Em 2013, escrevi sobre uma campanha feita por um fabricante de cosméticos. Em resumo, um retratista forense, desses que desenham retratos falados, aparece de costas desenhando o rosto de mulheres com base em suas próprias descrições.
Sem poder vê-las, o artista faz uma série de perguntas sobre as características de cada uma. Em seguida, ele faz um novo retrato falado das mesmas mulheres, baseando-se nas descrições de uma terceira pessoa que acabou de conhecê-las. Um a um, os dois desenhos são pendurados lado a lado e as mulheres descritas são convidadas a compará-los. Em todos os casos, a descrição de terceiros ficou melhor do que o retrato falado que cada mulher fez de si.
Quando você parou de se achar bonita? Em 2023, escrevi sobre essa mesma marca de cosméticos, que fez nova campanha publicitária em que meninas posam descontraídas diante das câmeras, mas, quando adultas, fogem envergonhadas das mesmas câmeras por não se acharem bonitas. O filme foi precedido por uma pesquisa que constatou que 77% delas declararam ter vergonha da câmera e confessaram que, muitas vezes, sentem-se constrangidas ou desconfortáveis ao serem fotografadas por não acharem que estão bonitas.
Esses textos serviram de inspiração para uma jovem leitora da revista, que desenvolveu seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) na faculdade e foi aprovada com mérito. Essa mesma marca desenvolveu outra campanha publicitária sobre o mesmo tema. A ação tinha como objetivo fazer as mulheres refletirem sobre a sua autoimagem e a dificuldade de se reconhecerem como belas.
Foram instaladas, em locais de grande circulação em várias cidades do mundo, duas portas lado a lado. Uma delas tinha a inscrição “Bonita” (“Beautiful”, no original em inglês) e a outra “Comum” (“Average”). As mulheres que passavam pelo local eram convidadas a escolher por qual porta entrar. O vídeo da campanha, intitulado “Choose Beautiful” (“Escolha Bonita”), documenta as reações e escolhas das participantes.
A maioria das mulheres, ao se deparar com a escolha, hesitou, refletiu e, finalmente, optou por passar pela porta “Comum”. Poucas se permitiram passar pela porta “Bonita”. Algumas até se recusaram a passar por ambas as portas e recuaram.
A principal mensagem dos experimentos é que muitas mulheres têm o hábito de se diminuir e não conseguem reconhecer a própria beleza e valor. As campanhas buscaram destacar a baixa autoestima feminina, mostrar como é difícil para muitas mulheres se autoafirmarem como bonitas em uma sociedade que frequentemente impõe padrões de beleza inatingíveis e promover a ideia de que a beleza independe da validação externa e é um ato de autoconfiança e amor-próprio. Fazer com que as mulheres, ao verem o vídeo, refletissem sobre suas próprias escolhas e a importância de se verem de forma mais positiva.
Em resumo, o caso da porta “Bonita x Comum” é mais um poderoso lembrete visual do impacto da percepção que temos de nós mesmos em nossa confiança e bem-estar. Vocês são muito mais bonitas do que pensam!
Quem quiser conhecer os vídeos, eles estão disponíveis no YouTube: “Retratos da Real Beleza”, “Camera Shy” e “Bonita ou Comum”, da marca Dove.
Marcos Sa é palestrante e consultor de propaganda e marketing, com especialização na universidade de Stanford, California, EUA.














