Arte de KV Duong

Milenna Saraiva escreve sobre a arte do pintor abstrato e performance artist, nascido em 1980.

Apesar de sempre ter a arte como uma ferramenta de escape em sua infância, KV Duong cedeu aos conselhos familiares e formou-se em engenharia, profissão que ainda exerce nos dias de hoje em paralelo à sua criação artística. Os principais temas em seu trabalho são a exploração da sua própria identidade, a imigração por causa de guerras, sexualidade e relacionamentos humanos.

Sua inspiração é tirada de sua própria vida. O artista nasceu e foi criado em Saigon, Vietnã. Sua família se mudou para o Canadá, Toronto, fugindo das guerras que lá aconteciam constantemente. Mais tarde, KV decidiu mudar-se para Londres, Inglaterra, onde hoje vive e trabalha.

Sua obra é carregada de significado e história. Algumas telas contêm colagens e objetos encontrados por ele, como pregos enferrujados e papel de arroz. Tudo em sua obra revela um segredo e uma parte do quebra-cabeça que é sua história. Outro aspecto importante em sua narrativa foi a própria aceitação de sua sexualidade. Vindo de uma família asiática e com tradições rígidas, KV demorou muito tempo para ter a coragem de ser quem ele é hoje: um artista em ascensão e orgulhoso de si.

Duong consegue expressar todas estas facetas de sua existência de forma forte e ao mesmo tempo delicada em suas pinturas abstratas. Mas seu maior êxito vem de suas pinturas de grandes formatos, criadas ao vivo na frente de uma plateia, com seu próprio corpo. Nelas, ferramentas e criador se unem e as paletas monocromáticas gritam alto tudo dentro dele contido.

 

Vamos Observar
Turbulência, 2017
Tinta acrílica sobre tela
300 x 500 cm
Performance ao vivo
Concept Space, Salão de Inverno
Londres, Inglaterra.

 

Existe um senso de urgência e vulnerabilidade na exploração de materiais e texturas escolhidas pelo artista. KV já pintou sobre caixas de papelão como um tributo à fábrica de seus pais no Canadá. Já pintou também em placas de polímero, fazendo referência à sua formação como engenheiro estrutural. Mas as pinturas corporais de Duong são expressões emocionais profundas e carregadas de emoções. A interação da pele com a tinta, sendo arrastada pela tela, cria uma intimidade imediata com os espectadores. É como se, de repente, pessoas completamente estranhas pudessem entender não somente seus métodos, mas também sentir o que o artista sente durante sua criação. A performance é uma modalidade artística híbrida, isto é, que pode mesclar diversas linguagens como teatro, música e artes visuais. No universo das artes, esse tipo de fazer artístico surgiu a partir da segunda metade do século 20, em decorrência de desdobramentos da pop art e da arte conceitual nos anos 1960 e 1970. Contudo, pode-se dizer que a performance tem relações com movimentos modernistas mais antigos, como o dadaísmo e a Escola de Bauhaus. Marina Abramovic, um dos maiores nomes do gênero e uma das principais referências para o artista, define a performance art como “uma construção física e mental que o artista executa num determinado tempo e espaço, na frente de uma audiência. É um diálogo de energia, em que plateia e artista constroem juntos a obra”. Apesar da definição relativamente simples, essa é uma das linguagens mais desafiadoras da contemporaneidade, pois sua apreensão depende de uma conexão subjetiva entre público e artista. Além disso, a arte performática tem o poder de questionar e ressignificar certos conceitos cotidianos, tais como o corpo, a mente e o tempo. Para o público, nem sempre é fácil ter seu lugar comum desafiado. Em uma performance, o corpo do artista não serve mais às necessidades básicas ou cotidianas do ser humano, ele é utilizado como instrumento para gerar novos sentidos. No trabalho de Duong, o performer se utiliza da nudez para ressignificar sua imagem – ele não mais seria o homem diante da plateia, mas um veículo para sua criação. Durante a performance, o corpo deixa de ser dele e passa a ser uma obra de arte em si. Em um museu, não se pode tocar em pinturas ou esculturas, a performance é uma das únicas possibilidades artísticas em que a interação com o público não só é permitida como passa a ser parte da própria obra. Mas não é só de corpo que se faz uma performance. O desafio é, sobretudo, mental. O performer não precisa ser um atleta. A realização de determinada obra está muita mais ligada a um preparo emocional e mental. A arte e a performance vêm de um lugar que a gente não sabe. Estão muito mais ligadas ao afeto, ao coração, ao instinto, ao amor, a raiva e a emoção do momento.

O que faz KV Duong se diferenciar de outros artistas do gênero é que o resultado final é tão bonito quanto seu processo e como sua mente. Posso dizer isso com autoridade, pois tive o privilégio de trabalhar e de expor com o artista no ano passado em Londres.

Assista a performance “Turbulence” de KV Duong:

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