Alerta de Escorpiões na Região

A presença do aracnídeo nas áreas urbanas tem se tornado um problema crescente na Região Metropolitana de São Paulo e em todo o Brasil.

Moradores de Carapicuíba vêm chamando a atenção da imprensa, preocupados com ocorrências que, segundo informam, têm se tornado cada vez mais frequentes. Bairros como Vila Industrial, Parque do Planalto, Vila Cretti, Vila Caldas e Parque Santa Tereza são os mais afetados de acordo com os relatos.

Em entrevista para a Bandnews FM, Jessica Silva contou que na loja onde trabalhava, no centro de Carapicuíba, chegou a encontrar os aracnídeos diversas vezes. “Do nada a gente via escorpiões andando no chão, causando medo nos clientes e na gente, que prestava serviço também”, contou. “Meu esposo viu um escorpião saindo do ralo”, relatou Leticia Torroni, moradora da Vila Caldas, também em Carapicuíba.

De acordo com a Prefeitura do município, de 2023 até julho deste ano, 34 casos de picadas de escorpião foram registrados na cidade e todos foram acompanhados pela Vigilância Epidemiológica de Carapicuíba. Segundo a Prefeitura, o número de ocorrências é considerado dentro da normalidade, mas a administração municipal afirma que “intensificou as ações de combate e prevenção” como distribuição de materiais informativos com orientações sobre a disposição do lixo, limpeza do quintal e das calçadas já que o acúmulo de lixo e entulho favorece a circulação e proliferação dos escorpiões, que preferem locais escuros e se alimentam de baratas e outros insetos como moscas, formigas e grilos.

Em Carapicuíba, o canal adequado para chamados sobre escorpiões é a vigilância ambiental, que atende de segunda a sexta-feira, das 8 às 17h, na rua Maracai, bairro Ariston, ou pelo telefone (11) 4164-3866. E também pelo e-mail: vigiambiental@carapicuiba.sp.gov.br (24 horas).

Diante de uma denúncia de ocorrência de escorpião, a Vigilância vai até o local, com lanternas ultraviolestas, para realizar a busca ativa e recolher o escorpião imediatamente.
Em caso de picada, principalmente em crianças, os moradores devem procurar os pronto socorros da cidade com urgência, que encaminham aos hospitais de referência definidos pelo Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo:
* Instituto Butantan – São Paulo (referência para acidentes com animais peçonhentos)
* Hospital Geral de Itapevi (referência para acidentes com escorpiões)
* Hospital Geral de Cotia (referência para acidentes com animais peçonhentos)

Em Cotia, de acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), o problema parece estar mais controlado já que em 2023 foram registradas quatro ocorrências, em 2024, duas e neste ano apenas uma até o momento. Todos os casos registrados como leves e apenas um em residência, os demais foram acidentes de trabalho, principalmente com pessoas que atuam em jardinagem ou limpeza de áreas externas.

Segundo Ricardo R. Cabrera, Coordenador da Divisão de Vigilância Ambiental de Cotia, as notificações de presença de escorpiões no município indicam um padrão relacionado ao grau de modificação ambiental. “A espécie Tityus bahiensis (escorpião-marrom) tem sido registrada predominantemente em áreas mais preservadas, enquanto a Tityus serrulatus (escorpião-amarelo) é mais comum em regiões antropizadas (que sofreram alterações pela ação humana)”, explica.

Ele afirmou à reportagem da Revista Circuito que na região da Granja Viana, por exemplo, observa-se a seguinte distribuição: Escorpião-amarelo (T. serrulatus): km 21, km 26 e km 29; e Escorpião-marrom (T. bahiensis): Centro da Granja, km 23, km 24 e Km 29. Em Caucaia do Alto, todas as coletas realizadas (Centro e km 39) identificaram a presença apenas de Tityus serrulatus.

“O avanço do desmatamento tem uma relação direta com o aumento da incidência de escorpiões em áreas urbanas. A destruição dos habitats naturais desses animais obriga-os a buscar abrigo e alimento nos ambientes urbanos, onde encontram condições favoráveis para sobrevivência e reprodução”, explica Cabrera. “Além disso, a eliminação de predadores naturais como aves, anfíbios e pequenos mamíferos como os saruês – que se alimentam de escorpiões -, comuns em áreas de mata, contribui para o crescimento descontrolado da população de escorpiões”, lamenta.

Segundo ele, esse deslocamento é intensificado por processos de urbanização desordenada. Assim, o ambiente urbano se torna um ecossistema adequado para os escorpiões, muitas vezes mais favorável do que o próprio habitat natural, devido à oferta contínua de abrigo e presas (como baratas).

Notificações de Escorpiões

As notificações de presença de escorpiões recebidas pelo Setor de Animais Sinantrópicos da Prefeitura de Cotia são atendidas de forma imediata, conforme diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Saúde. O protocolo consiste nas seguintes etapas:
1. Contato com o munícipe para confirmação da ocorrência e caracterização preliminar da área afetada;
2. Busca ativa diurna para reconhecimento do local e verificação da presença do animal;
3. Busca ativa noturna, realizada por equipe treinada, com coleta manual de escorpiões na residência onde ocorreu a notificação e nas adjacentes (laterais, frente e fundos).

Em Cotia, o Setor de Animais Sinantrópicos também realiza palestras educativas em escolas, com exposição de animais peçonhentos coletados no município, com o objetivo de promover a conscientização de alunos e responsáveis sobre prevenção de acidentes.
Segundo Cabrera, o uso de controle químico não é recomendado, pois pode provocar o deslocamento dos escorpiões para outras áreas, favorecendo sua dispersão. Da mesma forma, a utilização de galinhas d’angola e outras aves como método de controle biológico não é indicada, devido à baixa efetividade comprovada dessas práticas.

Dessa forma, a prevenção continua sendo a principal estratégia no controle da presença de escorpiões, com foco na eliminação de abrigos, manejo ambiental e orientação da população. Em caso de avistamento de escorpiões, a ocorrência deve ser comunicada à Divisão de Vigilância Ambiental pelo e-mail: vigilancia.ambiental@cotia.sp.gov.br.

Hospital de Referência

O Hospital Regional de Cotia é a unidade de referência para atendimento de acidentes com animais peçonhentos na região, funcionando como porta aberta – sem necessidade de agendamento – para esses casos. Em ocorrências em áreas mais afastadas, recomenda-se buscar imediatamente a unidade de saúde mais próxima para atendimento inicial e, se necessário, encaminhamento ao hospital de referência. O HRC está devidamente abastecido com soros antiescorpiônico, antiofídico e antilonômico. A descentralização do atendimento é essencial, uma vez que o tempo entre a picada e o início da assistência é fator crítico para evitar a progressão do envenenamento. E os grupos mais vulneráveis são crianças de até 10 anos e idosos, que apresentam maior risco de complicações.

Espécies e suas características

As espécies de importância médica na região são: Tityus serrulatus e Tityus bahiensis, com características distintas que influenciam diretamente na sua distribuição geográfica e possibilidade de acidentes. A espécie Tityus serrulatus, conhecida popularmente como escorpião-amarelo, possui uma coloração predominantemente amarela, com um corpo alongado e uma cauda com serrilhas na base. Esta espécie é partenogenética, ou seja, a fêmea é capaz de se reproduzir sem a presença de um macho, o que facilita sua rápida disseminação em ambientes urbanos. É altamente adaptável e resistente, vivendo bem em ambientes quentes e úmidos como ralos, caixas de esgoto e entulhos. Seu veneno é neurotóxico e pode causar sintomas graves, especialmente em crianças, podendo levar à morte se não houver atendimento médico rápido.

Já o Tityus bahiensis, conhecido como escorpião-marrom, apresenta coloração escura, variando do marrom-escuro ao preto, com patas mais claras. Diferente do T. serrulatus, ele não se reproduz por partenogênese, o que limita sua capacidade de expansão. Apesar de seu veneno também ser tóxico, os acidentes causados por essa espécie tendem a ser menos graves. O T. bahiensis é mais comum em áreas rurais e periurbanas, mas também tem sido encontrado em centros urbanos em menor quantidade.

Um problema nacional

O número de acidentes com escorpiões não é uma exclusividade da nossa região. Um estudo publicado na revista Frontiers in Public Health aponta um aumento de 250% nos casos de picadas em menos de uma década. Entre 2014 e 2023, o Brasil registrou cerca de 1,17 milhão de ocorrências, com previsão de ultrapassar os 2 milhões até 2033, se o ritmo continuar.

Segundo Leonardo Marconato, biólogo e professor da Estácio, as altas temperaturas favorecem a atividade dos escorpiões, tornando o verão um período mais crítico para acidentes. Ou seja, se no frio eles já estão aparecendo, no calor vai piorar. Marconato reforça que, apesar de desempenharem um papel importante no controle de insetos em seu ambiente natural, esses aracnídeos representam um risco à saúde pública em áreas densamente povoadas.

De acordo com o professor, a prevenção passa por ações simples, como vedar frestas, tapar os ralos, manter os ambientes limpos, sem entulhos, e combater focos de insetos que servem de alimento para os escorpiões.

Em caso de picada, é essencial buscar atendimento médico imediato, além de limpar o local da picada com água e sabão e fazer compressa com água quente para aliviar a dor. Se possível, com segurança, capturar o escorpião para identificação e aplicação do soro específico.

Captura cuidadosa

A captura do animal, se realizada, deve ser feita com extremo cuidado, sem contato direto. Recomenda-se o uso de pinças ou ferramentas longas, mantendo o escorpião em frasco de vidro bem vedado, vivo ou morto, para fins de identificação pela equipe técnica.

Cartilha sobre Escorpiões

No atendimento às vítimas de picadas de escorpião, cada minuto é valioso e os profissionais de saúde devem estar preparados para atender a essas situações. Por isso, a Fehosp (Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo) criou um e-book , em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde, para orientar as instituições da rede filantrópica para atendimento a essas ocorrências.

O material é voltado a gestores de saúde, Unidades Básicas de Saúde, hospitais, Pronto Atendimentos (PA’s), profissionais de saúde, lideranças de atendimento ao usuário, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), Departamentos Regionais de Saúde (DRS) e Conselho dos Secretários Municipais de São Paulo (COSEMS), mas traz informações bem didáticas que podem ser importantes para a comunidade em geral.

Cada minuto conta no atendimento a Crianças

As crianças são as vítimas mais preocupantes, uma vez que nesse público o risco de óbito é maior. “As crianças pequenas, quando picadas, choram muito, mas não sabem explicar o que aconteceu, que foram picadas e muito menos qual foi o animal. Os pais ou responsáveis só suspeitam quando encontram o animal no local onde a criança está ou quando há outros acidentes com escorpião na família”, fala o diretor-presidente da Fehosp, Edson Rogatti. “Em caso de suspeita, as crianças devem ser encaminhadas rapidamente para um ponto estratégico ou unidade centro de referência que ofereça o soro antiescorpiônico”, completa. No Link  é possível encontrar os pontos de distribuição de soro.

Os sintomas variam de acordo com a quantidade do veneno e a massa corporal do paciente. Em crianças, ocorrerá inicialmente choro intenso e abrupto, e, dependendo da idade, a identificação do local da dor (normalmente dedos das mãos e pés).

O local da picada poderá (porém, nem sempre) apresentar inchaço e vermelhidão. Posteriormente, há evolução de quadro clínico para sudorese (suor), sonolência (criança fica letárgica) com alternância de agitação (devido à dor intensa).

Passado mais algum tempo, iniciam-se alguns vômitos, que vão se intensificando ao longo do tempo com aumento dos batimentos cardíacos e da respiração. O vômito mostra a necessidade de que se administre o soro antiescorpiônico o quanto antes na criança.

“Pediatras também podem fazer parte dessa campanha, orientando profissionais de saúde a desconfiarem de picada de escorpião e encaminharem as crianças de forma correta e ágil para as unidades de referência”, ressalta Rogatti. “Quanto mais esclarecimentos, tanto para a população, quanto para os profissionais de saúde, mais vidas podem ser salvas”, conclui.

Por Mônica Krausz

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