George Orwell escreveu e publicou sua obra-prima, 1984, no ano de 1948. Ele imaginou, num futuro não distante, um romance distópico numa sociedade aprisionada pelo totalitarismo sob o comando do onipresente Grande Irmão, o “Big Brother”, que a todos vigiava através de uma teletela instalada em residências, cafés, restaurantes e locais de trabalho, e pela Polícia do Pensamento, que prendia quem se atrevia a ter ideias diferentes da ordem política local. O mais impressionante nesse livro é como a sequência de suposições ficcionistas por ele idealizada hoje acontece naturalmente no nosso cotidiano. A “Novílingua”, termo forjado no livro para definir palavras que ganham novos significados em benefício do partido; o “Duplipensar”, fraude consciente em que se defendem conceitos contraditórios. Saber da verdade, mas exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender o imoral em nome da moralidade, a lógica contra a lógica e sempre a favor do partido. Já vi esse filme nas pérolas que compõem os discursos de muitos dos nossos políticos. Especialmente os daquele partido que ficou 13 anos no poder e agora se comportam como o santo do pau oco. Só o “duplipensar” para explicar que Lula, que se diz o representante supremo dos pobres, só se hospeda em hotéis cinco-estrelas, viaja de jato particular, cobrava R$ 500.000,00 por uma simples palestra e só se relacionava com a elite empresarial corrupta do país. No livro, o emprego inicial do personagem que narra a ação, Winston, era o de um jornalista/historiador membro do partido dominante, que trabalhava para o “Ministério da Verdade”. Sua função era a de reescrever e alterar dados históricos, de acordo com os interesses do partido. Ele reescrevia o passado e manipulava o presente. Nada diferente do que fez Donald Trump, por intermédio de blogueiros, para ganhar as eleições americanas. Ou ainda o que fazem os tais blogs sujos no Brasil. Inventam notícias falsas para difamar a imagem de um inimigo ou de uma instituição. As redes sociais e os internautas desinformados são alvo fácil e caem como patinhos nessa esparrela. Até o Zuckerberg, chefão do Facebook, preocupado com a proliferação de notícias falsas, lançou “polices” para conter os mentirosos profissionais. Voltando ao Brasil, os discursos no Congresso, em geral, explanam exatamente o contrário daquilo que desejam dizer. É a Novilíngua tupiniquim. Os desmentidos, em geral, entoam o mesmo mantra falsóide que permeia a classe. A prática do contorcionismo linguístico para nos ludibriar grassa Brasília adentro: – Repilo veementemente tal acusação! Tradução: Putz! Descobriram minha participação na propina! – Duvido que tenha alma mais honesta que a minha! Tradução: é agora que o Moro me pega! – Nego peremptoriamente! Sou vítima de perseguição! Vou provar minha inocência! Tradução: eu pego o desgraçado que me delatou! E por aí vai. Vejam algumas palavras da Novilíngua política que assola nosso país e seus significados: Avanços=recuos, base aliada=base alugada, blogueiro progressista=jornalista fracassado que escreve a serviço de um partido, bolivariano=comunista que finge que não é comunista, bolsa família=programa de compra de votos, cargo de confiança=empregão reservado aos companheiros, comunidade=favela, contrato sem licitação=assalto aos cofres públicos, controle social da mídia=censura, Copa do Mundo 2016=negócio da China, crime organizado=Governo desorganizado, cueca=cofre de aluguel, debate qualificado=eu tenho razão e você está errado, elite golpista=todos os que não votam no PT, inclusão social=transferência de pobres para a classe média sem aumento salarial, malfeito=crime praticado contra o Erário, Olimpíada 2016=negocião da China, Petrobras=buraco negro, recursos não contabilizados=caixa 2 dinheiro extorquido de empreiteiras, revisão de contrato=reajuste de propinas, segundo escalão=cabide de empregos, sindicalista= pelego rico, zica=Zika.
Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas.















