Por Mônica Krausz

Conversando com o professor de história Hélcio Barbosa, um dos idealizadores da Caminhada da Paz, realizada em 2018 e 2019, em Cotia, com o apoio da Prefeitura da cidade, soubemos, com surpresa, que a região concentra mais de 200 casas de Umbanda e Candomblé. Neste final de ano, então, quando grande parte da população brasileira, de diversas religiões, veste branco e vai para as praias, muitas vezes pulando sete ondas, jogando flores ao mar e reverenciando Iemanjá, em muitos casos sem saber ou entender o que estão fazendo, como uma simples superstição, resolvemos conversar com dois estudiosos destas culturas religiosas de matriz africana para entender um pouco destes costumes e saber porquê Cotia concentra tantos terreiros.

Um de nossos entrevistados foi o próprio professor Hélcio Barbosa, que inclusive participou do trabalho de implantação dos estudos da Cultura Afrodescendente em Cotia até 2015, dentro da Secretaria de Educação, de acordo com a Lei 10.639, de 2003, que inclui a temática afro-brasileira nos currículos do ensino fundamental e médio do país. Hoje Hélcio tem intenção de fazer um documentário sobre as casas de religiões de origem africana de Cotia  com o objetivo de desmitificar preconceitos e divulgar sua cultura.
O segundo entrevistado, Eduardo De Lascio, autor de livros como Candomblé: um caminho para o conhecimento , com oito edições esgotadas, também mantém um terreiro de Candomblé da nação Jeje, yoruba, em Ibiúna e diferente do imaginário popular é um homem branco, de olhos claros, descendente de italianos, mas que cultua seus ancestrais africanos já que hoje se sabe que a origem da humanidade inteira se deu na África.

Doté Eduardo De Lascio

Segundo eles, o principal fator de atração de Cotia para as religiões de origem africana é a natureza preservada, fundamental para os rituais religiosos que se baseiam nas energias da terra, da água, do ar, do fogo, das árvores e das ervas. De acordo com Eduardo De Lascio cada orixá, que são “deuses dos terreiros”,  guias na Terra,  tem o domínio de um princípio da natureza. Ou seja são capazes de intervir nas forças da natureza. Além dos orixás, o que estas duas religiões têm em comum é o culto aos ancestrais.
“Casas de Candomblé em centros urbanos perdem a possibilidade de fazer mais da metade dos nossos rituais”, comenta Eduardo. “Aqui eu levo o meu iniciado para fazer limpeza na água corrente do rio, limpinho”, diz. “Utilizamos ervas colhidas, que também são muito melhores do que ervas compradas pois ao colher fazemos todo um ritual em horário certo, pedindo licença para colher e a gente não sabe se quem catou para vender fez tudo isso”, entre outras questões. Então segundo Hélcio, as folhas compradas têm que passar por rituais de limpeza deixando-as descansando em um determinado local e “reerguendo a erva”.
Hélcio explica ainda que a Umbanda, também forte na região, é uma religião tipicamente brasileira, nascida na região do Rio de Janeiro e Minas Gerais, nos século 20, com origem no Candomblé, complementa Eduardo De Lascio, mas com muitas influências de outras vertentes religiosas, incluindo o catolicismo e judaísmo e fazendo muito sincretismo, ou seja, associando os orixás, com santos do catolicismo e usando a língua portuguesa em seus rituais.
Já nas casas de candomblé, que também é uma religião brasileira, porém mais antiga e ligada nas tradições africanas são realizados os rituais na língua da nação de origem do terreiro: Yoruba, Jeje, Bantu, entre outras. A intenção de ambos ao escrever livros e artigos que já publicaram sobre estas religiões é desmitificar. Segundo eles, infelizmente ainda há muito preconceito religioso e até perseguição em função da falta de informação e do misticismo que se criou em torno destas religiões.

Assim como a falta de informação faz com que as pessoas pensem que os índios brasileiros são todos iguais, quando temos centenas de nações indígenas diferentes no país, também se faz muita confusão com as religiões de origem africana e espiritualistas, colocando todas no mesmo balaio e estigmatizando-as como religiões de feiticeiros que buscam o mal, quando o objetivo é justamente o oposto, ou seja, fazer o bem.  Tanto que manipulam energias, tanto da pessoa como da natureza para cura e resolução de problemas. “Por meio dos nossos rituais e com orientação dos oráculos, os búzios, nós restabelecemos e reequilibramos energias”, explica.

Professor Hélcio conta ainda que aqui na região temos casas de Candomblé bastante antigas e tradicionais com raízes que não são de são Paulo, são da região de Salvador, Bahia ou de Pernambuco. Nestas casas se fala o idioma da nação e os iniciados vão aprendendo aos poucos a entender as línguas. “É por isso que o nosso período iniciático na religião é de no mínimo sete anos, tanto para você aprender a língua quanto os rituais e simbologias.”, observa.
Segundo Hélcio, cada casa de Candomblé segue a língua e os costumes de uma nação africana de acordo com a ancestralidade do sacerdote que a mantém: yorubá, Banto, entre outras. Por isso os rituais são diferentes de casa para casa.

De acordo Eduardo De Lascio, o ritual das oferendas feitas a Iemanjá na praia na passagem do ano, tem origem nas oferendas de flores e comida feitas ao orixá das águas nos rios. Ambos ressaltam a importância de não poluir e são críticos ao rituais que incluem espelhos, pentes de plástico e outros materiais não recicláveis nas oferendas, poluindo o mar. Já a busca pelas ondas do mar tem relação com o poder curativo do iodo e a roupa branca tem relação com a limpeza e a capacidade da cor branca para atrair e refletir a luz.

Saiba mais em:
Orixás, de Pierre Fatumbi Verger, editora fundação Pierre Verger
Candomblé: um caminho para o conhecimento, de Eduardo De Lascio

Leia também entrevista de Sonia Marques com Mãe Alcina em um dos terreiros mais centrais em Cotia: https://www.youtube.com/watch?v=CiEjwkeJ7aI&feature=emb_logo

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