Estamos em um momento de preocupação generalizado, é um fenômeno totalmente inédito no mundo todo. Começamos a assistir na China e, quando mal vimos, estava devastando a Europa e começando a se alastrar pelas Américas numa situação sem precedentes históricos. Se por um lado temos a tecnologia como aliada para nos informarmos, nos mantermos conectados, podermos realizar nossas compras e atividades que, em outros tempos, uma situação de quarentena não permitia, por outro temos uma polarização de opiniões políticas e uma recessão que vai bater à nossa porta, infelizmente. A questão é que, ou contemos essa pandemia e preservamos a maior quantidade possível de vidas, ou seguramos uma condição econômica para “sofrer” menos no futuro. Esse é o grande impasse que os governantes e profissionais da saúde estão passando e, nós como população, temos que contribuir para segurar o avanço do covid-19 e, dentro das nossas possibilidades, fazer o que conseguimos para manter a roda da economia girando.

E o que podemos fazer? Em um primeiro ponto é termos consciência do impacto que esse vírus tem de se alastrar. Isso significa que ficar em casa, ser mais enfático em manter nossos idosos isolados e defender as políticas de quarentena não se trata de pânico ou posicionamento político: é uma forma comprovada pela ciência de contermos o avanço. Temos aí o exemplo de nossos irmãos europeus que demoraram para tomar ação e estão tentando correr atrás do tempo perdido. Tivemos a chance de aprender com os erros deles para não repetir por aqui.

Sabemos também que isso tem um efeito nefasto sobre a economia. Apesar de acharmos que isso se trata de algo político e maior do que nos cabe, é possível sim, fazer nossa parte. Adiantar os pagamentos de nossos profissionais autônomos, bonificá-los nessa época, se possível, é um caminho de mantê-los seguros em suas residências, ajudando na contenção do vírus e com condições deles se manterem economicamente falando.

Além disso, podemos consumir ainda mais localmente: delivery dos produtos que necessitamos para nosso dia a dia, alimentação. Isso além de manter os negócios locais funcionando, permite que eles consigam fechar as contas em um período no qual seu faturamento está impactado negativamente e, muitos, precisam trabalhar com equipes reduzidas por conta de riscos de transmissão do vírus ou grupos de risco. Ao movimentarmos, ainda que de uma forma remota, os estabelecimentos e produtores locais, conseguimos nos manter dentro da quarentena e ajudar os negócios a sobreviverem essa fase cinzenta.

Eu acredito que a maior lição que tiraremos desse período é que vamos ter mais do que nunca que praticar a humanidade e empatia. Essa pandemia chegou sem olhar idade, classe social, raça… ela está se alastrando pelo globo. Isso significa que não adianta acharmos que nos trancando em casa estamos livres: temos que olhar pelos nossos demais familiares em suas residências, as pessoas que trabalhando conosco e para nós, os profissionais de saúde que nos atendem, nossa comunidade. Em poucos dias, estamos aqui todos dentro de casa dependendo mais do que nunca da imprensa informando corretamente, da confiança em nossos governantes, da orientação dos nossos médicos pelas redes sociais deles, do empreendedor local garantindo a entrega dos alimentos, remédios que precisamos enquanto aguardamos em casa. Estamos resgatando um senso de “olhar e entender o outro” que talvez tivéssemos esquecido em algum lugar perdido entre nossa pretensa vida corrida e toda a tecnologia que temos em mão e abundância de recursos. É incrível ver, por exemplo, em grupos de Facebook como o Granjeiras, pessoas se mobilizando para doar máscaras, álcool em gel, para ajudar idosos com suas compras sem sair de casa, pessoas que jamais se viram, mas entendem que estamos todos juntos nessa cruzada.

Outro ponto que também temos a ganhar, de alguma maneira, é a quebra de alguns paradigmas, como o trabalho remoto, que se mostra viável e capaz de abraçar as necessidades de produtividade das empresas e reduzir deslocamento das pessoas (ainda mais para nós granjeiros que temos que enfrentar vias com muito trânsito) ou mostrar para o mercado que as mães podem trabalhar em casa e estar com seus filhos (será que isso não pode servir como um exercício positivo para melhorar qualidade de vida das mães que trabalham fora?). Isso sem falar na “abertura de olhar” que estamos passando agora, vendo estabelecimentos na região que sequer conhecíamos ou sonhávamos em consumir neles e são exatamente esses que estão nos provendo refeições, medicamentos e compras em um momento tão delicado!

Quero, de verdade, acreditar que sairemos mais fortalecidos como seres humanos e pessoas melhores depois dessa fase tão complicada que estamos vivendo.

Stella Wilderom, sócia da agência de marketing digital Bunny Consulting (BunnyCo) e fundadora do Granjeiras (grupo do Facebook e redes sociais que reúnem mais de 10.000 mulheres da região)

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