
Nos últimos anos, uma expressão passou a aparecer com frequência nas cartas dos restaurantes, nas prateleiras das importadoras e nas conversas entre apreciadores de vinho: vinhos vulcânicos.
Mas, afinal, existe mesmo um “sabor de vulcão” na taça ou estamos diante de mais uma tendência criada pelo marketing do vinho?
Como acontece quase sempre nesse universo, a resposta está em algum lugar entre os dois extremos.
Antes de tudo, vale esclarecer um ponto importante: um vinho vulcânico não é produzido sobre lava recém solidificada nem em áreas de atividade vulcânica intensa. O termo se refere a vinhedos plantados em solos formados, total ou parcialmente, pela ação de antigos vulcões. São solos ricos em rochas basálticas, cinzas vulcânicas, pedra-pomes e outros materiais resultantes de erupções ocorridas, muitas vezes, há milhares ou milhões de anos.

E esses solos estão espalhados por algumas das regiões mais fascinantes da viticultura mundial. Talvez o exemplo mais emblemático seja o Etna, na Sicília. Nas encostas do maior vulcão ativo da Europa, vinhas antigas convivem com um terroir extremo, onde altitude, grandes amplitudes térmicas e solos negros de origem vulcânica dão origem a vinhos de enorme personalidade. A uva tinta Nerello Mascalese produz exemplares elegantes, com taninos finos, acidez vibrante e relativa capacidade de envelhecimento. Já a branca Carricante entrega vinhos frescos, aromáticos e extremamente gastronômicos.
Outro destaque é a ilha grega de Santorini, onde a variedade Assyrtiko encontrou um dos seus maiores refúgios. Com pouca chuva, ventos intensos e solos vulcânicos pobres em matéria orgânica, a ilha produz brancos marcantes, de acidez cortante e notável longevidade. Não por acaso, muitos críticos consideram a Assyrtiko uma das grandes uvas brancas do mundo.

Na Espanha, as Ilhas Canárias vêm despertando enorme interesse entre consumidores e especialistas. Os vinhedos, muitos deles em pé-franco graças ao isolamento geográfico que os protegeu da filoxera, produzem vinhos únicos a partir de variedades como Listán Negro, Listán Blanco e Negramoll, combinando frescor e identidade muito própria.
Também merecem atenção regiões como os Açores, em Portugal, onde a uva Arinto dos Açores cresce praticamente sobre rochas vulcânicas à beira do Atlântico, além de áreas do Soave, no norte da Itália, onde a Garganega se desenvolve sobre solos basálticos de origem vulcânica.
Mas será que o solo vulcânico, sozinho, é responsável pelo estilo desses vinhos?

A ciência mostra que a resposta é mais complexa do que muitos imaginam. Não existe evidência de que minerais presentes nas rochas passem diretamente para o vinho e sejam percebidos pelo paladar. A famosa “mineralidade” que tantos descrevem não significa que estamos degustando minerais dissolvidos na bebida. O efeito do solo acontece de forma indireta.
Os solos vulcânicos costumam apresentar excelente drenagem, obrigando as raízes a buscar água e nutrientes em profundidade. Além disso, muitos deles armazenam calor durante o dia e o liberam lentamente à noite, favorecendo uma maturação equilibrada. Em diversas regiões vulcânicas, fatores como altitude, proximidade do mar, ventos constantes e grandes variações de temperatura entre o dia e a noite completam um conjunto de condições que ajuda a preservar a acidez, concentrar aromas e produzir vinhos de grande elegância.
Em outras palavras, o vulcão não cria um sabor específico. Ele participa de um ambiente muito particular, onde solo, clima, variedade da uva, relevo e manejo do vinhedo trabalham em conjunto para construir a identidade do vinho.
Talvez seja justamente essa identidade que explique o crescente fascínio pelos vinhos vulcânicos. Em uma época em que consumidores buscam autenticidade e histórias verdadeiras por trás dos rótulos, essas regiões oferecem exatamente isso: paisagens dramáticas, vinhas muitas vezes centenárias e vinhos que dificilmente se parecem com qualquer outro.

Se você ainda não explorou esse universo, vale incluir um vinho vulcânico na sua próxima degustação. Os rótulos do Etna, na Sicília, vivem um momento de grande destaque, mas regiões como Santorini, as Ilhas Canárias e os Açores também oferecem exemplares que merecem atenção. Apenas não espere encontrar um “gosto de vulcão” na taça. A verdadeira descoberta está em perceber como um terroir singular é capaz de imprimir identidade e personalidade ao vinho.
Paula Porci é consultora, palestrante e colunista de bebidas. Juíza de vinhos, Sommelière de vinhos ABS-SP e AIS-FR e fundadora da Confraria das Granjeiras.















