Línguas

Um texto de Marcos Sá sobre idiomas.

Nossa língua é maravilhosa! Não aquela que temos na boca e que é o músculo mais forte do corpo, e sim a portuguesa. Não a portuguesa da padaria e sim a língua portuguesa. Está claro?
O homem é o único animal que se comunica através da fala. Papagaios também falam, mas não se comunicam, apenas repetem sons que se parecem com palavras. Existem mais de 300 línguas faladas pelo mundo afora. O mandarim e o inglês são as línguas mais utilizadas no mundo. Segundo os gringos, a língua portuguesa tem uma sonoridade encantadora. É musical, o que faz a glória dos nossos compositores mundo afora. Sotaques e regionalismos à parte, ela revela o caráter amistoso do brasileiro. Aberta, rica, alegre, cativante e gostosa de ouvir. Diferente de algumas línguas cheias de consoantes com som severo e fechado.
Com todo respeito às demais línguas, algumas me passam sensações no mínimo intrigantes: a língua alemã passa seriedade e gravidade na informação. Piada em alemão deve ser meio sem graça.  O italiano usa as mãos e a cabeça, fala alto e passa a impressão de que é um gozador, sabe de tudo e tem toda a razão na conversa. Assunto sério em italiano, não cola. Já os japoneses conversam tão baixinho que não devem escutar nada do que estão falando, mas passam a impressão que concordam em tudo. Dois espanhóis conversando numa boa dão a impressão de briga feia. O francês faz uma espécie de gargarejo ao falar, demonstra refinamento e certo ar blasé típico dos parisienses. Grego, para mim, é grego mesmo. O árabe é gutural, sai pela garganta, é o som do petróleo. Na Inglaterra, a voz vem do esôfago e revela toda a fleuma e pompa dos ingleses. God save the Queen. O americano fala um inglês arrastado, pragmático, com caras e bocas nervosas, sem muita paciência. Os suíços falam? Discretamente. Não me esqueci dos nossos irmãos portugueses que, muitas vezes, falam uma língua incompreensível para nós e que, todavia, precisamos de um tradutor para entender os gajos: banheiro por lá é casa de banhos, calcinha é cueca, cueca é boxer, celular é telemóvel, conversível é descapotável, fila é bicha, mensalidade é propina, injeção é pica, trem é comboio, meias são peúgas, adolescente é puto, menina é rapariga e por aí vai. Mas voltemos à nossa língua pátria.
Ela não é fácil de entender. Exemplos: meia poder ser uma simples meia ou uma meia hora ou um meia-esquerda. Que tal essa frase? Crime no oceano: baleia, baleia, baleia. Um já é agora! Já pra dentro! Dois já é daqui um pouco: Vou já já! A diferença de doida e doída é um acento. Assento não tem acento. Assento é embaixo, acento é em cima.
Embaixo é junto e em cima separado. Na sexta comprei uma cesta logo após a sesta. É a primeira vez que tu não vês. Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha. Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo. Vão cassar o direito de caçar de dois pais no meu país. Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração. Coração bate, pulso pulsa. Para começar o concerto tiveram que fazer um conserto. Domingo pé de cachimbo? É pede, do verbo pedir. Ao empossar, permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas. Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa. Calça você bota, bota você calça.
Oxítona é proparoxítona e a maior palavra registrada da língua portuguesa é pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiotico, pessoas que sofrem da doença pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. São 46 letras.
A língua é linda, mas é abstrusa!
 


Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas

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