Bia Haddad Maia: memórias afetivas na Granja, conquistas no mundo

Bia Haddad Maia foi a primeira brasileira a chegar a uma semifinal de Roland Garros desde 1968 e, em 2023, chegou ao Top 10 mundial em simples e duplas.

Filha e neta de praticantes do tênis, por parte de mãe, Bia Haddad Maia carrega o esporte no DNA. Com seus 1,85m de altura, também poderia ter optado pelo basquete – paixão do lado paterno -, mas se encantou pelas raquetes e levou os seus saques certeiros até o outro lado do mundo. Questionada sobre os seus lugares preferidos ela não titubeia: Brasil e Japão.

E no Brasil, tem um cantinho especial, onde guarda as melhores memórias de infância: a Granja Viana, na casa da avó, Teresa Maia ou na casa do tio Rolando Boldrin, onde uma quadra de tênis ganhou uma plaquinha com o seu nome em homenagem à sobrinha campeã.

Pouco afeita a entrevistas, esta atleta que já esteve entre as Top 10 do mundo aceitou conversar com exclusividade com a Revista Circuito justamente para lembrar e homenagear suas raízes na Granja Viana. Lembrar o “cheiro” da avó, as canções do tio e as memórias que a acompanham pelo circuito mundial.

Nesta conversa, ela fala das glórias e dos sacrifícios da profissão, da saudade de ficar em casa, ao lado de quem ama e da oportunidade de conhecer o mundo e outras culturas. Dá dicas para quem está começando no esporte e reflete sobre o futuro. Embarque nessa viagem com a gente!

Você joga tênis desde muito nova. Conte-nos como o esporte entrou na sua vida.

Tênis no DNA: raquete na mão com 1 ano e meio de idade.

Comecei a jogar tênis por influência da minha família, por parte de mãe. Meus avós, minha mãe e minhas tias jogavam tênis. E, por parte de pai, havia o basquete. Meus pais se conheceram no clube, praticando esportes. Então, desde cedo, fui incentivada a conviver nesse ambiente. Eu fiz judô, futebol, ginástica olímpica, tênis, natação… E o tênis acabou sendo, a partir dos 11 ou 12 anos, o esporte que eu segui até hoje.

Sua carreira profissional começou na adolescência. Você teve de abdicar de muita coisa para trilhar o seu caminho no esporte?

Bia na quadra do Clube Pinheiros aos 11 anos de idade.

Acho que, em toda profissão, para alcançar e performar em alto nível, a gente precisa renunciar a muita coisa e trabalhar muito duro. No meu caso, isso começou cedo, ainda no colégio. Eu faltava bastante à escola e acabava não estando presente em datas especiais – aniversário, Natal, final de ano, Páscoa – quando a família costumava estar reunida. Com 14 anos, fui morar no Sul, em Balneário Camboriú. Morei longe dos meus pais, ainda novinha, para buscar um lugar melhor para treinar. A distância, com certeza, é a parte mais difícil da nossa profissão. Por outro lado, existe o privilégio de conhecer muitos lugares e culturas, conviver com outras pessoas, aprender e fazer amizades no mundo todo.

O ano de 2023 foi glorioso em sua carreira: você foi a primeira brasileira na semifinal de Roland Garros desde 1968 e chegou ao Top 10 mundial em simples e duplas. Esperava por tanto?

2023 foi um ano muito positivo. Desde cedo, trabalho duro para viver momentos como esse e sigo trabalhando para alcançar outros. Mas a gente nunca sabe quando vai acontecer. O tênis envolve muitas coisas que precisam estar conectadas para a gente sair vitoriosa de um jogo. Não depende só da gente.
Foi um ano muito especial e que, com certeza, me motiva a seguir firme e trabalhando pelo que vem pela frente.

Que outros momentos você destaca como marcantes na sua trajetória de atleta do tênis?

Eu falaria de três momentos muito bons. O primeiro foi em 2022 em Toronto: onde tive uma semana muito especial, em que joguei em alto nível contra jogadoras muito boas, num torneio Master 1000, e cheguei à final, vencendo a número 1 do mundo naquela semana. Foi muito importante para mim.

Também fiz uma sequência de jogos na grama em que eu ganhei dois campeonatos seguidos e fui semifinal do terceiro. Se não me engano foi o maior número de vitórias consecutivas na grama, pelo menos no feminino, no período que antecede Wimbledon. Isso foi muito marcante na minha carreira.

E o terceiro foi o WTA do final do ano, com jogadoras do 9º ao 16º do ranking, para o qual que eu me classifiquei em 2023. Fui campeã e, embora eu não viesse de boas sequências de vitórias, nas semanas anteriores, consegui virar uma chave e vencer em simples e duplas na mesma semana, terminando o ano entre as TOP 10.

Sua trajetória representa muito mais do que vitórias. Você é símbolo de representatividade no esporte, de força feminina e de superação. Quais são as mulheres que te inspiram?
Maria Esther Bueno *, minha avó e minha mãe.

* A tenista brasileira Maria Esther Bueno foi a número 1 do mundo em simples em 1959, 1964 e 1966. Conquistou 19 títulos de Grand Slam (simples, duplas e duplas mistas), imortalizada no Hall da Fama do Tênis.

Que dicas você dá para quem está começando?

Bia com o tenista Gustavo Kuerten.

Eu diria para procurar pessoas que tenham o mesmo objetivo e um ambiente em que todos vibrem pela mesma coisa. Trabalhar duro, mas, ao mesmo tempo, conseguir desfrutar do processo: se divertir, aproveitar o lugar onde eles estão jogando, seja o clube, a cidade onde eles estiverem. E ter paciência porque a jornada do tênis é longa. É uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Haverá muitos altos e baixos. É preciso saber lidar com estes momentos com muita serenidade.

O que o tênis traz de melhor para os seus praticantes?

É um esporte que te ensina muito. Às vezes, ele é bem duro, mas é bastante justo. Ensina a ter respeito, ser resiliente, ter paciência, lidar com frustrações e erros, e voltar para o eixo o mais rápido possível. Ensina a entender o que você precisa melhorar dentro e fora das quadras. Ele acaba sendo um espelho do que você é fora da quadra também. Então ele também pode ser uma forma de melhorar como pessoa.

Quais são as maiores dificuldades nesta carreira esportiva?

Com o troféu de campeã em Singles do Hana Bank Korea open 2024.

A maior dificuldade é ficar longe das pessoas que você ama. É a distância. São muitas semanas longe. A gente geralmente viaja no final de dezembro. A temporada acaba em meados de novembro e nesse intervalo, precisamos descansar, só que temos que fazer a pré-temporada, com treinos muito duros. E ainda conciliar tudo isso com a vida pessoal, com a família e os nossos amigos. É um preço muito alto que a gente tem de pagar em relação a isso.

Você pensa em um dia treinar outras meninas para seguir seus passos no tênis?

Por enquanto, não tenho isso claro. Mas não sabemos o dia de amanhã. No momento, acho que, quando eu parar de jogar, vou querer ficar um pouco mais em casa, com a minha família. De alguma forma, porém, sempre estarei ligada ao tênis. Tentando ajudar de um jeito diferente, talvez sem viajar o circuito. Eu viajo desde pequena, por muito tempo, então gostaria de passar um período mais perto da família. Gostaria de ter filhos também, então, a logística fica um pouco mais difícil. Mas não descarto essa possibilidade. Pretendo jogar enquanto me sentir saudável e motivada a melhorar nos treinos e jogos.

Recentemente, você encerrou a parceria com o técnico Rafael Paciorini, que te acompanha desde 2020. Gostaria de comentar sobre esta nova fase sem ele? Já tem outra pessoa te acompanhando?

Sim, eu e o Rafa encerramos o trabalho após o torneio de Merida, depois de Doha. Tem sido uma fase nova, em que estou buscando fazer as coisas com bastante calma. Não estou tomando nenhuma decisão precipitada; estou tentando me ouvir e entender o que é melhor para mim neste momento. Sou muito grata pelo que a gente trabalhou e viveu. Foram momentos muito bons, especiais e que, com certeza, estarão comigo até o final da minha carreira.

Fora das quadras, quais são seus hobbies e interesses? Como você equilibra a vida pessoal e profissional?

Eu gosto bastante de comer. Gosto de passear, conhecer as cidades onde eu vou jogar, experimentar comidas e visitar os lugares. Quando eu estou em casa, procuro aproveitar para ficar mais com a minha família, meus amigos e com o meu namorado. E, quando eu estou viajando, com o meu time, a gente tenta equilibrar: dentro da rotina profissional, buscar conhecer “cantinhos” do mundo, o que é um privilégio na nossa profissão.

Quais são seus métodos para evitar o esgotamento e cuidar de si mesma?

Procuro ler vários livros, estar com pessoas que me fazem bem e fazer terapia.

Quando Rolando Boldrin faleceu, você fez um post emocionado de homenagem a ele. Em outra publicação, escreveu: “Privilégio é o meu de ser a sua sobrinha e poder aprender com você mesmo de longe.” Como era a relação entre vocês?

Com o tio Rolando Boldrin na Granja Viana.

Minha tia, irmã do meu pai, era casada com ele. Então, desde pequena, a gente conviveu bastante. O Rolando era uma pessoa muito especial, que reunia a todos. Ele tinha uma forma muito carinhosa de cuidar da família toda. Costumava ler um texto, alguma poesia, ou passar uma mensagem pra gente com o violão, antes de cantar os “parabéns”, ou em alguma data especial em que estivéssemos juntos.

Nos últimos anos eles moraram numa casa que tinha uma quadra de tênis e fizeram uma plaquinha com o meu nome: Bia Haddad Maia. Posso dizer que a primeira quadra de tênis com o meu nome foi na casa deles na Granja Viana e isso, para mim, é muito especial.

Na quadra que leva seu nome, na casa da família, na Granja Viana,

E a Granja Viana, que lugar tem em sua vida?
Normalmente, quando eu estou aqui, que é um momento bem raro, a gente tenta, pelo menos uma vez, passar um dia na Granja Viana, onde eles moraram. Meu avô sempre morou aí com a minha avó Teresa, e sempre foi muito especial. É um lugar de onde eu tenho boas memórias. De passar aniversários, de estar na casa deles, que sai um pouquinho daquela loucura de trabalho de São Paulo. É um lugar que me lembra bastante a minha família.

Moradora antiga da Granja Viana e uma ativista socioambiental, sua avó Teresa Maia foi homenageada com um parque em seu nome. Quais memórias você guarda dela?

Bia no colo do avô Ayrton e a irmã Andrea com a avó Teresa.

A vó Teresa era uma pessoa muito carinhosa. Uma mãezona, sempre cuidando de todo mundo e preocupada com todos. Infelizmente, tenho poucas memórias de convivência porque eles moravam na Granja e a gente morava em São Paulo, então acabávamos nos vendo pouco. Mas, por incrível que pareça, o que eu sempre lembro dela e nunca esqueci, é do cheiro dela. Sempre lembro dela de uma forma muito alegre e sorridente. Ela deixou um legado, não só para a nossa família, mas para a Granja Viana. Era muito querida por todos. As pessoas tinham um carinho enorme por ela. Foi um grande privilégio ser neta dela. Ir de vez em quando ao Parque Teresa Maia é muito especial para toda a família.

Qual seu lugar preferido no mundo?
Bia: Brasil e Japão.

Artigo anteriorCom apoio da Universidade de Princeton (EUA), Mentoria Pé-de-Meia dá suporte a estudantes do ensino médio na escolha da futura profissão.
Próximo artigoExposição celebra 80 anos da Fundação Dorina Nowill no Museu da Inclusão