A que ponto chegamos?


“Tratamento” dentário vendido na 25 de Março: a que ponto chegamos?

 

Recentemente, vimos diversas matérias em jornais, revistas e canais de televisão a respeito do absurdo da venda de aparelhos ortodônticos na Rua 25 de Março em São Paulo. Jovens de diferentes idades pagam aproximadamente 100 reais pela “instalação” do aparelho e 50 reais por uma “manutenção”. Os aparelhos dentários são colocados por jovens sem nenhum preparo ou formação e virou moda em quase todo Brasil!

Seria cômico, senão trágico e isso esboça o retrato da saúde e das instituições públicas em nosso país. A falta absoluta de acesso aos serviços de saúde pela grande maioria da população, a falta de fiscalização por parte dos órgãos públicos e, sobretudo, a ignorância em que vive nossa cega população, fazem dela refém de pessoas inescrupulosas que se espalham em todos os segmentos da sociedade. Como tratar dentes também virou sinônimo de ingresso na classe média, os novos promovidos do lulismo deram um jeito de também participar dessa onda, utilizando a lei do “Gerson”.

Incrivelmente, quando indagados e avisados de que esses aparelhos causam danos ao esmalte (pois muitos são colados com superbonder!) giroversão dentária, retração gengival, movimentações das mais diversas e até perdas dentárias, muitos não mostraram preocupação e, em casa, a atitude dos pais se resume a aconselhá-los. O que deve ser dito também a esses jovens é que esses aparelhos são adquiridos sem nenhuma procedência (muitos são formados de cerdas de vassoura) e aprovação da ANVISA e são colocados sem nenhuma técnica de biossegurança, ou seja, além de causar problemas gengivais e dentários, pode levar a sérios problemas de saúde como alergias e infecções. 

Outro absurdo que vemos são as vendas de produtos clareadores indiscriminadamente, esses até com chancela oficial, pois os de menor concentração são encontrados corriqueiramente em farmácias. Como analogia, é como se vendessem ácido para peeling facial na farmácia. Os clareadores dentais são compostos de ácidos que devem ser usados única e exclusivamente sob orientação de um cirurgião-dentista. Somente este profissional tem condições de avaliar, mesmo que em um clareamento caseiro, se o paciente pode ou não fazê-lo, bem como suas consequências, e, se ele será ou não eficaz para aquele caso.

Algumas semanas antes do falso aparelho virar notícia no Fantástico havia sido tratado por uma importante revista de circulação nacional como “empreendedorismo” por parte de um rapaz, morador de um subúrbio paulista, que estava ganhando um bom dinheiro com sua nova profissão. Isso só reforça que há tantas irregularidades em nosso país que alguns absurdos passam despercebidos. 

Felizmente, depois de tanta gritaria, projetos de leis estão sendo protocolados para evitar a venda de todos esses produtos odontológicos para a população leiga. Pena que tantos danos já tenham sido causados. Sonho com um acesso maior da população à saúde bucal, afinal, todos têm direito de ter dentes alinhados, mais bonitos, mais brancos e que tenham uma função mastigatória adequada. Mas tudo isso deve ser feito com responsabilidade, assim como na área médica que agora tem médicos cubanos….Mas isso é para uma outra conversa…

Prof Dr Ricardo Raitz é cirurgião-dentista, mestre e doutor em Odontologia pela USP; Professor de Mestrado no Instituto de Pesquisas São Leopoldo Mandic; Professor na Fundecto-USP; Professor titular na Univ Municipal de SCaetano do Sul e Diretor da Clínica SORRISO DA GRANJA.  ricardoraitz@sorrisodagranja.com.br; 4612-1721

 

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