Bia Figueiredo: nossa musa inspiradora nas pistas

Foto: Cartsten Horst

Pioneirismo e protagonismo definem bem a trajetória desta pilota. Bia foi a primeira brasileira a correr na Fórmula Indy, uma das categorias mais disputadas do automobilismo mundial. Também foi a primeira mulher do mundo a vencer na Firestone Indy Lights e a única a vencer na Fórmula Renault. Há outros marcos: foi a única mulher a conquistar uma pole position na Fórmula 3 e a única a disputar e vencer o Desafio das Estrelas, torneio anual de kart organizado por Felipe Massa. Foi ainda a primeira brasileira a conquistar um lugar no grid e disputar as 500 Milhas de Indianápolis e fez história ao participar das 500 Milhas de Daytona (EUA) em uma equipe formada por mulheres. No Brasil, disputou cinco temporadas completas da Stock Car e, em 2024, conquistou um de seus maiores feitos, ao volante de um caminhão, consagrou-se como a primeira mulher campeã da Copa Truck, na categoria Elite. E ainda encontra tempo para ser empresária, mentorar pilotos, fazer palestras e ser mãe.

Com vocês, um pouquinho mais desta supermulher, representando com força, o mês das mulheres!

Bia, você é a mulher com mais vitórias no automobilismo no mundo. Conte um pouco sobre o início desta trajetória.

Inicio no Kart e primeira vitória em 1994.

Desde muito pequena, entre 2 e 5 anos, eu já me interessava por carros e em casa não havia ninguém ligado ao automobilismo. Mas meus pais assistiam à Fórmula 1 aos Domingos. Era a época em que o Senna vencia na F1 e o Emerson Fittipaldi na Indy. Meu pai percebeu que eu gostava e me levou ao Kartódromo de Interlagos, por volta de 1993, para assistir a uma prova. Eu amei e fiquei insistindo que queria correr. Em 1994, entrei na escolinha de kart.

Atualmente, ainda são poucas as mulheres nas pistas, como era há mais de duas décadas atrás?

Em 1994 praticamente não havia mulheres. Na escolinha de kart eu era a única menina e eles me olhavam assustados: “o que ela está fazendo aqui? ”. No kart, fui encontrando poucas meninas pelo caminho, como a Leticia Gianetti (na Júnior). Teve também a Cristina Rosito, na Fórmula no começo dos anos 90. Já nos anos 2000, quando eu tinha uns 15 anos, conheci a Suzane Carvalho, na Fórmula 3. Mas era raríssimo.

 

Você é uma das desbravadoras no automobilismo feminino.

Eu acabei desbravando parte disso com resultados: venci em categorias do kart, fui vice-campeã brasileira e paulista e campeã da Copa Petrobrás. Isso me deu chance de subir para o automobilismo.

Na Fórmula Renault, em 2004 e 2005, apareceram nomes como a Danica Patrick, nos EUA, e a Sarah Fisher. Tivemos mulheres importantes, mas sempre foi difícil. Hoje temos mais representatividade, principalmente na base, o que é ótimo. E agora, como presidente da Comissão Feminina, apoiamos iniciativas para meninas e mulheres em várias áreas: pilotagem, jornalismo de automobilismo, mecânica, engenharia, eventos, logística.

Hoje você dá esse apoio e direcionamento, mas quem te inspirou no início?

Com Nelson e Nelsinho Piquet em 1994. Bia e Nelsinho competiram por muitos anos no Kart.

Acho que virei referência para as meninas. Eu fico muito feliz quando elas chegam e dizem que conhecem minha trajetória, que querem correr e que se inspiram na minha história. Sinto responsabilidade. Eu sempre fiz o meu melhor porque amo o automobilismo. Se isso abriu portas para uma nova geração, me dá muito orgulho. Mas, nos anos 90, uma menina no kart não era algo comum. E existe aquela “brincadeira” mundial de que mulher não sabe dirigir; imagina, então, no carro de corrida. Perder para mim, de uma mulher, era vergonhoso – e ainda existe um pouco disso, embora estejamos em 2026. Muitas vezes a mulher é diminuída, como se fosse inferior. E, quando ela se destaca, alguns homens sentem aquilo como humilhação. No kart, não foi fácil: quando eu vencia ou estava disputando, os meninos faziam de tudo para não perder.

Teve alguma história marcante de preconceito?

Recebendo o prêmio Rising Star Award (Estrela Ascendente), de Greg Moor, pelo brilhante campeonato na IndyLights, em 2008.

O presidente da Federação Paulista de Kart me contou que, na minha época, precisou suspender um pai que bateu no filho porque o menino perdeu para mim. Então imagina o clima. Eu era jogada para fora da pista, era muito difícil. Mas eu aprendi a me defender: bateu em mim, eu batia de volta, para impor respeito. Com o tempo, as vitórias foram amenizando, porque viram que eu não estava ali para brincadeira. Essa questão melhorou quando fui para os Estados Unidos: lá os pilotos não ligavam se era homem ou mulher. Foi uma luta, mas sobrevivi e tive sucesso.

 

 

 

Diferente de outros esportes onde há categorias só para homens e outras, exclusivamente para mulheres, no automobilismo homens e mulheres disputam de igual para igual. Você acha isso legal?

 

Uma das maiores delegações brasileiras no Mundial de Kart em 2000. Destaque para Bia, Di Grassi, Nelsinho Piquet e Augusto Farfus, que chegaram a altos níveis no automobilismo mundial.

 

Eu sempre corri em categorias mistas. Depois surgiram algumas iniciativas só para mulheres. No Brasil houve a Turismo, feminina. Mais recentemente, a W Series teve 3 ou 4 anos e acabou. Existe também a F1 Academy, iniciativa da Fórmula 1 para incentivar meninas, que começou há cerca de três anos. Eu, particularmente, acho que homens e mulheres conseguem competir juntos. O grande problema ainda é a pequena quantidade de meninas no esporte. Numa competição de kart no Brasil, você vê 500 meninos e 5 meninas. Com tão poucas, fica difícil aparecer muitos talentos femininos.

 

 

Mas as diferenças físicas, de força não interferem?

Uma de suas oito vitórias na Copa Truck. Foto: Rodrigo Aguiar Ruiz/RR Media

Eu já venci corridas contra homens e acredito que as mulheres possam, sim. Existe a questão física, que não é simples, mas o automobilismo exige mais resistência do que força. Você vira o volante centenas de vezes, troca de marcha… é resistência. Eu acredito que dá para competir de igual para igual. Ao mesmo tempo, como participo de comissões, sei que há estudos e conversas sobre categorias masculinas e femininas no automobilismo.

Fale sobre sua participação na Comissão Feminina da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA).

Bia é Presidente da Comissão Feminina de Automobilismo e lidera a instituição com a engenheira Rachel Loh. Foto Duda Bairros.

Hoje estou presidente da Comissão Feminina, criada em 2023, na gestão do Giovani Guerra, presidente da CBA. Ele me conhece desde que eu tinha 8 anos e é um grande entusiasta do automobilismo. Na minha opinião, um dos melhores presidentes que a CBA já teve.

Na Comissão também está a Raquel Ló, minha engenheira na Copa Truck, além de oito ou nove meninas voluntárias nos projetos. Ao todo, nas ações e eventos, recebemos cerca de 2 mil mulheres por ano. Hoje, somos a comissão no mundo que mais realiza projetos e mais alcança mulheres e isso me dá muito orgulho.

A Comissão Feminina foi criada recentemente e já recebeu o primeiro prêmio internacional da CBA como o melhor projeto de desenvolvimento do automobilismo das Américas, já em 2023, no nosso primeiro ano.

E tem a Comissão da FIA?

Detalhe do capacete usado em 2017.

Sim. Eu também estou representante da Comissão de Mulheres da FIA para a América do Sul. Essa comissão nasceu em 2008. A primeira presidente foi a Michèle Mouton, grande pilota de rali. Ela foi criada na época do Jean Todt, então presidente da FIA, para incentivar mulheres.

 

 

 

A participação feminina tem crescido?

Equipe Feminina na IMSA (Le Mans Americana) em 2019. Jack Heinricher, Christina Nielsen, Katherine Legge, Simona de Silvestro e Bia Figueiredo.

Tem crescido, sim. Vemos mais meninas começando no kart e aparecendo com destaque no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. E vemos mais mulheres nas equipes, inclusive em categorias grandes como Fórmula Indy e Fórmula 1, nos bastidores e áreas técnicas.

Aqui no Brasil, nos últimos três anos, aumentamos o percentual de pilotas: começamos com 3% e estamos indo para 5%. Ainda é um crescimento tímido, abaixo do que gostaríamos, mas é avanço.

Do Kart à Copa Truck? Qual foi a sua categoria preferida?

Posando para fotos nas 500 Milhas de Indianápolis, em 2013.

Eu brinco que gosto de tudo o que tem de quatro a seis rodas porque, na Copa Truck, são seis. Mas a preferida é a Fórmula Indy, pela dificuldade de chegar lá. Assim como a Fórmula 1, é uma das grandes categorias do mundo: são poucas vagas para muitos pilotos. Chegar nesse nível é passar por um funil enorme.

 

 

“Em 32 anos de carreira, fui do kart à Copa Truck, passando por Fórmula Renault, Fórmula 3, Indy Lights, Fórmula Indy, 500 Milhas de Indianápolis, Stock Car, Sports Car americana, TCR Sul-Americana e Copa Truck. Falta só Fórmula 1.Foi na Copa Truck que me encontrei como campeã: disputei muitos títulos, mas o maior, um sonho, veio em 2024. Sou muito feliz e tenho orgulho dessa trajetória.”

Qual foi a categoria mais difícil de disputar?

Um dos podiuns na IndyLights, em 2008.

Eu acho que foi a Indy e a Stock Car, pelo nível de competitividade e pelo nível altíssimo de pilotos.

E os caminhões? Não são pesados demais?

Todo mundo tem essa impressão, que os caminhões são brutos e difíceis, mas não é bem assim. Sendo sincera, para mim é uma das máquinas mais sensíveis que já guiei e até leve, porque tem direção hidráulica e um sistema de freio a ar muito sensível.

 

 

Você persegue o pioneirismo ou é o pioneirismo que te persegue?

Quando comecei, eu não pensava em ser a primeira mulher em tudo. Eu só achava aquilo muito legal. Hoje dou mais valor a isso do que na época. Sempre me vi como uma pilota competindo em igualdade com os homens, e só depois entendi a importância das conquistas para as mulheres. Não busquei o pioneirismo; foi acontecendo, pela paixão e pela performance.

De todos os desafios que você já encarou no automobilismo qual foi o mais difícil e por quê?

Acho que o maior desafio para qualquer piloto, homem ou mulher, é o financeiro. É um esporte muito caro e exige muito investimento.

Por que a gente não vê mulheres na Fórmula 1?

Pela falta de meninas na base fica mais difícil surgir um supertalento que chegue à Fórmula 1. A F1 é o funil do funil: a categoria mais difícil e competitiva, que exige muito. Precisamos de mais meninas começando para que apareça uma pilota nesse nível. Mas já tivemos mulheres na Fórmula 1. A italiana Giovanna Amati, nos anos 90, foi uma delas.

E entre tantas conquistas e pioneirismo, em 2020 você se tornou mãe pela primeira vez e em 2021, teve seu segundo filho. É fácil ser mãe nesta “correria” toda?

Bia comemora o título da Copa Truck com os filhos Murillo e Mateo (5 e 4 anos)

Eu tive filhos na pandemia: o Murilo em 2020 e o Mateus em 2021. Ser mãe é uma nova carreira e uma correria grande: além do trabalho, eu foco muito neles e tento estar perto quando posso. Na temporada, viajo bastante e dá saudade. Eu me considero uma supermãe, apaixonada por eles.

 

 

 

“Eu brinco que, depois que virei mãe, o que eu fazia em cinco horas, hoje tenho que fazer em uma para dar tempo de ficar com eles.”

 

Você pretende colocar seus filhos no automobilismo?

Pretendo. Assim como no tênis ou no futebol, acho que eles têm que experimentar. O automobilismo desenvolve concentração, reflexo e coordenação. Então, no mínimo, eles vão tentar. Eu quero que façam algum esporte, porque é um aprendizado de vida. Se vão gostar e querer seguir profissionalmente, aí é outra história.

Fotografia by Duran, em 2013.

Que desafios você pretende encarar em 2026?

Na Copa Truck, eu mudei de equipe e de montadora: este ano corro pela Iveco, na equipe Dakar. É um caminhão novo, uma equipe nova, tudo diferente. Vai ser um desafio e espero me adaptar bem.[Quebra da Disposição de Texto]Os projetos da Comissão Feminina também seguem firmes: queremos melhorar a qualidade e trazer mais meninas. Eu trabalho ainda com a Antonella Bassani, pilota da Porsche Cup: sou mentora e empresária dela desde que tinha 12 anos. Este ano ela vai para a Carrera Cup.

Com que idade você está hoje? O automobilismo tem idade limite?

Hoje estou com 40 anos. No automobilismo, há pilotos competindo bem até 50 ou 60. O Carlos Sainz, do rali, tem mais de 60. Eu não acho que vou chegar a tanto, mas me vejo ainda alguns anos como pilota. Enquanto eu tiver paixão, estiver andando bem e com possibilidades, vou continuar. E, ao mesmo tempo, faço trabalhos paralelos dentro do automobilismo: Comissão Feminina, mentoria… Eu me vejo no automobilismo para o resto da vida; como pilota, por mais alguns anos.

Você tem números bastante expressivos nas mídias sociais e muito mais seguidores do que seguidoras? Por quê?

O público do automobilismo ainda é muito masculino. Na maioria das vezes, são os homens que acompanham o esporte. Se você olhar o público dos pilotos, mais de 70% são homens. As mulheres estão cada vez mais interessadas, mas ainda são minoria.

Quais os serviços prestados pela Biaracing?

A Biaracing é uma empresa de prestação de serviços no automobilismo. Gerencia minha carreira como pilota e a da Antonella Bassani. Também faz palestras, transmissão de corridas e projetos automotivos.

Vamos falar um pouquinho de Granja Viana? Você estudou no Colégio Rio Branco de que ano a que ano?

Eu morava no Taboão da Serra, mas estudei no Rio Branco praticamente toda a infância e adolescência. Tenho ótimas lembranças e um carinho enorme pela escola. Entrei com 6 ou 7 anos e fui até me formar. Fiz amigos que me acompanham até hoje. Então frequentei muito a Granja por conta disso, além do Kartódromo da Granja Viana.

Você ainda frequenta o Kartódromo da Granja Viana?

Frequentei muito desde o início, em 1998. Participei de várias competições lá. Hoje eu vou mais por causa das 500 Milhas, uma prova de fim de ano bem festiva e divertida. Para mim, é talvez o kartódromo mais bem estruturado e bem cuidado do Brasil, pela família Giaffone. Aproveitei muito e curto até hoje. Além do kartódromo e do Rio Branco, eu gosto do centrinho: tem restaurantes muito bons. Às vezes vou ao shopping com a família e tomo café da manhã na Dona Deôla.

Por Mônica Krausz

 

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