Casarão do Parque Cemucam pode virar um Pólo Gastronômico

Audiência pública marcada para dia 25/02 discutirá concessão do casarão histórico que, no passado, abrigava campistas.

área sob discussão: marcada no quadrinho 2.

Uma audiência pública online marcada para o próximo dia 25 (quarta-feira), às 10h, vai discutir a proposta da Prefeitura de São Paulo de conceder à iniciativa privada um casarão, hoje pouco utilizado, dentro do Parque Cemucam, com a possibilidade de implantação de restaurante ou polo gastronômico. A ideia, apresentada como forma de “qualificar a experiência dos visitantes e gerar receita para o município”, já provoca divisão entre frequentadores do parque: de um lado, há quem defenda mais estrutura de lazer, convivência e serviços; de outro, quem teme a “urbanização” do espaço e argumenta que o parque deveria ser usado exclusivamente com fins ambientais.

Imagens colocadas no Projeto apresentado pela Prefeitura de São Paulo.

 

De acordo com Carlos Nascimento, membro em terceira gestão do Conselho Gestor do Parque Cemucam, a notícia sobre a audiência pública chegou ao grupo do conselho ontem, mas segundo ele, mesmo entre o grupo há quem seja contra e quem seja a favor da concessão. “A minha impressão é que a maioria é contra para preservar o caráter público e ambiental do parque”, disse. Segundo ele, o tema será aprofundado na próxima reunião do Conselho, em 1º de março. Carlos ainda alerta que o investimento em reformas daquele casarão será tão grande que dificilmente vai aparecer um interessado da iniciativa privada.

Para Marcia Catunda, Presidente da AMOGV e vice-presidente da Associação dos Amigos do Parque Cemucam, a notícia trouxe muita tristeza. “Justo neste momento em que estamos comemorando os 57 anos do Parque, a notícia nos entristeceu porque percebemos que o Prefeito de São Paulo tem a visão equivocada de que os Parques devem trazer lucros. O Parque Cemucam é um corredor ecológico que liga o Parque Jequitibá ao Parque do Morro Grande, animais silvestres transitam por este corredor e ter um restaurante no meio do caminho pode trazer desequilíbrios a esta fauna tão importante”, afirma.

Para o Secretário Adjunto do Meio Ambiente de Cotia, Wagner Neves, que foi administrador do Parque Cemucam por 12 anos, a ideia do Polo Gastronômico pode ser positiva no sentido de recuperar e restaurar o Casarão 2, que é histórico e precisa de uma intervenção maior. “Eu inclusive sou a favor do tombamento pelo patrimônio histórico daqueles casarões”, afirma. “É claro que por se tratar de uma área de preservação, é preciso ter critérios na utilização, por exemplo, ele não deve ser usado à noite”, ressalta.

O Parque Cemucam, localizado à Rua Mesopotâmia, s/n, em Cotia, pertence e é administrado pelo Prefeitura de São Paulo. Funciona diariamente das 6h às 18h e tem área aproximada de 908.745,65 m². Segundo os dados do projeto, a visitação anual é de 905.069 pessoas.

Durante a semana, a visitação é maior entre moradores da região, com presença marcante de adultos e idosos que fazem caminhada principalmente pela manhã. Nos fins de semana, o perfil muda: chegam visitantes de bairros mais distantes, ciclistas atraídos pela trilha e grupos que usam as churrasqueiras como ponto de encontro para passar o dia em confraternizações e reuniões familiares.

Na prática, de acordo com a Prefeitura, o parque já tem uma combinação de usos voltados a esporte, lazer e permanência:

  • Campo de futebol
  • Trilha de mountain bike ao redor do parque
  • Playground infantil
  • Equipamentos de academia ao ar livre
  • Espaço com churrasqueiras para uso do público
  • Aluguel de bicicletas na portaria aos fins de semana
  • Um viveiro de mudas muito importante

O casarão


A área em debate envolve um dos casarões antes utilizados para acolhimento de campistas no parque. Por isso, a edificação tem características compatíveis com uso de alimentação: salão amplo, cozinha, depósitos e sanitários. Porém, o prédio está há muito tempo sem uso e precisa de reforma para se adequar às exigências de funcionamento de um restaurante.

No edital, a área do Cemucam aparece como ÁREA DE PERMISSÃO 2, com 1.014,9 m². O documento também prevê uma ÁREA DE INFLUÊNCIA, onde o permissionário poderá instalar mobiliário de apoio à operação, dentro de limite estabelecidos. De acordo com Marcia Catunda, parte desta área, a área aberta coberta é muito utilizada pelos frequentadores. “A Conferência do Meio Ambiente e a Feira de Trocas, entre outros eventos públicos, são realizadas ali”, lembrou.

Além do Cemucam outros quatro parques também podem ter áreas concedidas para polos gastronômicos. Parque do Povo, Aclimação, Independência e Guarapiranga.

Como funcionaria o “Polo Gastronômico”

A proposta da Prefeitura é expandir para parques o modelo de polos gastronômicos já adotado em equipamentos culturais. A justificativa oficial é qualificar a experiência, estimular maior permanência e frequência, fomentar empreendedorismo local e gerar receita.

Pontos descritos no projeto:

  • Cada área já vem pré-definida;
  • a concessão ocorreria mediante pagamento de contraprestação (aluguel) à Prefeitura;
  • os empreendimentos devem seguir orientações de linguagem visual, para não interferir no ambiente do parque;
  • além do pagamento, espera-se que o permissionário assuma manutenção da área concedida, recolhimento de lixo e custos como água e energia;
  • a remuneração do operador deve vir exclusivamente das atividades gastronômicas (sem outros usos);
  • concessão por prazo de 10 anos;
  • o permissionário será responsável por adaptar o espaço para uso gastronômico e, em caso de rompimento antecipado, pode haver previsão de ressarcimento por melhorias realizadas.
    Dois pontos de vista

    A discussão toca em um ponto sensível para quem frequenta o Cemucam: qual deve ser a prioridade do parque?Quem defende a concessão costuma argumentar que faltam opções de alimentação e infraestrutura para ampliar o conforto, criar pontos de encontro e incentivar a permanência — especialmente para famílias, idosos e grupos que passam o dia no parque.Quem é contra teme o aumento de circulação e impactos (barulho, resíduos, pressão sobre áreas verdes), além de uma mudança gradual no perfil do parque, com o risco de o espaço perder seu caráter ambiental.É justamente esse conflito de visões — parque como espaço de lazer com serviços versus parque com foco estritamente ambiental — que deve dominar a audiência do dia 25.

    Para onde vai o dinheiro

    O material do projeto informa que os valores arrecadados são destinados ao Fundo Municipal de Desenvolvimento Social (FMD), com prioridade para investimentos em saúde, educação e habitação. Também há quem defenda que pelo menos parte do valor arrecadado seja revertido a melhorias no próprio Parque.

    Serviço:
    Audiência Pública: 25/02 (quarta-feira)
    Horário: 10h
    Formato: videoconferência
    Link: https://tinyurl.com/26we2cc5
    E-mail para contribuições e pedidos de esclarecimento: sgmparcerias@prefeitura.sp.gov.br
    Mais informações e edital completo: site da Secretaria Executiva de Desestatização e Parcerias.

    Por Mônica Krausz

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