Esta entrevista só pôde começar depois que o senhor Celço Fecchio (assim mesmo, com ç), com 81 anos de idade, adiantou parte do trabalho mecânico que realizava em um carro, na oficina que completou 90 anos e é a mais antiga de Cotia, onde ele trabalha desde os 10 anos de idade. Ao lado de seus filhos Guidinho e Celsinho ele interrompeu seu trabalho – por apenas alguns minutos, pois precisava terminar o serviço – para contar um pouco da história da família, que se mistura com a da cidade de Cotia.
Mas esta história começa do outro lado do oceano, na região de Veneza (Itália), onde nasceu o senhor Guido Fecchio, que em 1927 aportaria no Brasil para construir sua vida e a de sua família em Cotia, inicialmente trabalhando na construção da barragem Pedro Beicht, no Morro Grande. A oficina começou a funcionar em 1929, no centro de Cotia, próximo da Praça da Matriz, onde também estava a residência da família.
São muitas histórias que seu Celço foi lembrando aos poucos, entre uma saída e outra para fazer o reparo do carro. Apesar de já aposentado, ele não abre mão de trabalhar todos os dias na oficina. É aquele tipo de profissional que nunca frequentou um curso de mecânica ou funilaria, aprendeu o ofício com o pai. E tem sua clientela cativa.

A Rua Guido Fecchio, no centro de Cotia, antiga rua Projetada, homenageia seu pai, político por natureza, que nunca exerceu um cargo público, mas foi responsável pela eleição de nomes importantes na cidade, como Ivo Pires e Carmelino Pires, este último autor da homenagem. “Estava sempre buscando alternativas, ajudando as pessoas”, lembrou seu Celço. Seu Guido morreu em 1974, após um infarto, tomado pela emoção ao assistir na TV o incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo. “Ele havia passado no médico recentemente e estava com a saúde em dia, mas não suportou a cena de um homem pulando do prédio em chamas”, lamentou Guidinho, que carrega o nome do avô.
O italiano Guido Fecchio e sua esposa, Alice Fecchio, além do seu Celço, tiveram mais sete filhos, todos nascidos em Cotia e morando na cidade até hoje: Edmir, Luiz, Evaldo (falecido), Elza (falecida), Terezinha, Cecilia e Nelson (falecido).
Celço Fecchio é casado há mais de 60 anos com a senhora Dirce de Moraes Fecchio, com quem teve cinco filhos: Alice, Guido, Celso, Marlene e Regiane.
Ao lembrar de sua infância e juventude em Cotia, ele demonstra em seu semblante uma certa melancolia que só os que viveram naquela mesma época na cidade entenderão. Lembrou que tudo acontecia, mesmo, na Praça da Matriz, o ponto de encontro dos jovens. O bar do seu Guerra, o bar da dona Elza, os bailes que ocorriam no cinema do Jilbram foram sendo resgatados de sua memória em voz calma e baixa. As compras eram feitas e marcadas na caderneta do Armazém São José, que, posteriormente, seria o Supermercado Pedroso.
Saudade, mesmo, ele diz sentir das boas amizades, das pessoas. “As portas de nossas casas viviam abertas, ninguém entrava, não tinha crimes, todos se conheciam”, comenta. “O réveillon era uma via sacra, todo mundo saía às ruas e passava de casa em casa para desejar Feliz Ano e confraternizar”, completou Guidinho. “Quem disse que hoje é possível fazer isso?”, lamentou o pai.
Sobre política, preferiu lembrar apenas daquela feita por seu pai, Guido, um “adhemarista” que foi presidente do Partido Socialista Progressista (PSP) local. Seu Celço também foi testemunha do empenho do grupo formado por Yano, Viviani, Odair Pacheco, doutor Oswaldo e outros tantos para a construção do Hospital de Cotia e também do famoso foguete Sputnik, construído pelo grupo nos anos 1960, que nunca saiu do chão, não passando de uma grande brincadeira para afrontar o prefeito da época. E não esqueceu do seu Aurélio da Farmácia, “um homem bom que ajudava a todos”. Da dona Luzia que, aos sábados, ia para a praça da Matriz distribuir chocolate para as crianças. Dos desfiles das escolas no aniversário da cidade, das fanfarras e bandas das quais seus filhos participavam. “Todas as escolas tinham sua banda”, completou Guidinho.
Ele também acompanhou a mudança da Rodovia São Paulo–Paraná, transformando-se em Raposo Tavares. Foi ele, também, quem trouxe para a cidade o primeiro Guincho, que era um pouco diferente do modelo que conhecemos hoje, o carro era içado com força humana. O serviço de guincho, hoje, é feito por Guidinho. O primeiro posto de gasolina da cidade ficava na sua oficina, que hoje mudou para a Avenida José Barreto. E após a Segunda Guerra Mundial (que terminou em 1945), teve racionamento de combustível. “Só podia vender gasolina para carros liberados pela prefeitura, ambulância, polícias e carros oficiais”, lembrou Celço.
Foi a partir dos anos 1990 que ele e seus filhos consideram que a cidade começou a passar por grandes transformações. A Raposo Tavares permitiu que a cidade ganhasse novas empresas e, com isso, mais moradores. As pessoas não se encontram mais na Praça da Matriz nem fazem via sacra na virada do ano. Nem todos os velhos e bons amigos estão presentes. A saudade mais forte continua sendo das pessoas… Ao ser perguntado se alguma vez pensou em ir embora da cidade, seu Celço faz uma pausa: “muitas vezes já pensei, mas… ir para onde? Toda a minha vida está aqui, é aqui que vou ficar”.

















