Ele tem apenas 20 anos, mas já montou seu próprio apê, mora sozinho, comprou um carro zero, tem sua independência e muito sucesso na carreira artística recém-iniciada. Com mais de 3 milhões de seguidores no Instagram, Victor Carvalho Ferreira, o Vitão, já gravou com Anitta, está na playlist do Neymar, lançou música até com a Veveta (Ivete Sangalo) durante a pandemia e, olha, que honra: lançamento musical em pleno Dia das Mães, para delírio da sua, dona Sandra. Novinho romântico, diz que fica mais inspirado quando está em um relacionamento, porém, agora solteiro e morando sozinho na Vila Mariana, está produzindo muito também. Só no período de isolamento social, lançou canções com o cantor português Agir, outra com Ludmilla e WC no Beat, e outra ainda com os funkeiros JS e Thiaguinho MT. Eclético? Sim! Compositor da maioria de suas músicas, Vitão é comumente classificado na categoria de artista urban pop, porém se identifica com a MPB em geral, diz que se inspira até na bossa nova, no samba e no pagode ao compor, além de curtir muito rock nacional e transitar à vontade pelo rap. Entre suas inspirações também tem muito da música negra americana, da black soul music, de Michael Jackson, seu maior ídolo, a Ray Charles, Marvin Gaye e James Brown. Conseguimos esta entrevista com ele em sua segunda fase de quarentena. Na primeira, ficou sozinho compondo no apartamento da Vila Mariana, mas depois veio passar uns dias com a mãe, o irmão e a natureza da nossa região, que é o que mais curte por aqui.

Você começou aos 16 anos fazendo covers na internet. Cantava músicas de quem?
Sempre fui muito eclético. Muito aberto e voltado para a música brasileira, principalmente. Quando comecei, fazia cover de rap, que eu curtia muito, mas nunca me considerei rapper. Tem quem me classifique assim pelo jeito de cantar, de escrever, pela linguagem, porém nunca me considerei rapper. Sempre tive muita influência, sempre ouvi muito rap, mas não me considero rapper. Na época em que comecei, também fazia cover de MPB, de Tribalistas, do Rappa, Charlie Brown Jr…. ou seja, de tudo o que eu escutava. Sempre tive um gosto bem aberto.
E como você se projetou na cena musical? Quem te descobriu?
Quando ainda estava no ensino médio, fiz um estágio de um mês como assistente de estúdio na Head Media, que hoje em dia é meu escritório musical. Foi quando conheci os produtores que, hoje, trabalham comigo. Quando terminei o ensino médio, voltei a falar com eles. Na época queriam lançar alguns artistas novos e acabei sendo escolhido. Em agosto de 2018, lancei Tá Foda, meu primeiro single, e em seguida Embrasa, em setembro.
Embrasa foi a música que o Neymar divulgou nas redes sociais dele, né?
Sim, foi o máximo. Porque ele compartilhou e viralizou. Imagina um cara como o Neymar cantando minha música com os parceiros dele? Não sou fã de futebol, mas saber que minha música chegou num cara como ele foi muito bom.
Ainda em 2018, você lançou Te Liguei e, em dezembro, assinou contrato com a gravadora Universal Music. Como é ficar famoso tão jovem?
Nunca imaginei que meu sucesso ia ser tão grande e tão rápido, pois sempre ouvi dizer que música era uma parada muito difícil para se viver dela. Com certeza, tive muita sintonia artística e musical com meus produtores, tive sorte de encontrá-los e sempre confiei que poderia dar certo. Sonhei muito e acreditei nos meus sonhos. Creio em lei da atração. Quando a gente acredita com força e com fé em alguma coisa, essas coisas ficam mais fáceis.
Em março de 2019, você lançou seu primeiro EP homônimo com cinco faixas e o single Café, um grande sucesso. Você tem ideia de quantas músicas já compôs?
Quantas já compus não sei dizer. Tenho muita coisa que comecei e não terminei, outras que terminei e não quis lançar ainda. Tenho umas 20 lançadas ou gravadas. Café é uma das músicas que mais curto. Mas a minha preferida mesmo é Saudade, do disco Ouro, que foi lançada com o Rael, que é uma das fontes onde mais me inspiro, uma grande referência no meu trabalho.
Outro sucesso que deu o que falar foi a música Complicado, com a cantora Anitta. Rolou muita fofoca de um caso entre vocês, né?
As pessoas falam, mas foi só amizade (risos). Creio que Complicado foi minha música de maior sucesso até agora. Todo mundo achando que estávamos tendo um caso, mas não rolou nada. Nós sempre fomos muito amigos. Foi uma música que abriu muitas portas para mim, até na Europa, em Portugal, principalmente. Fui para lá no início deste ano para divulgar mais o meu trabalho, o meu disco Ouro, por conta do sucesso desta música. Até estava tudo combinado para eu voltar em junho para fazer shows, mas foi tudo cancelado devido à pandemia. Complicado eu escrevi com duas amigas, a Day Limns e a Carol Biazin, também da Head Media, e o Diogo Piçarra, que é um cantor português. Depois, a Anitta escutou a música e quis fazer comigo.
Em novembro do ano passado lançou o single 7 Chamadas, com o cantor colombiano Feid. Neste ano, fez parcerias com o Agir. Você prefere compor sozinho ou em parceria?
Gosto muito dos dois. A maioria das minhas músicas eu fiz sozinho. Mas compor em parceria é muito bom também. Se você tiver ideias parecidas, conexão com a pessoa, é muito bom.
O seu primeiro álbum, Ouro, foi lançado em janeiro de 2020. Esse sucesso todo foi muito rápido. Quando você começou a pensar em ser músico?
Comecei cedo a tocar violão e, com 8 ou 9 anos, já tirava algumas músicas de ouvido. Na época, não cantava ainda. Tinha vergonha, era supertímido. Na verdade, ainda sou tímido, mas era muito mais. Com 14 anos, iniciei teatro na escola e passei a me soltar um pouco mais. Comecei a cantar e nunca mais parei. Acredito que faço muito sucesso, porque falo de amor e relacionamentos e as pessoas se identificam. Até porque todo mundo passa por situações amorosas, de desafeto, de brigas, então essa identificação faz com que as coisas aconteçam mais rapidamente.
Você se considera um romântico?
Sim. Sempre fui de namorar, nunca passei grandes fases da minha vida solteiro. Agora é que eu estou mais tempo sozinho, já há uns 10 meses. Sempre fui romântico e gostei muito de escrever sobre meus relacionamentos.
Inspirações?
O meu maior ídolo é Michael Jackson em todos os âmbitos, tanto musical, comportamento de artista, como ser humano, uma pessoa muito sensível. Toda a obra dele é impecável. Também sempre fui muito fã de Ray Charles, Marvin Gaye, James Brown, da galera da música negra americana. Do soul, do black soul, do funk americano e, no Brasil, sempre fui muito fã de rap, Racionais, Sabotagem. Hoje em dia, tenho me interessado muito por MPB, samba, bossa nova, pagode. Sempre gostei muito de Charlie Brown Jr., rock nacional, Legião Urbana, Tribalistas, Caetano, Gil, Djavan, Seu Jorge. Grandes referências musicais.
Como você se classifica musicalmente?
Hoje me classificam como urban pop. É uma classificação mais atual que as pessoas costumam me dar, mas eu me considero um artista de MPB, pelas minhas referências e pelo fato de ser uma música comunicativa, que conversa com as pessoas. E pela brasilidade ser muito forte no meu trabalho.

Como você define essa brasilidade na sua música?
São os ritmos que uso. Como componho minhas músicas a partir do violão, sempre usei muitos acordes brasileiros, acordes de bossa nova, acho que isso já dá uma brasilidade para música. Na percussão também, usei muito pandeiro, muita zabumba, que são muito próprios da música brasileira. E creio que isso faz falta na música de alguns outros artistas novos, trazer mais elementos da música brasileira, da nossa raiz mesmo.
Você tem algum processo criativo?
No começo, escrevia bastante nos ônibus. Eu ficava observando as pessoas na rua e escrevia sobre o que via. Hoje em dia, já levo a composição mais como um trabalho. Sento e escrevo.
Você acha que fica mais inspirado quando está em um relacionamento amoroso ou quando está sozinho?
Acho que, quando estou vivendo um relacionamento, fica bem mais fácil. Porque a gente está vivendo as emoções e aquilo vai para a música. No meu disco, por exemplo, passei por todas as fases do relacionamento compondo. A paixão, o namoro, o fim do namoro e todas as fases foram para as músicas. Agora que estou solteiro, em alguns momentos eu me sinto um pouco travado para compor. Aí, acabo me suprindo de conversas com outras pessoas e levando as histórias delas para a música também.
A música Mais Que Bom, que você lançou já na quarentena, você compôs com o Agir em Portugal?
Sim, a gente se conheceu lá e compusemos a música juntos. A ideia era gravar quando eu voltasse em junho para fazer meus shows em Portugal, mas aí veio a pandemia, foi tudo cancelado e tivemos a ideia de gravar do celular, no meu apartamento e no dele, separados e depois juntar tudo. Editamos em casa, foi uma parada com pouquíssima produção. Os figurinos eram as minhas próprias roupas e as dele, os cenários foram o meu apartamento e o dele.
Você dança também?
Na verdade, não! Nesse clipe, dancei levando na brincadeira e deu certo. Sempre admirei a galera que dança, mas nunca tive muita aptidão para isso. Talvez pelo fato de nunca ter feito aulas de dança, tenho essa insegurança. Talvez eu tenha me soltado mais por estar em casa só com um amigo. Mas não descarto a possibilidade de evoluir nessa área, fazer umas aulas de dança e tal.
Como você vê a sua geração?
Com toda a informação que a gente tem, com a internet e tudo mais, acho que tem muitas coisas ruins e muitas boas também. Ruim é o número de adolescentes e jovens com depressão, e talvez isso seja pelo uso excessivo das redes sociais. Por outro lado, é uma geração muito mais bem informada do que as anteriores. Temos uma cabeça muito mais aberta para o mundo. A questão das mulheres, do respeito por elas, a igualdade entre os gêneros, o feminismo, questões de racismo, de xenofobia, acho que a gente tem mais chance de se informar e não fica tão preso ao que as gerações mais antigas passaram para nós.
Como você lida com a fama?
Tenho 3 milhões de seguidores no Instagram. Tem o lado ruim de passar a receber julgamentos e opiniões de todos os lados e de todos os tipos, mas isso é uma consequência daquilo que o artista quer para sua vida. Mas claro que a vida pessoal passa a ser bastante invadida. Por exemplo, você termina um relacionamento e começam a surgir várias suposições do porquê. Teve traição? Não teve traição? Nos locais onde há mais jovens, sou muito reconhecido. No aeroporto, também. Mas quando junta um mundo de fãs, eu gosto. Hoje já vivo da música, já me sustento sozinho, posso até ajudar minha família. Pago meu aluguel, decorei meu apartamento, comprei meu carro. Eu compro muita roupa.
E a sua família lida bem com sua fama?
Minha mãe e minha avó vivem em contato com o fã-clube. Minha mãe também é a minha administradora e advogada. Já meu irmão é muito na dele.
Falemos da Granja Viana, você morou muito tempo por aqui?
Nasci em São Paulo e vivi lá até os 14 anos, mas eu estudei no Colégio Waldorf Micael, na Granja Viana, do 6º ao 3º do ensino médio e minha família se mudou para a Granja Viana para ficarmos mais próximos da escola. Minha mãe continua aqui, com o meu irmão, e só eu que me mudei para a Vila Mariana no ano passado para estar mais próximo do trabalho, dos estúdios, do aeroporto e tudo mais.
E gosta de morar sozinho?
Quando saí de casa, primeiro fui morar por 6 meses com minha namorada. Mas, depois, terminamos o relacionamento e estou adorando morar sozinho. É um prazer grande estar sozinho porque no meu trabalho estou sempre com muita gente, com a minha equipe, fãs, viajando… então, quando chego sozinho no meu apartamento, eu curto muito. É muito bom.
Da Granja Viana, o que mais sente falta?
Natureza e da tranquilidade, coisas que eu já não tenho na Vila Mariana, que é muito urbanizada. Gosto mais de morar lá por causa do movimento, do agito, mas para descansar e relaxar o meu refúgio é aqui. Da Granja, sinto falta da tranquilidade, das árvores, dos bichos… Gosto do Parque Cemucam e de ir à Dona Deôla para saborear algumas delícias.
O que você projeta a curto, médio e longo prazo para sua vida?
Nesse período de confinamento e pelo fato dos artistas não saberem quando vão voltar com a parada de shows e acho que isso deve ser uma das últimas coisas a voltar ao normal, a curto prazo, creio que é um ano mais de criação e lançamentos. Estou pensando em coisas novas, produzindo coisas novas. Como moro no mesmo prédio de um dos meus produtores, temos a chance de se juntar e produzir coisas novas, mesmo estando em casa. Em médio e longo prazo, quero estar nos grandes festivais, no Rock in Rio, no próximo Lollapalooza. Já estive no Rock in Rio participando do show do Projota, foi muito incrível como primeiro contato com o festival, mas quero estar lá com meu próprio show. Lançar mais discos, lançar mais coisas com gente de outros países, dos Estados Unidos, por exemplo. Fazer conexões com artistas do mundo todo. Não penso muito a longo prazo, as coisas vão acontecendo naturalmente na minha vida e a gente vai vivendo aos poucos.
Você consegue imaginar como você vai estar daqui a 20 anos, quando tiver 40 anos?
Espero que esteja muito bem, muito rico e estar aonde sonho chegar como artista, como cantor e compositor. Quero ser uma pessoa importante para a música brasileira, como hoje outros artistas são referência para mim. Quero ser um artista consagrado como um Tim Maia, um Jorge Ben Jor, aqueles artistas que têm o respeito de todo mundo. Talvez eu já esteja casado, com filhos, já que sou um romântico.
Por Mônica Krausz













