Aldo Braghetto: empresário, que revelou bandas como Titãs, conta os bastidores dos 40 anos de carreira

Para o ídolo romântico Fábio Júnior, ele é um íntimo superlativo: o “Braghettão”. Para o ídolo sambista Alexandre Pires, mais ainda: é o “irmão e pai de todas as horas”. O ícone roqueiro Nando Reis, não deixa por menos: diz que ele é um “grande amigo, importantíssimo na história dos Titãs”. Embora seja cantado em todos os estilos pela fina flor da música nacional, gente que ele ajudou a chegar à fama, o empresário Aldo Braghetto Filho nunca esteve prosa. Prefere o anonimato dos bastidores para impulsionar os negócios dos clientes de seu escritório de gestão de carreiras – o que às vezes inclui administrar a vida pessoal, os negócios, a família e até a autoestima de algumas estrelas, além do assédio de fãs, que ele já descobriu escondidos até no bagageiro dos ônibus que levavam os músicos aos shows. “Trabalhar com gente famosa é passar o dia dizendo não, sem perder a gentileza”, resume Braghetto.

Nesta entrevista exclusiva à Circuito, ele conta como é o processo de criação desses artistas que empresariou (a lista inclui também Amado Batista, Xuxa, Leandro e Leonardo,
Charlie Brown Jr. e outros), como conseguiu paz espiritual após uma grave crise com o uso de drogas, revela os micos, alguns divertidos, que seus clientes já o fizeram passar quando resolveu usar o dinheiro que ganhava com grandes astros para levantar a carreira dos pequenos, e ainda oferece aos leitores uma seleção das pérolas que garimpa passando horas em sua casa, na Granja Viana, cercado de Mata Atlântica, e pesquisando com o filho, o também empresário de talentos Caio Braghetto, quem está surgindo no cenário da boa música.

Como você começou a descobrir gente com talento?
Comecei a trabalhar como serralheiro, com meu pai, e todo dinheiro que eu ganhava, ia de trem gastar no Museu do Disco, na rua Dom José de Barros. Me sentia um peixe fora d’água porque a turma queria saber de jogar bola, enquanto eu ficava enchendo a casa de vinis. Além disso, eu era disléxico, o que naquela época significava burrice mesmo. Mas tinha tanta sorte, sempre fui muito abençoado por uma estrela guia. Pedia as coisas e ela me dava, desde criança. Aos 19, com a morte do meu pai, fui trabalhar em banco, mas mantinha um grupo de rock, o Aborto, e não saia dos bailes. Foi quando conheci uma pessoa que vendia shows de bandas pequenas e virei seu auxiliar. Naquela situação, pobre, disléxico, assistente de um vendedor de shows da periferia (e que ainda era alcoólatra), achei um jeito de estar próximo ao que eu gostava, que era a música. Eu sabia de cor e ainda me lembro das fichas técnicas completas que vinham nos vinis: o nome de todo mundo que fazia música e o que cada um tocava.

Johnny Duarte Photographer

Quando apareceram os grandes clientes?
Eu tive a sorte de conhecer os filhos do Chacrinha, que tinha o programa e bombava na Globo muito mais do que o Faustão hoje em dia. Nanato Barbosa, o filho, gostou muito de mim. Eles tinham um esquema em que, para se apresentar quatro vezes no programa, os artistas tinham que dar dez shows para ele, e me pediram para vender as apresentações que vinham para São Paulo. Assim, comecei minha carreira. Era início dos anos 80, época em que surgiam as bandas de rock nacional, e passei a ser procurado por elas. Ira, Rádio Táxi, Titãs, Gang 90, Magazine… comecei a colocar os shows dessa turma dentro dos clubes. Foi um passo para me tornar empresário dos Titãs, RPM, Camisa de Vênus, Ira!, Gang 90, Magazine com Kid Vinil, Absyntho, Língua de Trapo, Zero, Itamar Assumpção,
até chegar nos anos 2000, já com o Charlie Brown Jr. Na área popular também atuei
bastante, com Maurício Mattar, Leandro e Leonardo, Karametade, Amado Batista, Fábio Júnior e Alexandre Pires, que eu atendi até pouco tempo atrás.

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Como você sabia quem faria sucesso ou não?
Ninguém tem bola de cristal, mas eu cismei com muita banda. Sabia que os Titãs iam estourar, por exemplo. Eles vinham na contramão de tudo, porque o que estava bombando era o chamado “rock de bermuda” do Rio de Janeiro: Lulu Santos, Kid Abelha, Evandro Mesquita, Paralamas do Sucesso. Aqui em São Paulo era só rock underground. O André Midani, chefão da Warner que ficava no Rio, não queria nem saber de São Paulo, porque lá eles estavam ganhando muito dinheiro com MPB, Caetano, Gil e o rock de bermuda. Mas, quando eu vi aquelas letras dos Titãs, era poesia. Arnaldo Antunes, Charles Gavin, que morou aqui na Granja, Nando Reis… eles eram meio doidos, mas muito inteligentes. Tinha algo especial ali, para um público maior, e tinham muita vontade de agir. Fizemos um primeiro CD, com Sonífera Ilha e Marvin, que já mostravam qualidade. Aí levei para dar show, com todo mundo enfiado numa Kombi, no programa do Chacrinha. Eles eram meio carecas, com uns topetes estranhos, magrelos, umas roupas esquisitas para a época. E ainda tinha uma coisa meio tribal, era A A, U U e Bichos Escrotos. Muita gente dizia que era bobagem colocar uma coisa dessas no mercado. Nós peitamos e o troço explodiu. Hoje é considerado um dos álbuns mais importantes do rock brasileiro. Com o Charlie Brown Jr. foi a mesma coisa, eu tinha certeza que ia estourar. Falei com meu amigo Roberto Talma, da Globo, e a música deles ficou três anos no Malhação e estourou a banda. Não ganhei dinheiro com eles. Fiquei só seis meses, porque era muita briga. Eles eram muito malucos e eu bem certinho nas minhas coisas. O rock é um estilo de vida e eles eram muito roqueiros. Mas, no pouco tempo em que fiquei, aprendi coisa demais e vi o talento do Chorão. O Camisa de Vênus, quando veio de Salvador para cá, aquela coisa de Bete Morreu e Eu não matei Joana D’Arc, também tinha certeza que ia pegar.

E os que você não acertou?
Eu achei que os Mamonas Assassinas não dariam certo. Errei feio, foi um sucesso. Teve uma época em que eu pegava o dinheiro que ganhava com os grandes, a Xuxa, o show d’Os Amigos, e investia no pessoal que fazia arte aqui em São Paulo e achava que ia pegar. Uma vez, fizemos uma temporada de duas semanas do Itamar Assumpção e a banda Isca de Polícia em um teatro no Rio de Janeiro e toda equipe, inclusive eu, ficamos hospedados no Hotel Internacional em São Conrado, que hoje está fechado, acho que por praga nossa. Essa temporada foi o maior sucesso. Lotou todos os dias de amigos, repórteres, formadores de opinião, artistas etc., menos o público pagante. Conclusão: precisei vender meu carro, lembro bem, um Monza, para pagar o hotel, o que comemos e principalmente o que bebemos, que não foi pouco, e voltar de ônibus de linha para São Paulo. Tive de falar para minha esposa que roubaram meu carro. O que ia dizer?

Os artistas davam trabalho?
Certa vez, conseguimos uma entrevista do Camisa de Vênus com a Lucinha Araújo, esposa de João Araújo, mãe de Cazuza, que na época era a bambambã da Rede Globo, quem cuidava do casting dos artistas que iam ao ar ou não. Era muito difícil agendar uma reunião com ela. O Camisa de Vênus estava em ascensão, mas sem expressão comercial, e vieram de Salvador para morar em São Paulo. Deram muita despesa, moradia, passagens aéreas, etc. Na reunião, a Lucinha disse que arranjaria para a banda vários programas do Chacrinha, Globo de Ouro, Fantástico e que as portas da felicidade artística se abririam para a gente, mas teríamos de mudar o nome da banda, que era muito feio e contra os princípios e costumes populares. O Marcelo Nova, líder da banda, se levantou da cadeira e
disse: “podemos trocar o nome da banda, sim, minha senhora. De Camisa de Vênus para Capa de Pica”. Acabou a reunião ali, dinheiro perdido outra vez. Não tivemos nada na Globo naquele momento. Só depois, quando a banda virou moda, depois de ser contratada pelo André Midani, da WEA.

E os fãs? Era você que administrava?
Depende de cada artista. Uma vez com o Charlie Brown Jr., duas garotas entraram escondidas no bagageiro de um ônibus, indo a um show em Volta Redonda. O problema é que o bagageiro ficava ao lado do motor e começou a esquentar demais. Elas gritaram pedindo socorro e tivemos que levá-las ao show. Com o Fábio Júnior, não só uma, mas várias vezes, encontrávamos mulher dentro do closet em hotéis, dentro do armário do banheiro, dormindo nos pontos de ônibus de frente aos hotéis em que se hospedava, às vezes por três dias seguidos. Casos absurdos. Já fui anteparo de mulher e namoradas com ciúmes quando descobriam alguma infidelidade. Isso era muito comum, dava muito trabalho e brigas intermináveis com separações, advogados e houve até casos de polícia. Seria antiético falar os nomes, mas dava muito trabalho. Quando Arnaldo Antunes, ainda nos Titãs, ficou um mês preso por tráfico de heroína, o que foi uma piada porque foi inventado, ele não tinha nem meia grama dessa droga, tivemos cancelados todos os shows e programas de televisão. Foi um tempo muito difícil. Só quem deu chance para a gente foi
o Faustão, na época, no programa Perdidos na Noite.

Com o Fábio Júnior, naquele estilão romântico, o assédio devia ser grande.
Trabalhei com ele uns treze anos, fim dos 80 e a década de 90 inteira. O Fábio Júnior é
um dos artistas mais incríveis que conheci. Um carisma muito grande, uma força, um dom divino de criação. Acontece que, além de carismático, ele também era muito bonito. Uma cruzada de pernas dele, uma passada de mão no cabelo e a mulherada desmaiava, impressionante. Mas essa relação tão forte com o feminino também trouxe problemas: ao mesmo tempo em que as mulheres ficavam loucas por ele, ele ficava louco por elas. Ele conseguia ver nelas algo que ninguém via, só ele. Além disso, muitas que não o conseguiam, desejavam-no de forma desesperada, e a força do pensamento pode qualquer coisa.

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O que elas faziam?
Essas mulheres faziam o que se pode chamar de macumba, liam sobre a Bíblia o nome dele, faziam encantamentos, verdadeiros feitiços. Tornaram-se um empecilho na vida do Fábio. Eram muitas. Eu sei porque, como não tinham acesso a ele, elas me procuravam. Eram atrizes da Globo, cantoras que pensavam nele dia e noite como o grande príncipe de suas vidas, e como não o conseguiam, emanavam aquele desejo imenso. O Fábio tem uma alma maravilhosa. Nunca prejudicaria ninguém, então pode ter prejudicado a si mesmo por causa dessa perseguição feminina. Uma hora ele consegue renovar e transformar, porque tudo na vida é assim, vem e volta como as ondas do mar. Desejo a ele muitas transformações boas, porque para mim ele só fez bem. Tive muito contato com grandes caras e via o desespero deles no dia-a-dia, mas mesmo assim eram gênios que tocavam a alma do povo, que mesmo na noite escura da alma, no abismo, faziam coisas lindas.

Como os artistas fazem para criar mesmo estando no olho do furacão?
Eu já vi muitos chorando e criando. Charlie Brown Jr., por exemplo, estava fazendo uma coisa qualquer e de repente parava tudo e vinha a ideia na cabeça dele já pronta. Isso acontece muito, principalmente de madrugada. Vi isso com o Fábio Júnior, o Alexandre Pires, o Itamar Assumpção. De uma hora para a outra, letra, música, tudo vinha pronto e eles nem sabiam de onde. Pois eu digo: é de um lugar que autores como Rupert Sheldrake chamam de reservatório akáshico. Alguns artistas têm certa afinidade com uma enorme fonte de energia, são um tipo de ponte que os anjos estabelecem entre as pessoas e o céu. São anjos que escrevem, pintam, compõem, cantam e até interpretam através desses artistas, fazendo sacrifícios imensos para tirá-los do inferno.

Percebe-se que você é bem espiritualizado.
Como empresário, vivi também o ambiente das drogas. Eu era pobre, sem recursos, e vivi um tipo de êxtase quando tive acesso a isso tudo. Sempre tive muita sorte. Chamo isso de darma, mas criei para mim algum carma. Entrei nas drogas, na ilusão da mulherada, rock’n roll, muitos funcionários, só andava de jatinho, um monte de gente atrás de mim. Um dia pedi iluminação, porque percebi que aquilo não me fazia crescer, percebia um buraco ali. Quando pedi para me iluminar, isso lá pelo ano 2000, achava que ia crescer asa em mim, que eu ia me tornar um ser luminoso. Aí o ser divino falou: “você quer se iluminar mesmo?”. Então, eu perdi artista, perdi um escritório de uma quadra inteira no Butantã, perdi todo o dinheiro, fiquei sem nada, quase perdi toda a família. Andei cinco ou seis anos no meio do inferno. Aí o divino falou: “vamos ver se esse cara quer se iluminar”. Fiquei peregrinando, encontrando uma saída, que era tentar encontrar onde estava Deus, o santo, os orixás, o diabo a quatro para me ajudar. Só que essa ajuda não vem deles, a ajuda está dentro de si. É você que tem que tirar essa mão divina para se levantar. Usei Santo Daime, experiências de quase morte, igreja de crente, Candomblé, frequentei os índios do Amazonas e do Acre, querendo encontrar um caminho para essa minha loucura, porque eu ia enlouquecer igual ou mais que os meus clientes. Mas como eu disse, eu tenho sorte. A minha mulher, a Ione, é muito intuitiva, é quase um guru. Foi ela quem me ajudou e me deu a mão, mesmo eu fazendo um monte de coisa errada. Me deu uma família e essa estrela nunca me abandonou. Sou a prova de que é possível passar por isso, sobreviver e estar bem.

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Por que se mudou para a Granja Viana?
Vim morar na Granja Viana em 93, quando casei com a Ione, que nasceu aqui. Fiquei encantado com a região. Nunca imaginei que pudesse existir um lugar assim, paradisíaco,
muito perto de São Paulo. Moro contornado pela Mata Atlântica. Tem uma energia da floresta que me faz muito bem. Vivo rodeado por tucanos, miquinhos, esquilinhos, cachorros e tudo quanto é coisa sagrada. Isso que me dá energia para fazer o que faço e
me sentir feliz com isso. O problema que a Granja tem hoje é que não existe um plano
diretor para construções de condomínios e townhouses (casas geminadas), pois cada vez se constrói mais e mais esse tipo de empreendimento, porém as ruas são as mesmas de 1950, onde passavam os carros de boi. Precisa acertar, planejar o mais rápido possível, e tem sim como acertar. É só os políticos e as construtoras terem boa vontade, pois caso contrário, vai inviabilizar. Mas esse bairro é um local dos sonhos. Amo os parques daqui. O Cemucam que eu conheço mais, o Templo Zulai, a Floresta dos Unicórnios, um espaço terapêutico do Michael Haradom.

Quais são seus projetos?
Estou montando com meu filho, Caio Braghetto, um escritório só para cuidar de artistas e DJs novos. Já tenho o escritório aqui na Granja, mas agora não vou destiná-lo a esses artistas mais antigos. Vou pensar nos mais jovens, e o meu filho tem muito mais jeito para fazer essa pesquisa de quem está acontecendo. Há coisas boas em todas as áreas e em todos os cantos do país.

Por Fábio Sanchez

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