Como é a vida numa cidade onde as temperaturas podem chegar a -30ºC?
Em 24/01/2026, em Toronto, Canadá a temperatura chegou a impressionantes e torturantes -24ºC. Estava eu por lá em visita a familiares que vivem na cidade. A sensação térmica era de absurdos -30ºC. A neve cobria tudo, criando um cenário espetacular e inesquecível. Baixou na região o tal Vórtex polar ou Vórtice polar, que é um fenômeno climático onde o fluxo de ar que ajuda a manter o ar mais frio próximo aos polos se expande durante o inverno no hemisfério norte, enviando ar frio mais ao sul com correntes de jato, causando temperaturas próximas a -40C nas regiões onde atinge. Ou seja, é uma frente ultrafria no frio inverno canadense. Mas nem tudo é desesperador como parece ser.
Temperaturas tão baixas assim são escassas. Neste inverno houve duas ocorrências dessa magnitude. A temperatura media na região no inverno é de – 5ºC a -10ºC, o que não é pouco, mas facilmente você se acostuma. Já no verão os termômetros chegam a 30ºC positivos.
A paisagem é deslumbrante, o branco da neve nas ruas ao entardecer se torna lilás e ao anoitecer se expande com as luzes das casas, e a neve caindo em flocos dá um toque mágico na paisagem tornando-a espetacular.
Mas como é viver por lá com temperaturas baixas e nevascas constantes? O Canadá é um país de primeiro mundo, com infraestrutura apropriada para tais situações. Nevou? No momento seguinte caminhões e tratores desobstruem as estradas, avenidas e ruas, deixando o caminho livre para circulação de veículos.
As famílias saem às ruas com pás, carrinhos limpa-neve e outros apetrechos e começam a limpeza nas áreas em torno das suas casas. Idosos, adultos e crianças se embrenham na tarefa com rapidez e destreza. Não é tarefa fácil, mas já estão acostumados.
Raramente falta energia, (até parece a ENEL) já que as casas, restaurantes e estabelecimentos comerciais são aquecidos com sistemas que mantém as temperaturas internas em torno dos 22ºC e a falta de energia pode levar às pessoas a hipotermia.
Os carros têm bancos e direção aquecidos, aquecedor interno, pneus próprios para andar na neve e no gelo, sim porque a neve fofa depois de um tempo vira gelo escorregadio e os motoristas são muito cuidadosos. Respeitam os pedestres, pois sabem que quem está a pé nas ruas, esta sob um frio de lascar. Disputam educadamente nos cruzamentos quem vai deixar o outro passar primeiro. É um tal de vai você antes que eu vou depois, que para nós brasileiros chega a ser engraçado. Igualzinho à guerra na rotatória da Avenida São Camilo, onde todos entram ao mesmo tempo.
O mais complicado é entrar e sair de casa. Põe a bota, o casaco, gorro, cachecol e na volta tira tudo de novo. Em geral os moradores estocam alimentos, pois as nevascas podem bloquear algumas regiões e fica difícil sair.
Nessas ocasiões, as escolas decretam o snow day, e as aulas ficam suspensas. Por falar em escolas, elas são publicas gratuitas e de ótima qualidade. A maioria acolhe estrangeiros com programas especiais para aprendizado da língua. Em Toronto o inglês é a língua oficial e o francês a segunda.
Em áreas como Montreal e Quebec, é ao contrario. O dólar canadense vale em torno de 30% menos que o americano e o custo de vida é razoável. A classe média prevalece e não há grandes diferenças de salários entre os profissionais. Quem sofre são os homeless que obrigatoriamente têm que ficar em abrigos ou correm risco de morte nas ruas devido ao frio.
As cidades são bem seguras e raros são os casos de roubos. Em qualquer lugar que você vá, na saída você houve um carinhoso: “Stay safe and stay warm”. Fique seguro e aquecido, é o mantra do canadense.
Marcos Sa é palestrante e consultor de propaganda e marketing, com especialização na universidade de Stanford, California, EUA.














