A turma do fundão

Desconfortos que colocam à frente novas questões importantes.

O mundo corporativo ficou careta. As áreas de recursos humanos das empresas ficaram excessivamente politicamente corretas. Essa atitude faz com que os candidatos entrevistados para contratação que se mostrem “rebeldes” sejam expulsos pelos RHs. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais as corporações vêm perdendo a criatividade.

Os ESG, DEI, DEIB, JEDI e todas as novas siglas que as empresas seguem acabam engessando os RHs das empresas e as tornam mornas, sem criatividade, reféns das suas rígidas políticas, só para parecerem dentro dos padrões impostos por sabese lá quem.

É muito mais fácil contratar e gerir pessoas que se enquadram nas normas das empresas. Gente que saiba trabalhar em equipe, que tenha inteligência emocional, que participe das atividades sugeridas pelo RH e que fiquem sem questionar nada.

E sigam o compliance! Para quem não sabe, o compliance é um conjunto de regras, políticas e diretrizes internas e externas que garantem que uma organização aja em conformidade com as leis e regulamentos e padrões éticos do setor.

Nada contra o compliance e o devido cumprimento das leis, mas, e sempre tem um “mas”, as pesquisas demonstram que anos depois de formados, os ex-alunos da turma do fundão são os que mais se dão bem na vida e nos negócios.

Ou seja, aquela galera que chegam atrasados, falam nas aulas, aprontam com os colegas, fazem bagunça e infernizam os professores, fazem a diferença nas empresas. Não que os ex-alunos da turma da frente, os chamados “cabeça de ferro” ou CDF, sejam desimportantes. Ao contrário. Esses são os que vão impor as normas e padrões para que os da turma do fundão as contestem. E dessa discórdia nascem as inovações e a luz.

É muito mais fácil que as empresas tenham pessoas que só perguntam como cumprir as ordens do que as que perguntam por que não fazer de outra maneira? Questões que de certa forma já estavam encaminhadas, com o questionamento, incomodam os gestores, mas os fazem repensar em algo que já estava decidido. Pois são esses desconfortos que colocam à frente novas questões importantes.

As empresas precisam ter nos seus times uma mescla. Existem os empregados displicentes, os convergentes e os divergentes. Os displicentes devem ser demitidos imediatamente; os convergentes, aquela turma da frente, os cabeças de ferro, são os que fazem aquilo que foi pedido com primor e devem ser a maioria. E os divergentes, a turma do fundão, a minoria, são aqueles que vão questionar as decisões e fazer as empresas se repensarem sempre.

Tais grupos, assim como o óleo e a água, não se misturam e tendem a se isolar e se hostilizar. Cabe aos gestores administrar essa mistura e fazer o match no resultado. Empresas com maioria de rebeldes divergentes quebram rapidamente, mas empresas só com convergentes CDF quebram lentamente.

Os exemplos são inúmeros: A Kodak, que criou a máquina fotográfica, não tinha um rebelde para fazer os gestores acordarem e perceberem que seu modelo de negócios tradicional, venda de filmes físicos, estava em declínio e ignorava a transição para a fotografia digital e depois para o celular?

A indústria fonográfica não percebeu que o streaming (Spotify, Deezer, etc) era o futuro? Se tivesse alguns rebeldes por lá, certamente se antecipariam ao desastre.

A bola da vez são os automóveis movidos a combustão; se um rebelde não questionar e apontar para o modelo elétrico como o futuro, em breve as montadoras vão amargar prejuízos. E a IA já está na prateleira para quem quiser ousar.

Marcos Sa é palestrante e consultor de propaganda e marketing,  com especialização na universidade de Stanford, California, EUA.

Artigo anteriorEstação Sabiá da linha 22-Marrom terá passarela sobre a Raposo