Durante muito tempo, o vinho foi um território predominantemente masculino. Não apenas no mundo da produção ou da crítica especializada, mas também dentro de casa: era comum que a escolha do rótulo, a compra e até a decisão do que seria servido à mesa ficassem sob responsabilidade dos homens. Muitas mulheres relatavam, inclusive, que “tomavam o vinho que o marido escolhia”, por receio de não dominar o assunto.
Esse cenário mudou profundamente nos últimos anos e, hoje, estamos testemunhando uma verdadeira transformação cultural.
Dados recentes da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) e de pesquisas de mercado da Wine Intelligence indicam que as mulheres já representam uma parcela próxima da metade dos consumidores de vinho em diversos países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido e Brasil.
Em alguns segmentos, especialmente entre os consumidores mais jovens, elas já são quase maioria. No Brasil, estudos do Ibravin indicam que o crescimento do consumo feminino tem sido um dos principais motores da expansão do mercado.
Mas a mudança não é apenas quantitativa. Ela é, sobretudo, qualitativa.

As mulheres deixaram de ocupar uma posição passiva e passaram a exercer um papel protagonista. Hoje, não apenas consomem vinho, mas pesquisam, estudam, participam de degustações e decidem a compra para o dia a dia da casa. É cada vez mais comum ouvir consumidoras que descrevem com segurança seus estilos preferidos.
Outro ponto relevante apontado por estudos da Wine Intelligence é que as mulheres tendem a ser mais abertas à experimentação. Elas exploram com maior frequência diferentes categorias, como brancos, rosés e espumantes, e demonstram maior curiosidade por novas regiões e uvas. Essa característica é extremamente positiva para o mercado, pois impulsiona diversidade, inovação e descoberta.
Há também uma percepção muito clara associada ao vinho e ao estilo de vida. Pesquisas mostram que muitas mulheres enxergam o vinho como uma bebida mais alinhada a hábitos saudáveis e consumo consciente, especialmente quando comparada a destilados. Ele é associado a momentos de convivência, gastronomia e experiências culturais, e não apenas ao ato de beber.

Ao longo dos últimos anos, tenho acompanhado esse movimento muito de perto por meio da Confraria das Granjeiras, um grupo feminino dedicado à cultura do vinho. O que vejo ali é simbólico: mulheres que chegam dizendo que “não entendem nada” e, em poucos encontros, passam a discutir regiões, estilos e harmonizações com entusiasmo. Mais do que aprender sobre vinho, elas descobrem um espaço de voz e autonomia.
Essa mudança no perfil do consumo feminino reflete transformações sociais mais amplas. O vinho passa a integrar o cotidiano das mulheres como um campo de conhecimento, autonomia e decisão. Observa-se hoje um público cada vez mais informado e protagonista dentro da cultura do vinho da atualidade.
Como profissional que acompanha esse movimento de perto, só posso celebrar e dar as boas-vindas a essa nova geração de mulheres que se aproxima do vinho. Saúde!
Paula Porci é consultora, palestrante e colunista de bebidas.
Juíza de vinhos Sommelière de vinhos ABS-SP e AIS-FR e
fundadora da Confraria das Granjeiras.














