Desde cedo, o paraibano demonstrou inclinação para as artes, sendo considerado um menino prodígio. Ainda muito jovem participou, como desenhista, de uma expedição de naturalistas pelo Nordeste e recebeu uma bolsa de estudos do governo para se formar na Academia Imperial de Belas Artes. Fez seu aperfeiçoamento artístico em Paris, estudando com mestres célebres. Logo após seu retorno ao Brasil, passou a dar aulas e iniciou uma carreira de sucesso, ganhando projeção com grandes pinturas de caráter cívico e heroico, inserindo-se no programa civilizador e modernizador do país, fomentado pelo imperador Dom Pedro II, do qual a Academia Imperial era o braço regulador e executivo na esfera artística.
Seu estilo na pintura, em sintonia com as grandes tendências de seu tempo, fundia elementos neoclássicos, românticos e realistas. Sua produção é uma das primeiras grandes expressões do Academismo no Brasil em sua fase de apogeu, deixando obras que permanecem vivas até hoje no imaginário coletivo da nação.
Viveu entre o Brasil e a Europa e em ambos os lugares seu talento foi reconhecido, recebendo grandes elogios de críticos e do público, mas também levantando polêmicas apaixonadas e tenazes adversários.
Pedro Américo era um pintor de talentos inegavelmente raros, mas primeiramente se tornou um dos principais símbolos de tudo o que o sistema acadêmico alegadamente tinha de conservador, elitista e distante da realidade nacional. Embora os modernistas tenham tentado impiedosamente ofuscar sua estrela, como a de todos os acadêmicos, seus grandes méritos artísticos seguramente fazem dele um dos maiores pintores que o país já produziu, e sua imensa fama e influência em vida, o destacam como um dos nomes mais importantes da história da cultura brasileira do fim do século XIX. Faleceu em Florença no dia 7 de outubro de 1905, vítima de “cólica de chumbo”, uma suposta intoxicação pelas tintas que usava.

VAMOS OBSERVAR
Independência ou Morte! ou O Grito do Ipiranga
1888
Óleo sobre tela
415 x 760 cm
Museu Paulista da USP, São Paulo
Na cena, um imponente príncipe Don Pedro I, bem vestido e do alto de um belo cavalo, empunha a espada às margens do rio Ipiranga e de lá grita “Independência ou Morte!”, para um grande público que testemunha o acontecimento de 1822. Mas, de acordo com historiadores, não foi bem assim que tudo aconteceu.
Primeiro, é preciso dizer que o pintor Pedro Américo não era nem nascido naquele momento histórico. A obra foi pintada sob encomenda mais de sessenta anos depois do episódio, em 1888, para o Museu do Ipiranga, em São Paulo. O artista, que vivia em Florença, na Itália, fez uma pesquisa para resgatar informações da época.
Fora da tela, a cena seria mais ou menos assim: o príncipe regente estaria bem abatido, em cima de uma mula, vestindo roupas simples e acompanhado de poucas pessoas. Relatos de testemunhas descrevem que Dom Pedro I, naquela tarde, estaria com problemas gastrointestinais, sofrendo com disenteria. Não havia cavalos de raça porque a região exigia a força de animais mais fortes. A comitiva geralmente tinha catorze pessoas. Os guardas não estariam usando uma farda tão pomposa. Os Dragões da Independência só adotaram o uniforme representado na pintura mais de cem anos depois.
A independência brasileira foi um processo, não algo ocorrido da noite para o dia. Nos registros da imprensa, há indicativos fortes disso. Em junho, Pedro convocou uma assembleia visando elaborar a primeira Constituição brasileira. Por isso, em 1º de agosto, jornais em Londres publicam que isso já significava a independência.
O artista fez a obra em consonância com as convenções artísticas da época, pois também desejava ingressar no meio artístico europeu. Havia um esforço dele em encontrar a melhor forma de tornar o quadro realista, como vários outros artistas do período. A atenção aos detalhes de pessoas, roupas e animais já havia marcado outras obras do pintor, como Batalha do Avaí, de 1877, representando um dos confrontos da Guerra do Paraguai, e manteve-se em Tiradentes esquartejado, de 1893, já no período republicano, que não agradou o novo establishment tanto quanto seu autor esperava.
O próprio pintor deixou um texto explicativo sobre a produção onde revela a intenção de mostrar a independência como algo esplêndido e heroico, deixando de lado o que não seria tão bonito de se ver. Nas palavras de Pedro Américo: “A realidade inspira, e não escraviza o pintor”. O artista destaca que se esforçou para ser sincero na reprodução dos fatos, mas sem esquecer das belezas da arte. Nem sempre a arte imita a vida.
Por Milenna saraiva é artista visual, formada pelo Santa Monica College, em Los
Angeles, EUA. www.milenna.com














