Por trás das reclamações mais comuns dos cotianos – buracos nas ruas, mato alto nas calçadas, falta de remédios e demora em licitações – há uma engrenagem que costuma soar contraditória diante de notícias de arrecadação recorde: o controle do caixa. É por esse caminho que a secretária Stefânia Wludarski explica o cenário desde que o prefeito Welington Formiga assumiu, em janeiro de 2025.
“A base do equilíbrio fiscal é não gastar mais do que se arrecada”, diz.
“Quando isso vira recorrente, por vários exercícios, você entra num ciclo de iliquidez e déficit que se torna crônico.”
Para simplificar, usa uma analogia: “O seu salário de 12 meses é o que você pode gastar no ano. Se vai ao cartão de crédito ou faz empréstimo para pagar o supermercado, cria um déficit que tende a crescer.”
Ao assumir, o governo herdou uma dívida com fornecedores de cerca de R$ 294 milhões, da coleta de lixo ao fornecimento de remédios e insumos, afirma a gestora. Alguns contratos venceram no fim do mandato anterior e não houve novas licitações, o que dificultou a continuidade dos serviços. “Muitas empresas foram impactadas ao prestar serviço e não receber”, comenta. Isso também afetou a confiança do mercado: “Quando começamos a abrir licitações, ninguém aparecia. A cidade estava sem crédito junto aos fornecedores pelo histórico de má pagadora.”
Mas e a arrecadação recorde de 2025?
A pergunta aparece com frequência: se arrecadou tanto, por que a cidade segue com problemas? Stefânia aponta a diferença entre gerar imposto e receber recursos. “Em 2025, dos R$ 5 bilhões de impostos pagos pelos cotianos à União, ao Estado e ao município (referentes ao exercício de 2024), apenas R$ 1,5 bilhão retornou ao município”, afirma. “A cidade é o fim da cadeia de distribuição do dinheiro que custeia os serviços públicos.”
Ela diz que, no primeiro ano da gestão, a prioridade foi parar de produzir déficit e recuperar credibilidade, com reorganização de controles e renegociação de contratos. O dado central, segundo ela, foi o fechamento do exercício: “O resultado orçamentário de 2025 foi positivo em R$ 108 milhões.” Ou seja, as despesas correntes do ano foram pagas e sobrou caixa para começar a renegociar e pagar as dívidas. Da dívida herdada com fornecedores, já foi possível quitar pouco mais de 1/3. “Ainda não foi suficiente para zerar os R$ 294 milhões, mas muda o patamar e melhora a nossa situação perante o Tribunal de Contas.”
Dívidas e Equilíbrio Fiscal
R$ 294 milhões (dívida herdada com fornecedores)
1/3 (aprox. 33%) parcela já quitada desta dívida.
R$ 108 milhões de superavit (resultado orçamentário positivo em 2025)
1 mês de receita anual (valor usado para pagar a dívida do CotiaPrev.
E como fica 2026?
Para 2026, Stefânia afirma que a peça orçamentária foi construída com base no plano de governo do prefeito, alinhada aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e considerando propostas do Orçamento Participativo, realizado pela primeira vez em 2025. O orçamento previsto é de R$ 1,8 bilhão, com prioridades em saúde, educação, infraestrutura e segurança.
Arrecadação e orçamento
R$ 5 bilhões (impostos pagos pelos cotianos em 2024)
R$ 1,5 bilhão (valor que retornou ao município em 2025)
R$ 1,8 bilhão (Orçamento municipal previsto para 2026)
Crédito e investimentos
R$ 70 milhões (linha de crédito aprovada no Banco Desenvolve SP.
R$ 100 milhões (linhas de crédito em negociação com o Banco do Brasil.
Orçamento 2026
R$ 502,1 milhões para a Educação
R$ 252,5 milhões para a Saúde
R$ 67,9 milhões para Infraestrutura
O resgate do crédito
A secretária defende o uso de crédito como ferramenta quando direcionado a investimentos e com indicadores fiscais melhores. “O problema não é a dívida para investir; é a dívida para pagar o supermercado”, resume. Ela afirma que esse ciclo foi interrompido e que não há aumento do passivo.
Segundo Stefânia, Cotia já recupera condições para financiamentos: cita uma linha aprovada no Banco Desenvolve SP, de R$ 70 milhões, e outras duas no Banco do Brasil, na casa de R$ 100 milhões. O argumento é que obras estruturais, como drenagem e saneamento, por exemplo, exigem planejamento e não se resolvem apenas com ações de curto prazo.
A dívida com o CotiaPrev
Sobre o CotiaPrev, Stefânia diz que a Prefeitura também recorreu, no passado, ao “cartão de crédito”: em vez de repassar a contribuição patronal, parcelou a dívida. “Do jeito que está hoje, é como se um mês inteiro da receita do município fosse destinado ao CotiaPrev, a cada ano, para pagar essa dívida”, afirma, ao considerar aportes, parcelas de acordos antigos e a contribuição patronal anual.
Uma mulher na Fazenda
Formada em Administração Pública pela Unesp de Araraquara, com especialização em gestão de cidades, Stefânia nasceu em São José dos Campos. Conta que pensou em seguir a diplomacia, mas se apaixonou pela administração pública. Entrou no setor público na Prefeitura de Araraquara, em 2012, e migrou para a área fazendária após participar da elaboração do Plano Plurianual do Meio Ambiente.
Em 2017, foi para São Caetano do Sul e atuou em diferentes funções; na pandemia, trabalhou na Saúde e diz ter reforçado sua visão sobre o papel do recurso público. Em 2025, chegou a Cotia a convite do prefeito para ser secretária adjunta da Fazenda, indicada pela Dra. Miriam Athie (assessora do prefeito junto ao Tribunal de Contas). No início deste ano, assumiu como titular com a transferência do Professor Sales para a Secretaria de Planejamento, Transportes e Mobilidade.
Ela afirma ter sido bem recebida em Cotia, mas relata episódios de machismo sutil, sobretudo em reuniões externas: “Um fornecedor começar a fazer contas para mim como se eu não fosse capaz, ou um advogado tenta me explicar aplicação constitucional da educação. Como seu não soubesse.” E destaca: das cinco chefias de finanças sob sua gestão, quatro são mulheres.
Caso São Caetano do Sul
Stefânia afirma que, antes de vir para Cotia, foi alvo de uma ofensiva política em São Caetano do Sul e que não teve espaço para se defender na imprensa. Nega ter aumentado a dívida do município e diz que criaram uma narrativa de dívida e fraude para sustentar uma disputa política contra o prefeito José Auricchio. Ela afirma ter recorrido à Justiça para obter documentos e diz ter provocado um inquérito sobre possível fraude documental contra ela.
“Esse assunto me causa muita dor… já me fez quase desistir de tudo”, diz. E acrescenta: “Quiseram atingir o prefeito atacando uma mulher, que eles imaginavam mais frágil.”
Serviço:
Secretaria da Fazenda de Cotia
Av. Prof. Manoel José Pedroso, 1347
Tel. (11) 4616-0466.
Por Mônica Krausz












