mês, muito trabalho de pesquisa, até que os integrantes do RPM se entregaram a este turbilhão de emoções que é ser entrevistado por fãs incondicionais que formam a equipe da revista.

Na redação, euforia total!

A pinta de galã de Paulo Ricardo, a espontaneidade de Fernando Deluqui, os multitalentos de Paulo P. A. Pagni e o jeito granjeiro de ser de Luiz Schiavon definem o RPM (sigla de Revoluções por Minuto), grupo criado em 1983, chegando ao auge de sua popularidade ainda “nas fraldas”, um ano depois de tocarem os primeiros acordes.

Em 1985, oito entre 11 faixas do disco Revoluções por Minuto emplacaram nas rádios, e a banda chegou a 500 mil LPs vendidos em apenas seis meses de uma turnê. Um ano adiante, venderam 2,7 milhões de cópias do disco Rádio Pirata ao Vivo, resultado de uma turnê histórica com shows megaproduzidos. Foi uma verdadeira explosão na música nacional, ao lado de grandes bandas, como Titãs, Barão Vermelho e Ultraje a Rigor. Apesar dos anos 1980, para o RPM, terem sido discutidos e, em certa época, até renegados – já que foram marcados por brigas, separações, entre outros probleminhas que muitos sabem –, parece que os fantasmas que assolaram a trajetória do grupo foram, enfim, enterrados.

Com quase 30 anos de história, entre idas e vindas (algumas idas bem conturbadas), o RPM se reconcilia mais uma vez e sobe ao palco com sua formação original, levando os fãs à loucura e mostrando que eles fazem música boa de olhos fechados.

Estes são os nossos garotos.

RC: Com apenas dois anos de carreira, vocês explodiram nas rádios e alcançaram a marca de mais de 1 milhão de discos vendidos. Qual foi o diferencial da banda, já que muitas outras surgiam nessa mesma época?

Luiz Schiavon: Creio que foram diversos fatores. O uso intenso de tecnologia nos teclados, computadores no palco (fomos pioneiros nesse uso), laser, efeitos especiais etc. A profissionalização do show, já que na época não se investia em produção. Viajávamos com toneladas de cenário, luz, som etc. A direção do Ney Matogrosso foi fundamental para dar um padrão internacional ao show. Na época, nossos espetáculos não ficavam devendo nada aos dos artistas estrangeiros, e isso ajudou muito. A visão empresarial do Manoel Poladian foi essencial. Ele acreditou no projeto e fez os investimentos necessários para a realização de tudo.

Paulo Ricardo: Com dois anos de carreira, já tínhamos vendido mais de 2 milhões de discos. Contávamos muitos diferenciais, mas acho que o som dos sintetizadores do Schiavon e nosso visual, mais fashion, foram os mais impactantes.

RC: Qual a sensação que vocês tiveram quando a música Revoluções por Minuto foi censurada? Já esperavam isso?

 Luiz Schiavon: Na verdade, até esperávamos, mas não pelo motivo alegado. A música não foi censurada pelo conteúdo político, mas pela frase “aqui na esquina cheiram cola”. Foi considerada apologia ao consumo de drogas. Paulo Ricardo: Não esperávamos pelo discurso da Nova República, que apregoava o fim da censura, mas quando ela veio tomamos como um elogio, na verdade. Sentimo-nos alinhados com Chico, Gonzaguinha e outros grandes censurados.

 RC: Paulo, você foi um sex symbol. Ainda se considera um?

Paulo Ricardo: You tell me… (risos).

RC: E o assédio, continua? Como lida com isso nos dias atuais?

Paulo Ricardo: Continua. Estamos acostumados, é gostoso, faz parte do negócio.

 

MODELO OU MÚSICO?
Em 1986, Paulo Ricardo mal começou a fazer sucesso e logo passou a posar de galã, estampando capas de revista por todo o Brasil. >>

 

RC: Em 1993, Schiavon e Pagni deixaram a banda e foi lançado o disco Paulo Ricardo & RPM que, sem a influência de Schiavon, apostava em guitarras pesadas. O que representou o RPM sem o Schiavon?

Luiz Schiavon: Os resultados mostram.

Paulo Ricardo: Nossa fase grunge, mais pesada, e a parceria com Fernando Deluqui nos deram a oportunidade de mostrar esse lado mais voltado para a guitarra. Mas não era realmente RPM, por isso a diferença no nome. Foi uma experiência bem-sucedida, vivida intensamente, mas com começo, meio e fim, que rendeu um CD em português, um em espanhol, vários especiais de TV e muitos, muitos shows catárticos e rock’n’roll!

RC: Podemos chamar essa fase do RPM de “recomeço”? O que ela significa para vocês?

Luiz Schiavon: Sem dúvida. Depois de muito tempo, conseguimos superar nossas diferenças pessoais, que, na verdade, sempre foram musicais. A perspectiva do tempo nos mostrou o que é realmente o RPM, qual a essência, e hoje nos dedicamos a preservar isso.

Paulo Ricardo: Finalmente, o tal amadurecimento. Demorou, mas chegou. Estamos em nossa melhor fase.

RC: Qual a diferença entre tocar para uma juventude da década de 1980 e para uma juventude dos dias atuais?

Luiz Schiavon: Acho que a principal é a velocidade com que os jovens de hoje consomem a informação. É tudo para já. Ninguém mais tem paciência de ouvir um álbum inteiro com calma, ler a ficha técnica etc. Lembro que, na nossa época, comprar um LP era uma comemoração. Você decorava até o nome dos técnicos de som. Hoje a internet deu um imediatismo a tudo, e precisamos acompanhar essa velocidade.

Paulo Ricardo: Hoje há mais informação e muito mais concorrência com o rock lá de fora. Fora isso, é basicamente a mesma coisa.

P.A. não está na capa do álbum, já que o baterista entrou durante as gravações do disco. >>

O RPM foi uma das primeiras bandas brasileiras a utilizar sintetizadores, além do recurso de laser no palco, sensação em todos os shows. O hit Loira Gelada foi considerado o primeiro remix oficial no Brasil, consagrando o grupo como uma banda inovadora.

“Depois de muito tempo conseguimos superar nossas
diferenças pessoais, que, na verdade, sempre foram
musicais.”
Luiz Schiavon

<< RPM logo após o lançamento do primeiro álbum, Revoluções por Minuto.


“Finalmente, o tal amadurecimento. Demorou, mas chegou. Estamos em nossa melhor fase.”
Paulo Ricardo

 

A música Revoluções por Minuto, que era para ser um hino da banda, foi censurada por criticar a situação política da época pós-ditadura. A música foi inicialmente censurada por ser considerada uma apologia às drogas, porém sabe-se que esse não foi o real motivo da censura, mas sim os trechos da música que criticavam o sistema ditatorial. Na letra, Paulo Ricardo e Luiz Schiavon não se preocuparam em esconder nas estrelinhas a intenção de fazer referências pessimistas ao mundo em que viviam.

 

“Nos chegam gritos da Ilha do Norte
Ensaios pra Dança da Morte
Tem disco pirata,
Tem vídeo cassete até
Agora a China bebe Coca-Cola
Aqui na esquina cheiram cola
Bio degradante
Aromatizante tem”.

RC: Como uma banda que já foi recorde de vendagem de discos vê questões como internet e pirataria? Vocês tiram algo de positivo disso?

Luiz Schiavon: Precisamos distinguir dois aspectos da questão. Um é o garoto que baixa uma música porque gosta e põe no iPod ou solta nas redes sociais. Outro é o industrial chinês (ou seja de onde for) que prensa milhões de CDs. Como dar o mesmo tratamento a ambos? Pirata é o segundo, o primeiro é consumidor. Assim, nossa abordagem da questão é pragmática. Fizemos um CD com uma capa espetacular, com um CD de remix de bônus e um tratamento impecável. E também disponibilizamos quatro músicas para download na web. Quem ouvir e gostar compra o CD.

Paulo Ricardo: São questões complexas, mas vou dar duas respostas simples: pirataria é crime e a internet é liberdade, se usada para o bem.

RC: Falando em internet, vocês são internautas do tipo que estão sempre no Facebook, Twitter ou restringem as ferramentas ao trabalho?

Luiz Schiavon: Pessoalmente, sou aficionado por tecnologia. Não uso Twitter, acho muito chato, mas passo sempre pelo Face e estou on-line 24 horas por dia.

RC: Vocês amadureceram muito profissionalmente nesses 30 anos. Como é compor agora, começar tudo de novo, criar coisas novas?

Luiz Schiavon: É como andar de bicicleta. Depois que você pega o jeito, não esquece. Quando comecei a compor novamente com o Paulo para este álbum, achei que poderíamos ter dificuldades, mas em dois meses tínhamos 15 canções prontas.

RC: O que motivou a volta do RPM? Qual foi a sensação quando subiram ao palco depois de tantos anos?

Paulo Ricardo: O que motivou, além da demanda e do carinho do público, foi o especial da Globo Por Toda a Minha Vida, que contou nossa história. Foi muito emocionante. Agora, quando a gente sobe ao palco, parece que se passou uma semana. O RPM já está no nosso DNA. É como andar de bicicleta.

RC: Clássico e moderno ao mesmo tempo. Dá para seguir tranquilamente com estas duas características, tratandose de música? Como essa combinação é administrada?

Luiz Schiavon: Com toda a certeza dá. A experiência nos permite usar as influências modernas sob o filtro das nossas características pessoais. Tudo o que tocamos soa RPM, porque nós somos o RPM. É esse mix que faz a banda soar como soa.

Paulo Ricardo: Intuitivamente. Sem grandes elucubrações, sem pretensão. Só o tempo vai dizer o que se tornou clássico. A gente apenas procura fazer o nosso trabalho da melhor maneira possível.

RC: 1983 – 2012. O ânimo é o mesmo quando se está no palco?

Luiz Schiavon: Sem brincadeira, hoje é muito melhor. Estamos, sem dúvida, no melhor momento de nossa carreira.

Paulo Ricardo: O ânimo é o mesmo, mas hoje o domínio é muito maior, graças a tal da experiência.

RC: Paulo Ricardo, carreira-solo ou RPM? Estilo romântico ou rock and roll?

Paulo Ricardo: Não tenho mais nenhum projeto de carreira solo. Devido aos longos hiatos do RPM, já os realizei todos. O último foi meu CD com Toquinho cantando Vinícius. Agora é só RPM.

RC
: Schiavon, trabalhar na Rede Globo, por tantos anos, agregou o que a sua bagagem musical? Sua saída da emissora foi um estímulo para o retorno com a banda?

Luiz Schiavon: Sem dúvida nenhuma! Trabalhei por seis anos fazendo trilhas para novelas e depois por mais seis no Domingão. A experiência foi inestimável, é difícil explicar em poucas palavras, mas o fato é que amadureci enormemente como músico, arranjador e produtor musical.

RC: Seus arranjos e a pegada eletrônica foram essenciais para dar identidade ao RPM. Fale um pouco do seu estilo musical.

Luiz Schiavon: Acho que sou um arranjador muito adaptável. Já fiz samba, música sertaneja, pop, gravei com artistas como Laura Pausini, Alejandro Sanz, Daniel, maestro João Carlos Martins, entre outros. No RPM é onde posso me mostrar como sou mesmo, com forte influência de música eletrônica. É onde posso me expressar melhor. RC: Paulo, você se aprofundou em Astrologia, curte cabala e simpatiza com o budismo. Consegue prever algo para esta nova fase do RPM? (Risos)

Paulo Ricardo: Não me lembro de quem é esta frase, mas cabe perfeitamente neste nosso momento: “É impressionante, quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho”. (Risos).

RC: Schiavon, fale da sua vida aqui na Granja. O que curte fazer por aqui? O que falta? Qual o seu sentimento pela região?

Luiz Schiavon: Sou uma pessoa um pouco avessa a mudanças. Nasci e cresci em Pinheiros, onde morei por mais de 30 anos. De lá mudei para a Granja, onde já estou há 22. Gosto desse clima de cidade de interior, de poder esquecer a carteira em casa e, mesmo assim, fazer compras ou almoçar; da natureza e dos grandes espaços. Mas hoje temo pelo rumo que a Granja vem tomando. As grandes casas dando lugar a pequenos condomínios. O adensamento populacional que vem sem o acompanhamento da melhoria da infraestrutura. Acho que a boa e velha Granja Viana está chegando a um beco sem saída.

 
ÁLBUM ELEKTRA
O último álbum da banda é marcado por jovialidade e profissionalismo. Produzido por Paulo Ricardo e Luiz Schiavon, o disco também inaugura a parceria da banda com a produtora Building Records, no mercado há 20 anos, focada no segmento eletrônico. A banda recomeçou com músicas novas e partiu do zero. Elektra é composto por dois CDs: o primeiro traz 12 músicas inéditas, e o segundo são remixes (parceria com DJ Joe K) de sete músicas do CD um.

Faixas Elektra:
CD 1
1 – Dois Olhos Verdes
2 – Problema Seu
3 – Muito Tudo
4 – Pessoa X
5 – Deusa das Águas
6 – Crepúsculo
7 – Elektra
8 – Vidro e Cola
9 – Cassino Royale
10 – Ela é Demais (pra Mim)
11 – Ninfa
12 – Santo Graal
  CD 2 – Remixes
1 – Dois Olhos Verdes
2 – Ninfa
3 – Deusa das Águas
4 – Muito Tudo
5 – Problema Seu
6 – Ela é Demais (pra Mim)
7 – Cassino Royale

RC: Um ídolo eterno de vocês. Quem seria?

Luiz Schiavon:
Difícil apontar uma única pessoa. Passo esta.

Paulo Ricardo: Paulo Pagni, o P.A. (o baterista da banda).

RC: Para os fãs, o que teremos de RPM em 2013?

Luiz Schiavon: Bom, certamente o DVD da turnê Elektra, ali pelo meio do ano. E, provavelmente, um novo CD de inéditas mais ou menos em outubro.

Paulo Ricardo: Calma, 2012 ainda não acabou! Mas começaremos 2013 nos festivais de Atlântida, e maiores informações no www.rpmoficial.com.br!

Schiavon na Granja Viana, em momento descontraído enquanto passeia por um centro de compras. >>

 

<< “A gente achou que ia ser Gueto a vida inteira”, Luiz Schiavon, no especial da Globo, sobre o primeiro disco, Revoluções por Minuto. A banda esperava vender 5 mil cópias, e atingiu 500 mil cópias vendidas nos primeiros seis meses da turnê.

O primeiro show oficial do RPM foi no Morro da Urca, em março de 1985. Enquanto caía uma chuva torrencial, a banda se apresentava para 16 pagantes e convidados (produtores, pessoas de gravadoras e da mídia). Na ocasião, uma emissora francesa estava lá fazendo uma matéria sobre a cena do novo rock brasileiro. O grupo subiu ao palco e tocou como se ali houvesse 1 milhão de pessoas. No mesmo mês, estava nas ruas o disco Revoluções por Minuto.

O empresário Manoel Poladian, que buscava uma banda que fosse uma grande explosão nacional, entrou em contato com Paulo Ricardo. Em pouco tempo, estava ele à frente do RPM.

O novo empresário da banda alugou um teatro em São Paulo para o quarteto ensaiar sob o olhar atento de Ney Matogrosso.

PERFIL SCHIAVON
Morador da região há mais de 20 anos e fundador do RPM, ao lado de Paulo Ricardo, o granjeiro Luiz Schiavon foi essencial para a formação da identidade do RPM, com um rock mais elaborado. Em 1978, conheceu Paulo Ricardo e iniciaram uma longa parceria. Fundaram o Aura, com forte influência dos grupos ingleses de rock progressivo. A vida do Aura foi curta, cerca de um ano e meio, e seu fim foi decretado por desentendimentos entre os membros, mas marcou uma fase de grande pesquisa para Schiavon, que podia escrever, testar e arranjar livremente.

Depois da dissolução, Luiz Schiavon se aprofundou no estudo da tecnologia dos sintetizadores e da eletroacústica, formando, nessa época, um trio instrumental composto apenas por teclados, chamado Solaris.

Passado algum tempo, rascunhou com Paulo o que viria a ser a banda RPM, numa elaboração detalhista, que não deixava de fora sequer o guarda-roupa. Começaram a compor juntos a base do repertório do primeiro álbum, e ainda como dupla gravaram uma fita demo e a enviaram à extinta CBS, que primeiramente recusou a proposta. Sem opções para gravar um disco com este material, Schiavon se dedicou a trabalhos como tecladista e arranjador de diversos artistas iniciantes, enquanto, ao mesmo tempo, começava a busca por um guitarrista e um baterista. Nessa época, começou a tocar com a cantora May East (ex-Gan
g 90). Foi então que conheceu Fernando Deluqui, que foi convidado por Luiz a integrar a banda, que só então recebeu o nome RPM. Na bateria estava o excelente Júnior, mas que por ter apenas 16 anos tinha problemas para tocar à noite nas danceterias paulistanas. Com a saída de Júnior e um contrato já assinado com a CBS para a gravação do primeiro LP, Schiavon foi procurar Paulo Pagni, que imediatamente se juntou à banda.

 

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