A jornalista, professora e doutoranda Valéria Lima Salem mora há 10 anos na região francesa de Rennes, que entrou em quarentena antes da maioria do país por ter sido uma zona de circulação ativa do vírus. Dando sequência à nossa série com pessoas da região que contam como estão enfrentando a pandemia pelo mundo, ela relata seus meios para viver bem nessa nova configuração que, parece, não tem data para acabar completamente.
“O ser humano foi capaz de superar inúmeros problemas antes de nós na história, então nós também superaremos este momento difícil com todo o conhecimento acumulado até aqui”, aposta a jornalista, professora e doutoranda Valéria Lima Salem, de 42 anos.

Ela mora na cidade de Bruz, região de Rennes (França), há 10 anos. Assim, como a Granja Viana, é um local tranquilo, mas “sem aquele trânsito cansativo”. Bruz é caracterizada pelas mansões e antigas fazendas. O patrimônio natural é rico com o sítio Boël, a Vilaine e a Seiche, a lagoa dos Bodrais e o bosque de Cicé, além do Parque Ornitológico com uma grande variedade de papagaios, faisões, patos e gansos. “Gosto de viver em uma cidade pequena, tranquila e, ao mesmo tempo, com acesso a recursos de cidade grande”, descreve. A região conta com belos castelos, como o da foto que fica na cidade de Chateaugiron, a 23 km de distância.
Desde o dia 17 de março, apenas os serviços essenciais estão funcionando no local. Porém, escolas, bibliotecas, complexos esportivos, cinemas e espaços religiosos já tinham sido fechados dias antes. “Isso aconteceu porque 10 professores do meu bairro foram testados positivos para o Covid-19. Naquele momento, a França ainda estava levando vida normal, mas nossa cidade, que tem apenas 18 mil habitantes, viveu uma grande ruptura e se tornou uma zona de circulação ativa do vírus. Isso nos colocou em quarentena antes da maioria do país”, relembra. Com isso, ensino à distância, home office e isolamento social foram implantados do dia para a noite.
- Veja a postagem, feita por Valéria, em meados de março:
Atualmente, a repressão policial é bem forte e eles saem de casa o mínimo possível. “Quando o fazemos, temos com a gente uma auto-autorização que justifica nossos motivos. Por exemplo, é proibido sair de casa para fazer compras pequenas, como ir à padaria apenas para comprar um pão por exemplo, o que nos obriga a planejar e agrupar nossas compras”, conta. Com o objetivo de diminuir o número de pessoas na rua, os policiais também controlam a quantidade de passageiros nos carros (“o ideal é sair sozinho”) e a distância percorrida pelos automobilistas (“melhor fazer compras perto de casa”). Pelo mesmo motivo, os supermercados limitam o número de clientes (“um por família, geralmente”). “Nunca mais tivemos contato presencial com colegas desde o começo do confinamento e a situação está longe de se normalizar. Não somos autorizados a visitar ninguém de nossa família, nem amigos, ou mesmo ir a um enterro. A cada dia, as restrições aumentam, sob pena de multas que variam de 135 a 375 euros. E até mais que isso, para reincidentes”, comenta.
Desde então, ela e o marido – o francês Patrice – estão trabalhando em esquema de home office desde o fechamento da escola do filho. “Organizamos um planejamento em casa e tentamos segui-lo, mesmo não sendo fácil. O Léo, que tem 7 anos e está na pré-escola, tem em média 4 horas de atividades diárias. Não há nenhuma atividade on-line, tudo é em papel, à moda antiga, então nos revezamos para realizar as tarefas com ele, com a ajuda da nossa filha Lara, de 18 anos”, relata.
Com a colaboração de todos, eles têm se desdobrado para dar conta das tarefas, “dividindo os espaços e descobrindo, como o resto do planeta, a utilidade das reuniões virtuais”, como faz questão de ressaltar. Cada um tem encontrado seus meios para viver bem nessa nova configuração. No caso de Valéria, ela descobriu na meditação e nos cuidados com as plantas “duas boas válvulas de escape para os dias mais tensos, que não têm sido poucos” e tem tentado viver um dia de cada vez. “Hoje é o dia é meu mantra! Tento não esperar muito dos dias que virão. A meditação ensina isso, de viver o tempo presente, e nesses dias tem ela sido fundamental, porque tudo o que planejamos foi interrompido”, conta.
Em família, os Salem tem tentado aproveitar este momento atípico em que não ninguém mais precisa sair correndo para tomar café juntos, fazer as refeições sem pressa, jogar conversa fora, tomar sol depois do almoço, assistir filmes, jogar jogos… “Apesar do trabalho e das obrigações que não deixamos de lado, com um pouco de imaginação todo dia fica parecendo domingo”, descreve.
Ela tenta não perder a esperança que tudo volte ao “normal”, mesmo sem saber bem que normal seria esse. “Mentalizar a descoberta de uma vacina ou um tratamento eficaz, assim como foi o caso para tantas outras doenças terríveis que assolaram a humanidade e que nós nem chegamos a conhecer de perto nos dá energia para seguir em frente”, finaliza.
Momentos na Granja Viana
Por Juliana Martins Machado
Fotos: arquivo pessoal de Valéria Lima Salém

















