Muito prazer! Sabe quem eu sou? Você pensa que me conhece, mas quem conhece você muito bem e além do que você imagina, sou eu. Sei tudo da sua vida. Sou seu amigo, seu psicólogo, seu censor, seu sócio, seu pesadelo, seus sonhos, seu ego, superego e controlo sua vida conforme meus interesses comerciais ou ideológicos, usando algoritmos que você nunca vai saber como funcionam. Vendo seus dados com suas preferências e hábito de consumo para quem quiser comprar, você autorizou e não sabe e pensa que eu deixo você ficar navegando de graça. Não tem almoço grátis, não. Meu modelo de negócios é uma troca, você me dá suas informações e eu deixo você me acessar. Ponho nas páginas dos seus posts, quem eu quero, quando eu quero e você fica lá todo intrigado, kkkk me divirto e ganho milhões às suas custas. Aliás, milhões, não. Trilhões! Numa ida ao shopping, fiz umas comprinhas. Adquiri o Instagram e o WhatsApp só para não ter concorrentes. Foi uma bagatela. Uma pechincha. Dinheiro de pinga, pois meu valor de mercado é de cerca de R$ 4.000.000.000.000,00 (quatro) trilhões ou U$ 800 bilhões. É muita grana, mais do que o PIB de muitos países. Controlo você e mais da metade dos habitantes deste planetinha. Sei coisas de você que talvez nem se lembre ou não queria que alguém se lembrasse nunca mais. Mas eu não esqueço. Sei dos seus segredos, dos seus hábitos e preferências, sei da sua família do seu trabalho, tenho fotos e vídeos de você e dos seus entes queridos e sei do seu passado e até do seu futuro. Duvida? Sabe aquela viagem que você comprou para o mês que vem e vai pagar em dez vezes? Viu? Eu sei! Sabe o restaurante que você reservou? Eu sei e também sei até quem vai com você. Os passeios que programou e muito mais. Lembra aquele exame que você agendou no laboratório? Está aqui anotado e quando sair o resultado eu vou saber. Todas aquelas compras que você fez com seu cartão, estão no meu radar. Adoro essa parte! É aí que a batata assa! Posso ajudar a eleger ou destituir presidentes! Sei em quem você vai votar nas próximas eleições e se não for o candidato da minha aprovação posso até te excluir, ou excluir o candidato da minha rede, censurando na maior. E daí? Vai encarar? Ninguém reclama a forma como eu pago impostos, é um mistério e os governos se calam. A grande mídia fica mansinha comigo e olha que eu publico seus conteúdos sem pagar um centavo para eles. Já fechei um monte de jornais pelo mundo afora, pois publico de graça aquilo que eles pagam para produzir. Ninguém aguenta, né? Certamente você já está viciado na minha plataforma. Sim, plataforma é o jeito bacana de chamar a armadilha que você caiu. Ou mais legal ainda, redes sociais. Sou a maior do mundo! Você lá viciadão, todo dia me passando suas informações e preferências políticas. Hehehe, eu sou a mãe das narrativas. Narrativa é quando as pessoas escrevem suas versões dos fatos com interpretação própria, podendo ser a verdade ou não, distorcem, contorcem e se me interessar eu propago e divulgo. Senão excluo. A narrativa é irmã das fakes news, e aí eu nado de braçada. Censuro o que eu julgo certo ou errado e obedeço ou não, conforme meus interesses, quando um juiz me manda censurar algo que ele não gostou. Comecei fazendo graça com os amigos da facul, publicando um livro com os rostos da galera das turmas. Acho que virei Deus. Acho não, tenho certeza. Quem sou eu?
Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas
















